12.4.08
Pra quê mentir? (JD 13)
Pra quê mentir? Inventar nomes, cargos, poses, histórias, lendas, figurinos, cenários, gestos… Pra quê? São apenas duas mulheres que se encontram na puta que o pariu, que viveram na mesma cidade quase a vida toda, podiam ter se cruzado na Avenida Paulista, vai ver pararam juntas diante de um mesmo quadro, no MASP, ou comeram pedaços de abacaxi na mesma banquinha, atravessaram no mesmo tempo de farol. Uma era quase menina quando a outra já era muito mulher, mas até aí tudo bem, há tantos amores precoces. E às vezes a gente dá um giro justamente pra isso, encontrar um amor ou amores. Os aviões estão cheios de gente em busca de aventura. Ou de vida nova. Oportunidades. Empregos. E, mais uma vez, amores. Gente que era travada e que, duas horas depois do desembarque, está trepando que nem louca. Gente que vai cruzar tantas pessoas e que sempre, no fundo de cada gozo, lá num cantinho do baú da memória, vai dar de cara com o mesmo rosto, um amor que deixou, um amor que nem levava em conta, nem pensava que era amor. Ou que mentia pra si mesma que não era, não era, não podia ser, não devia, jamais, não tem a menor condição, não é, definitivamente não é. Amor. Mas acontece. Como acontece que quem era vizinho aqui só vai se cruzar lá fora, graças a um quadro, um poema, uma esquina, que você devia virar pra direita e que, sem notar, acabou dobrando pra esquerda, indo parar no Jardim das Delícias. É uma delícia passear por cidades que têm muitos jardins, que a cada não sei quantas quadras te apresentam um parque novo, com árvores centenárias, laguinhos, às vezes animais, pipocas e bancos. Sem falar nas cidades dos sonhos, que deformam lugares vistos, cartões postais, filmes e memórias, principalmente as dos outros, contadas, largadas na superfície do grande lago coletivo, à deriva, e que de repente vêm parar na margem, aos teus pés. E é bom mentir, mentir mil vezes, mentir amores, amores mentem o tempo todo, amores são pura mentira, puro teatro, onde duas moças de respeito bailam de rosto colado e depois mergulham entre as pernas uma da outra, no devaneio dos cheiros e toques musicais. Madri é uma bela cidade. Boa para segredos e mentiras. Perfeita para paixões almodovarianas, duplicandos as imagens, como carimbos de brinquedo que na infância Lilith (ou Eva?) coloria. O amor dura pouco. É melhor mentir, mentir, mentir, enquanto é tempo.


criado por ciadaobesidade
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