Depois que Eva dormiu, Lilith zanzou pela casa. Do quarto da anfitriã, saiu na sala enorme e quase nua, com outras três portas. Escolheu uma. Deu em outro quarto, similar ao onde deitara com Eva, uma janela para a noite, a porta por onde entrara e outra bem em frente, uma cama, esta de solteiro. Ao invés de voltar, atravessou o aposento e abriu a porta em frente. Deu em outra sala interna, esta decorada ao modo árabe, como num conto das mil e uma noites. Agora a janela ficava à sua frente, a porta à sua direita. Testou a maçaneta, entrou em outra sala, em tudo um consultório de psicanálise, divã, poltrona, estante com livros, na parede em frente, uma janela, lá fora, a noite, à direita, uma porta. Entrou no aposento aflita e pensou em voltar. Lembrou-se de João e Maria e quis ter um pedaço de pão, com um miolo bem farto, em um bolso. Lilith estava nua. Pensou também em Alice, a do país das maravilhas. Foi aí que notou o espelho onde pensava haver uma porta, à sua direita. À esquerda, uma cortina, detrás da cortina, agora, sim, outra porta. Testou a maçaneta, dura, empurrou a porta, que rangeu. Foi parar num antigo estúdio, nos fundos de uma velha Igreja medieval, telas num canto, ou sobre a mesa, uma, em andamento, num cavalete. Uma pequena janela, num canto alto ao fundo, nenhuma porta, aparentemente. Entrou e fez um giro completo. A porta por por onde viera se fechara. Testou-a. Trancada. Lilith sentiu o cheiro das tintas, os pincéis prontos para o ato a tela pelo meio: um jardim.