10.4.08
Alla Prima (Jardim das DelÃcias 2)
Se alguém perguntasse, diria que já se apaixonou muitas vezes. Na verdade, foram três suas paixões, incluindo aí o garoto banguela do primeiro ano, que ela achava lindo, mas que preferia jogar bola com os os colegas e acabou virando um pitboy asqueroso. As outras duas bateram forte, uma na adolescência, se alguém perguntasse poderia afirmar, com segurança, que aquele foi seu primeiro amor. Outra nos tempos da faculdade, um amor que durou anos, com direito a casa conjunta, muitas brigas e a resolução definitiva de realizar esta viagem, buscando de uma vez seu Jardim das Delícias. Se alguém perguntasse até segundos atrás, provavelmente ela diria isso tudo ou coisa parecida, agora, fulminada, não encontra palavra, as frases espirituosas desaparecem, mal consegue esconder sua cara de besta no sorriso tosco que lança. Bosch herdou de Van Eyck o uso da tinta óleo, técnica que permitia precisão e detalhismo impressionantes, e que Bosch usava de um modo ousado, Alla Prima. Primeiro preparava a tela, umedecendo-a de modo apropriado. Aí, pegava seus pincéis com cerdas minuciosamente aparadas e lançava-se na obra. A tinta secava logo e não permitia grandes retoques. As coisas aconteciam de primeira. Eram ou não eram. A técnica exigia muito do artista, em troca, perpetuava a espontaneidade de seu gesto. Do primeiro gesto. A mulher mais velha esbarrou em sua bolsa, virou-se para ela, sorriu e pediu desculpas em português. Tudo simples e banal. Antes que se desse conta, antes que registrasse o gesto, a voz, o conteúdo da fala, antes que esboçasse resposta, já estava fisgada. Alla Prima.
(Continua…)


criado por ciadaobesidade
19:26 — Arquivado em: