Deitada sobre a tela branca e úmida, olhava o teto, outra tela branca, e acompanhava ranhuras na tinta, pontos descascados, enquanto a mulher mais velha lambuzava seu corpo nu com cores primárias, primeiro amarelo, e ao mesmo tempo estendia língua rombuda que passeou por sua axila direita, um arrepio, cócegas, depois vermelho, com um mordisco direto no mamilo, num gesto rápido de cabeça, depois azul, formando poça em sua barriga e então a boca mergulhou em sua boca, o primeiro beijo, salgado, suor do dia, verão em Madri, um quê das tintas, que de resto invadiam suas narinas, fechou os olhos e curtiu a língua zanzando em sua boca e tocando a sua língua, as duas deslizando, bater de dentes. Então a outra, a mulher mais velha, numa manobra rápida começou a massagear seus pés de unhas bem feitas, esmalte incolor, o dedão e o indicador afundando entre seus artelhos, nos metatarsos, sentiu dores fundas e foi relaxando, depois a borda interna e a externa e os tornozelos, cansados de horas de pé naquele puta museu, e veio com a língua, em cada reentrância, veio uma aflição e se retraiu, para depois se entregar novamente e depois as tintas, mais uma vez lambuzando seu corpo, subiu pelas coxas, usando as mãos coloridas, a mulher mais velha, apalpou as pernas, uma mão enérgica, esperta, de massagista cega em termas da infância, carinhou as rótulas e subiu pelo arco interno das coxas, primeiro a direita, a esquerda a seguir, e ela pensou, feliz, que bom que tinha depilado ontem mesmo, no chuveiro de casa, com um barbeador barato e sorriu e então o dedo médio da outra, a mulher mais velha, arranhou seu púbis, roçando seu sexo como quem não quer nada, e vieram outros dedos, peritos, e a mão inteira, como artista na argila, num suspiro ela afastou as pernas, um tico, não muito, tintas se misturando e aí um dedo penetrou-a, direto, bem fundo, soltou um gemido, largada, e ganhou mais um beijo, azul escorria no vão de suas coxas, sentia as gotas traçando desenhos nas dobras das nádegas, e um segundo dedo alcançou seu cuzinho, enquanto a língua lixava com fé seu clitóris e mirando o teto lembrou lá da infância, a primeira vez que seu pai a levou num museu, no Masp, em São Paulo, e seu prazer imenso ao descobrir tantas telas, em especial aquela do mestre Bosch, As Tentações de Santo Antão, com detalhes e delícias e foi ali mesmo, na tarde paulistana, que decidiu que seria uma artista algum dia.
(Continua…)