Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

14.4.08

Sobre o nosso jogo

Agradeço a você que chegou até aqui. Os posts mais recentes são peças de um mesmo jogo, O Jardim das Delícias. Embora numeradas de 1 a 13, com alguns detalhes pelo meio, nada impede que você as alinhave ao sabor do desejo, encontrando nos  vãos  a sua história, o seu jardim.  Boa (re)leitura.

criado por ciadaobesidade    22:01 — Arquivado em: Sem categoria

Lá (J.D. 12,9)

Admirando Bosch é difícil não quedar paralisado de fascinação. Mas a saída está lá, na nossa cara. É preciso plantar um jardim.

criado por ciadaobesidade    21:38 — Arquivado em: Sem categoria

Carrossel (J.D. 12,8)

Admirando Bosch, parece que a vida é uma roleta viciada, um carrossel luminoso em que giramos sem parar, apenas mudando de banco, estrebuchando de prazer sem saber que dividimos espaço com os demônios Lúcifer, Leviatã, Satã, Belphegor, Mammom, Belzebu e Asmodeu que, assim que tocar a campainha decretando o final da rodada, vão simplesmente foder com a gente?

criado por ciadaobesidade    21:33 — Arquivado em: Sem categoria

Costura (J.D. 12,7)

Eva lembrou de como o pai a colocava na cama, puxava a coberta, se deitava ao seu lado e esperava que a menina pedisse: pai, me conta uma história. Ele sugeria títulos de um amplo repertório, contos de fadas, memórias da família, musicais com Gene Kelly ou Fred Astaire. Mas Eva exigia sempre as mesmas narrativas, titulares da sua seleção das mais amadas. Caso seu pai colocasse um detalhe a mais ou outra entonação, Eva cobrava fidelidade ao original, que recitava em minúcias, como a reza baixa do terço que sua avó católica desfiava. O pai costurava histórias até Eva dormir.

criado por ciadaobesidade    21:11 — Arquivado em: Sem categoria

Edições (JD 12,6)

Lilith quis contar para a outra sobre Morpheus, o Sandman de Neil Gaiman, aquela obra-prima dos quadrinhos, o herói, ou anti-herói, sei lá, que viajou tempos e espaços em setenta edições, acho que foram setenta, assinadas pelo maior roteirista de quadrinhos do mundo moderno, o maior, depois de Einer, mas Einer não conta, Eisner é Deus, com o Spirit, mas o Sandman é talvez tenha estado com Bosch, Morpheus com certeza esteve, soprando seus sonhos, mas Lilith não teve tempo de dizer mais nada, a frase saiu pelo meio, cortada por um último nome para o sexo que carregava entre as pernas e que dava tanto prazer, quando tocado por Eva, Eva parecia um personagem de Gaiman, ela também, talvez, Lilith, como Lady Death, a irmã gostosinha de Morpheus, e que ajuda a gente a fazer outras passagens.

criado por ciadaobesidade    20:51 — Arquivado em: Sem categoria

Nomes (JD 12,5)

Buça, buceta, boceta, busca, busquela, busquelinha, xoxotinha, xavasca, xota, xana, xereca, xibiu, pupuca, perseguida, coisinha, gracinha, pombinha… Buscavam apelidos num duelo. A fonte. A origem. Rindo, rindo. Pegando no sono.

criado por ciadaobesidade    20:42 — Arquivado em: Sem categoria

Disney (JD 12,4)

Antes que as duas dormissem, conversaram sobre pintura. Lilith disse que gostaria de ir à Holanda, conhecer a cidade de Bosch. Eva disse que agora a cidade era uma espécie de parque de diversões, com direito a boneco de cera e cenografia no antigo ateliê do mestre, todo tipo de bonequinhos e memorabilia envolvendo a obra do Bosco, estátuas de seus monstrinhos em praça pública. Uma fonte da vida, gigantesca, põe nesse nosso mundo aquele detalhe do canto esquerdo da primeira parte do tríptico. Nem Walt Disney faria melhor. Disse também que, em matéria de fonte da vida preferia o pequeno quadro A Origem da Vida, na Galerie Dorsay, em Paris, de Courbet. Lembra? A bucetinha em tamanho natural, o extremo realismo, o naturalismo do retrato daquela bucetinha, discretamente colocado num canto, e que jogava na cara de quem passava a verdadeira fonte da vida. Jogava na cara. Eva gostava mesmo da fonte da vida. Onde, aliás, acabara de beber longos goles.

criado por ciadaobesidade    20:27 — Arquivado em: Sem categoria

Tempestade (JD 12,3)

Depois que as duas dormiram, caiu uma tempestade. A água da chuva entrava pelas janelas abertas, molhando quartos, quadros, tapetes, sofás, cozinhas, facas, tintas e camas. A prata dos raios iluminava de vez em quando os corpos nus das mulheres que afundavam no sono, cada vez mais profundo, cada vez mais avesso aos rugidos dos trovões, como se as duas fossem meninas brincando de mergulho rente aos azulejos de uma piscina. As gotas que, finalmente, começaram a alfinetar as mulheres, chegavam como carícias. Mesmo com tanta chuva, a noite era morna. As duas dormiam. As duas precisavam muito dormir. Acordaram no fim da manhã, abraçadas, sem saber como ou quando começara o enlace, naquela cama encharcada em Madri.

criado por ciadaobesidade    20:19 — Arquivado em: Sem categoria

Cozinha (JD 12,2)

Depois que Lilith dormiu, Eva foi até a cozinha, abriu a gaveta de talheres e pegou a faca de carnes, com a qual fazia cortes de primeira em grandes pedaços de boi, voltou ao quarto e, sentada na beira da cama, começou a fazer um lento talho na pele de seu peito, sobre o mamilo direito, um L e um E. Passou o lençol sobre a ferida. Lilith ressonou e, virando-se na cama, continuou a dormir.

criado por ciadaobesidade    20:05 — Arquivado em: Sem categoria

Portas (JD 12,1)

Depois que Eva dormiu, Lilith zanzou pela casa. Do quarto da anfitriã, saiu na sala enorme e quase nua, com outras três portas. Escolheu uma. Deu em outro quarto, similar ao onde deitara com Eva, uma janela para a noite, a porta por onde entrara e outra bem em frente, uma cama, esta de solteiro. Ao invés de voltar, atravessou o aposento e abriu a porta em frente. Deu em outra sala interna, esta decorada ao modo árabe, como num conto das mil e uma noites. Agora a janela ficava à sua frente, a porta à sua direita. Testou a maçaneta, entrou em outra sala, em tudo um consultório de psicanálise, divã, poltrona, estante com livros, na parede em frente, uma janela, lá fora, a noite, à direita, uma porta. Entrou no aposento aflita e pensou em voltar. Lembrou-se de João e Maria e quis ter um pedaço de pão, com um miolo bem farto, em um bolso. Lilith estava nua. Pensou também em Alice, a do país das maravilhas. Foi aí que notou o espelho onde pensava haver uma porta, à sua direita. À esquerda, uma cortina, detrás da cortina, agora, sim, outra porta. Testou a maçaneta, dura, empurrou a porta, que rangeu. Foi parar num antigo estúdio, nos fundos de uma velha Igreja medieval, telas num canto, ou sobre a mesa, uma, em andamento, num cavalete. Uma pequena janela, num canto alto ao fundo, nenhuma porta, aparentemente. Entrou e fez um giro completo. A porta por por onde viera se fechara. Testou-a. Trancada. Lilith sentiu o cheiro das tintas, os pincéis prontos para o ato a tela pelo meio: um jardim.

criado por ciadaobesidade    19:54 — Arquivado em: Sem categoria

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