Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

4.4.08

O Sobrado do Morumbi

 

Morávamos num sobrado perto da Ponte do Morumbi, a casa ficava numa pirambeira, cercada por enormes lotes vazios, no de cima o mato crescia solto, formava verdadeiras grutas, onde aprendi a brincar de besteira com a filha do dono do buteco em frente, menina pouco mais velha do que eu.

O terreno de baixo era bem cuidado, no quintal dos fundos da nossa casa uma porta dava acesso ao descampado e a um barracão de tijolos, com chão de terra batida, onde meu pai guardava um antigo baú de meu avô, cujo cadeado meu irmão e eu vivíamos tentando arrombar, mesmo porque meu pai perdera a chave da urna.

Uma tarde de domingo, com um arame grosso, consegui vencer o segredo. Não lembro o que estava guardado ali. Com certeza, adquiri desse modo o hábito de fuçar armários, gavetas e escrivaninhas das casas onde moramos. E de continuar fuçando recônditos vida afora.

Meu irmão caçula não gostava da comida que minha mãe fazia, nem da que a Maria, nossa empregada, improvisava. Ele gostava mesmo era da comida da mulher do dono do bar em frente, cuja filha me ensinava coisas da vida nos baldios. Todo almoço, lá ia o pequeno garoto almoçar na cozinha do buteco.

Passávamos as manhãs brincando. A ladeira de nossa casa, mesmo depois de asfaltada, não era moleza para o gordini do meu avô ou o fusca verde do meu pai. A rua não tinha saída. No seu fim, os carros manobravam e encaravam a subida, para pegar à direita e cair na Avenida Morumbi. Aí, bastava pegar a ponte e tomar rumo na cidade.

A rua terminava na amplidão, um enorme terreno vazio que ia até as margens do Rio Pinheiros, ladeando a Marginal, que não era sombra do que é hoje – meio que terminava por ali. Bem depois é que foi estendida pros lados da João Dias, enquanto nascia o Jardim São Luís, e a cidade crescia para os cafundós da Zona Sul.

Naquele tempo, ali era o fim do mundo.

Aqueles terrenos facilmente ficavam encharcados pela chuva ou pelo próprio rio. A terra, depois de seca, formava crostas craqueladas. As cascas pareciam pedaços de ovos de Páscoa. Também encontrávamos muita erva-doce e mamona, para guerrinhas.

O terreno ao lado da casa de meu pai era separado da rua por um muro, em cujo beiral havia uma cerca de arama farpado. Uma vez, escapando de uma surra que um grupo de maloqueiros queria me dar, fiz um talho em perna e coxa.

Nesse mesmo terreno, gostava de brincar com as filhas da Maria, nossa empregada. As mesmas brincadeiras que a filha do dono do bar me ensinara.

Fazíamos também, junto com nosso paí, enormes fogueiras. Uma delas foi em homenagem ao Garrincha, o enorme viralata branco que ganháramos de nossa tia. O cão costumava desaparecer durante dias, voltando sujo e enlameado. Numa dessas escapadas, Garrincha voltou acabado. Voltou para morrer. Meu pai cavou a terra atrás do barracão e enterrou seu corpo. Fizemos então a fogueira.

Meu irmão e eu também gostávamos muito de abrir a torneira do corredor lateral e inundar os ladrilhos. Brincávamos de piscininha, escorregando pela tarde. À noite, minha mãe nos levava para cama, em nossos pijaminhas de flanela. Muitas vezes, meu pai viajava a trabalho e não podia acompanhá-la.

Soubemos muito tempo depois que essa foi uma fase muito difícil de grana para a família. Aquela casa foi meu pai quem construiu. Sua primeira casa própria. As despesas se avolumavam e houve um momento que beirou a penúria. No aniversário de meu irmão não tínhamos nem para uma garrafa de Guaraná. Meu avô foi buscar.

Ficamos pouco tempo nessa casa. Nem dois anos. Não sei se foi a falta de dinheiro ou o isolamento que sentíamos na pirambeira do lado da ponte do Morumbi. Aliás, falo aqui primeiro da velha Ponte do Morumbi. Em seguida, veio a nova - que hoje de nova não tem nada, fazendo parte de um complexo de contornos e coadjuvante da novíssima ponte das Águas Espraiadas, essa, sim, um trubufu para cartão postal, obra faraônica para ligar 50 metros de rio, enfim atendendo necessidades que a cidade sente faz muito tempo.

Desse lar, voltamos para o Brooklin, novamente para morar de aluguel. Só 5 anos depois meu pai comprou aquela que seria “a” nossa casa, por mais que outras viessem depois.

Os novos proprietários transformaram a casa do morumbi em depósito, incluindo no conjunto o terreno de baixo, onde logo caiu nosso barracão. Durante muito tempo, nada foi construído em volta. As casas de frente continuaram as mesmas.

Mais de 20 anos depois, o sobrado foi demolido. Sua área, assim como os terrenos adjacentes, até a beirada da marginal, foi transformada num desses complexos modernos, com alguns edifícios de aço e vidro, para abrigar uma grande corporação.

criado por ciadaobesidade    21:10 — Arquivado em: Sem categoria

Agenor faz 50 - Viva Cazuza!

Sentado numa daquelas mesas apertadas do antigo Palace, no finzinho dos 80, assistia com coração na boca a performance levíssima daquele gênio que virava música, pura música, a voz, graves rascantes cada vez mais sutis, com direito a súbitos jorros vulcânicos, o corpo frágil e magro, a tez escura, o rosto escavado, a bandana na testa, os cabelos ralos, o figurino elegante, vários brancos e a luz de Ney Matogrosso, que embalava Cazuza como um amante, ou como um pai, que carrega no colo o filho pequeno, numa noite violeta sem fim.

Cazuza cantava como nunca as canções que escrevera para sempre.

Sabíamos todos naquela platéia imantada que ele logo partiria e, meu Deus, já faz tanto tempo. No entanto, eu escuto Cazuza agora na Rádio do Desejo.

Cazuza que hoje completa 50 anos de nascimento – e que há quase 18 anos virou, ele mesmo, canção e poesia!

Quanto ouro jorrou da fonte do artista em menos de uma década de palco e estrelato. Trajetória de meteoro, deixando rastro de canções inesquecíveis! Pense em alguém como Noel – pense em Cazuza! Um poeta como hoje não há. Da palavra, do gesto. Do sorriso e da música. Do rock e do samba. Do lamento e do tesão.

Ah… Ouvir Cazuza cantando, de Nelson Cavaquino… “Sempre só…” Cazuza cantando suas canções. Caetano cantando canções de Cazuza. Bebel Gilberto cantando Cazuza. Cazuza cantando todo mundo. Cazuza no belo filme de Sandra Werneck. O clipe final do filme de Sandra Werneck que me chapa na cadeira do cinema, debulhado em lágrimas. Lucinha Araújo, santa mãe, mãe santa, em nome de todas as mães, ao lado do filho antes, durante, depois, além.

Burguês sem ideologia… Beija-flor perto do fogo… Poeta que quer a sorte de um amor tranquilo… Pro dia nascer feliz… Que viu a cara da morte… E ela estava viva!

Viva Cazuza!

criado por ciadaobesidade    16:01 — Arquivado em: Sem categoria

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