Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

11.4.08

Obra (Jardim das Delícias 4)

Bosch nunca saiu de sua cidade. Bosch não precisou ver o mundo. Bosch sonhou o mundo. Bosch pintou o mundo. As mãos da mulher mais velha agora seguravam suas nádegas e ela beijava, lambia, mordia seu sexo com a lentidão de monja em ritual antigo de religião secreta num templo esquecido no canto mais remoto do mundo.  Pensou em Bosch, no ateliê de pintura, no fundo da igreja, na cidade da Holanda, já faz alguns séculos, na agonia e no êxtase, na criação uma obra-prima, como um dia disse sua professor de História da Arte 1, na faculdade pública em que se formara.

criado por ciadaobesidade    19:34 — Arquivado em: Sem categoria

As Tentações de Santo Antão(Jardim das Delícias 3)

Deitada sobre a tela branca e úmida, olhava o teto, outra tela branca, e acompanhava ranhuras na tinta, pontos descascados, enquanto a mulher mais velha lambuzava seu corpo nu com cores primárias, primeiro amarelo, e ao mesmo tempo estendia língua rombuda que passeou por sua axila direita, um arrepio, cócegas, depois vermelho, com um mordisco direto no mamilo, num gesto rápido de cabeça, depois azul, formando poça em sua barriga e então a boca mergulhou em sua boca, o primeiro beijo, salgado, suor do dia, verão em Madri, um quê das tintas, que de resto invadiam suas narinas, fechou os olhos e curtiu a língua zanzando em sua boca e tocando a sua língua, as duas deslizando, bater de dentes. Então a outra, a mulher mais velha, numa manobra rápida começou a massagear seus pés de unhas bem feitas, esmalte incolor, o dedão e o indicador afundando entre seus artelhos, nos metatarsos, sentiu dores fundas e foi relaxando, depois a borda interna e a externa e os tornozelos, cansados de horas de pé naquele puta museu, e veio com a língua, em cada reentrância, veio uma aflição e se retraiu, para depois se entregar novamente e depois as tintas,  mais uma vez lambuzando seu corpo, subiu pelas coxas, usando as mãos coloridas, a mulher mais velha, apalpou as pernas, uma mão enérgica, esperta, de massagista cega em termas da infância, carinhou as rótulas e subiu pelo arco interno das coxas, primeiro a direita, a esquerda a seguir, e ela pensou, feliz, que bom que tinha depilado ontem mesmo, no chuveiro de casa, com um barbeador barato e sorriu e então o dedo médio da outra, a mulher mais velha, arranhou seu púbis, roçando seu sexo como quem não quer nada, e vieram outros dedos, peritos, e a mão inteira, como artista na argila, num suspiro ela afastou as pernas, um tico, não muito, tintas se misturando e aí um dedo penetrou-a, direto, bem fundo, soltou um gemido, largada, e ganhou mais um beijo, azul escorria no vão de suas coxas, sentia as gotas traçando desenhos nas dobras das nádegas, e um segundo dedo alcançou seu cuzinho, enquanto a língua lixava com fé seu clitóris e mirando o teto lembrou lá da infância, a primeira vez que seu pai a levou num museu, no Masp, em São Paulo, e seu prazer imenso ao descobrir tantas telas, em especial aquela do mestre Bosch, As Tentações de Santo Antão, com detalhes e delícias e foi ali mesmo, na tarde paulistana, que decidiu que seria uma artista algum dia.

 

(Continua…)

 

criado por ciadaobesidade    19:20 — Arquivado em: Sem categoria

Vila Mariana

Seis e meia, lusco-fusco, aquele céu carmim encardido, rabiscado pela garoa fina, aí anoitece, a luz não vem, ruas apagadas, os prédios também, velas acesas nas janelas  e aqui no buteco onde todo começo de noite velhos amigos tomam umas e petiscam, faróis acesos nos carros parados, veias da Vila coalhadas, lojas baixando as portas um pouquinho mais cedo, passantes se equilibrando debaixo de sombrinhas urgentes, compradas por cinco contos nas bocas do metrô, a chuva agora engrossa, inunda o meio-fio, junto com a escuridão quase plena despoja as casas que hoje abrigam comércios das fachadas luminosas e quem anda à pé vê de pertinho a vila antiga, sobrados e casas térreas, alguns ainda imponentes, outros proletários, em sua monótoma redundância, tudo transformado em imenso parque de serviços e então desvia das poças e atravessa correndo rumo ao descanso em família ou ao turno da noite que há de começar assim que se faça a luz.

criado por ciadaobesidade    16:31 — Arquivado em: Sem categoria

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