3.4.08
Carta do Desassossego
Caríssimo Sr. Bernardo,
O Sr. conhece muito bem o meu incorrigível hábito de andar e andar pela minha cidade, São Paulo, que, assim como a sua cidade, Lisboa, convida a longos passeios a pé, ao menos no centro, ou no centro estendido, o que na minha cidade abarca um raio de parcos quilômetros, da ponta seca de seu marco zero, no centro da Praça da Sé, a bairros como Bom Retiro, Brás, Cerqueira César, Aclimação, Barra Funda, Jardins, Sumaré.
Existem, por outro lado, excelentes passeios fora desse compasso. Recomendo, por exemplo, os arrebaldes do Jardim São Paulo, quase no fim do Metrô Norte-Sul, assim como Santo Amaro, Belém, Pompéia.
Na sua cidade, Lisboa, adoro andar no centro antigo, das margens do Tejo ao Pombal, do Bairro Alto à Alfama. As ladeiras estreitas com seu casario são a paisagem de meus melhores sonhos, e nesses sonhos encontro o senhor numa esquina, em acaso calculado, o senhor vem do trabalho, nos convidamos mutuamente ao jantar, talvez no restaurante Dois Arcos, onde saboreamos uma açorda de camarões e um bacalhau ao azeite, conversamos sobre livros e, com um aperto de mão firme, nos despedimos, entregando a novos cálculos do acaso um reencontro.
Caro Sr. Bernardo, minha cidade natal, São Paulo, embora tenha consumido tantas solas de meus sapatos, hoje é uma cidade dura e difícil. Talvez o senhor retruque: mas qual cidade não é?
Hoje choveu em São Paulo e os alagamentos deixam 170 quilômetros de trânsito parado, gritam as rádios e a internet. Milhões de veículos nervosos, motoristas cansados e pedindo um empurrãozinho para cometer grandes besteiras.
É triste dizer isso, mas em São Paulo matamos e morremos de maneira absolutamente vã. Crianças levam balas perdidas na rua, matam-se umas às outras com as armas e os carros dos pais, são jogadas de prédios, são abandonadas em casa ou nos colégios, quando não, ainda bebês, nas entradas de edifícios e hospitais, sem falar das que são literalmente torturadas em cárceres privados, das que roubam nas esquinas, nas que se drogam, nas que ignoramos.
No seu país há notícias semelhantes. Mas aqui, não só a qualidade, mas também a quantidade, assustam. Apavoram.
É muita realidade pra qualquer cabeça, ou para cabeças infinitamente menos poderosas do que a sua, caríssimo Bernardo, que consegue realizar todas as viagens do mundo sem sair do quarto, ou que nos poucos quarteirões do centro de Lisboa encontra o mundo, ou os mundos, com toda a física e metafísica concebíveis.
Quando era criança, em tardes como a de hoje em São Paulo, tardes em que chove muito, eu olhava para o cinza fora da janela da escola e temia. Temia que minha mãe me abandonasse ali, naquele lugar que, aos meus olhos de criança, se assemelhava a uma prisão. Graças aos céus minha mãe nunca me faltou, e agora penso nela para enfrentar a mesmíssima sensação, enquanto ando, guarda-chuva aberto e livro na outra mão, pelas ruas da minha cidade.
Nunca conheci cadeias, mas conheci escolas. Aliás, as conheci dos dois lados do giz, pois quis o meu comportamento obsessivo que me tornasse professor. Mas ensinar o quê e a quem no grande comércio que tornou-se o mundo?
Olho as pessoas enfurnadas nos carros parados nesse congestionamento brutal. Carros enormes com apenas um cidadão. Rádios ligados no último volume. Rostos cansados. Insul Film vedando qualquer contato.
São Paulo, o Sr. sabe, já foi chamada de Terra da Garoa. Hoje chove bem menos por aqui. E quando chove a cidade entra em pânico, artérias entupidas. E nessa aflição uns gritam pra dentro, uns pra fora, outros nem conseguem mais berrar.
Um rapaz abaixa o vidro automático e me pede uma dica de trânsito. Aqui em São Paulo, quem não conhece os segredos de cada bairro sempre está no fio da navalha. Muito perto, muito longe.
Quem vive em São Paulo conhece seus rituais e protocolos. Seus horários. Para onde e para quem olhar. A quem pedir informação. Como responder a uma pergunta. Para que parte do corpo de uma mulher olhar em cada segundo de seu caminhada. Como roçar em segredo nas coxas das moças em ônibus e metrôs. Como mergulhar em seus livros e revistas e esquecer alguns segundos do mundo. Ou como sentar-se nos bancos preferenciais dos vagões do metrô sem que ninguém reclame.
Desculpe, caríssimo senhor Bernardo, por tanto desassossego. Esparramado ao léu como as páginas do seu livro de sortilégios.
Agradeço a presença e o apoio, todos esses anos, e os encontros nesses sonhos imponderáveis.
Um grande abraço
PS: Um abraço para o Fernando. E até uma dessas esquinas.


criado por ciadaobesidade
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