7.4.08
Carta ao K.
Olá, K.
Penso em escrever esta carta faz tempo. A falta do dito elemento, o excesso dele, o receio de não encontrar as palavras certas, de me afogar numa poça do tempo, numa cidade perdida no tempo, tudo isso me afastava do papel e da caneta.
Não superei dúvidas e medos, mas estou aqui. Talvez esteja aqui justamente porque não os superei, querido K. Ou seja, são eles, a dúvida, o medo, o tempo, não necesariamente nessa ordem, que mordem meu fígado.
É. Penso agora em Prometeu. Primeiro, o do trágico grego, depois o Prometeu da tua diabólica parábola. Prometeu que o tempo erode, até que de herói, grilhão e pedra reste nada.
Saiu sem querer essa alusão, no balanço do segundo parágrafo. Na mudança para o terceiro percebi os caminhos do recalque e pesquei o peixe. Prometeu.
Querido K., deu pra perceber como eu me sinto amarrado? Preso. E olha que você e eu sabemos que de herói não tenho sombra - talvez as fantasias para os divãs dos terapeutas, que, como máscaras, delineiam, sublinham, tornam mais visíveis e, às vezes, apoteóticas, as dores humanas, comuns.
Prometeu. Você sabe que já rabisquei sobre o original de Ésquilo, como um antigo escriba sobre papiros igualmente antigos, uma versão contemporânea do Prometeu. Foi uma aventura fascinante e selvagem. A peça foi montada por Paulo Fabiano, em São Paulo. Um trabalho encantador - embora extremamente violento.
A peça também já passou, K., e sinto que começo a tergiversar. Força do hábito. Mais uma cadeia, a do pensamento.
A verdade é que evito conversas, passo ao largo dos grupos de colegas no trabalho, queimei minhas agendas, não respondo e-mails. Passo horas indo e vindo num vagão do metrô, de um extremo a outro da linha. Devoro livros policiais e narrativas de viajantes. Tomo xícaras seguidas de café nos butecos.
Uma dor fina… Não, uma dor não… Um torpor, quase uma névoa mantém meus olhos baixos, como você pode ver nas fotos que te envio.
Caro K., eu queria escrever muitas cartas, como aquela, por exemplo, que você escreveu para seu pai. O meu nem entenderia. Cartas de amor ou com planos de vida para as mulheres que amei, ou acho que amei. Tenho pensado se, um dia, cheguei realmente a amar o amor dos amantes, das almas gêmeas ou dos verdadeiros companheiros.
Acho que minha estrutura não permitiria. Essa couraça. Essas histórias todas de infância que já te contei em tantas e tantas cartas, ou, de modo cifrado, em tantos e tantos textos, que você, mais do que ninguém, sabe destrinchar como sardinha fresca.
Mandei recentemente carta a Bernardo, em Lisboa, tratando francamente de questões como essas. Não obtive resposta.
Evidentemente que já sabia que resposta não viria. Não foi esse o nosso trato? Repostas, só enviesadas, no subtexto de obras escritas já há muito tempo, ou que serão escritas no futuro.
Enfim, caro K., tenho sonhado novamente com amplas cidades, fusões de Tokio e Paris, por exemplo, e eu me perco nos arrabaldes, em obras imensas da periferia, sem ter como voltar. Então, acordo.
Não que meu sono esteja lá essas coisas. Durmo tarde, acordo cedo, vago com sono, rabisco cartas.
No revés dos espelhos acho que descobri o óbvio. Monstro na fronteira, estou quieto, parado, à espera do tiro. E não sei como sair daqui.
Um grande abraço,


criado por ciadaobesidade
13:51 — Arquivado em: 
