6.4.08
ele e o mal
Acho que consigo lembrar. Primeiro comecei a olhar longamente para ele. Fazer recortes mentais, quadros onde a presença dele, em primeiro plano, era o punctum para o qual refluia a paisagem, a atenção, a energia e o desejo. Os olhares longos ficaram freqüentes. As conversas, também. Procurava saber tudo da sua vida. Pequenos detalhes, os menores, me interessavam. A cor de um par de meias. Um levíssimo tique. O jeito como passava a língua sobre o lábio superior sempre que estava ansioso, com medo, ou quando alguém o excitava. Comecei a imitar seus gestos na frente do espelho, a comprar roupas nas mesmas lojas, a tomar os mesmos drinques nos mesmos bares e boates. Trocávamos também e-mails, que eu jamais deletava. Ao invés disso, tinha por hábito arquivar em pasta própria, convenientemente escondida entre as outras, nomeada simplesmente com o pronome “ele”. Conheci seus amigos – e também conquistei suas amizades. Conheci algumas de suas mulheres – de algumas ouvi as queixas ou absorvi retratos mais ou menos elogiosos; deitei-me com outras, explorando cada dobra dos corpos como, imagino, ele os explorara. No trabalho, local onde, de resto, nos conhecemos, bastaram conversas reservadas com chefes comuns para minar sua reputação. De modo cruzado, em nossas conversas íntimas, estimulava suas confissões e críticas à empresa, que de modo descuidado, repassava para os ouvidos certos. Foi demitido numa quinta, por telegrama, nem seu crachá passava mais na catraca. Alguns dos amigos se afastaram na seqüência, pois no mundo corporativo amizade acompanha o gráfico do sucesso. Fui um dos poucos que sobraram – e nas rodas dos que trabalhavam para reerguê-lo, eu era o primeiro a admirar sua fibra e estranhar sua depressão. Um a um, todos os outros e outras se foram. Até que ficamos nós dois e, enfim, ele morreu em meus braços, de ataque cardíaco.


criado por ciadaobesidade
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