1.4.08
Para Gostar de Ler 3
Sessenta e três quilos distribuídos por um metro e quarenta e sete, aos doze anos. O médico classificou-o como obeso. O menino já se sentia assim faz tempo. A foto da carteirinha da sexta série, a cara bolachuda ocupava todo o três por quatro. Agora estava na sétima e as coisas não corriam lá muito bem. As notas começaram a baixar, a popularidade, que nunca fora grande coisa, também. Brigava com aqueles que até pouco tempo considerava os amigos mais próximos. Um grupinho conversou com a orientadora sobre ele, ela chamou para uma conversa daquelas bem cacetes, o professor de teatro confirmou que ele era um elemento desagregador, sua mãe também foi chamada. Numa partida de futebol do recreio a coisa esquentou e tomou uma tremenda cabeçada na testa, obra do Zé Mauro, goleiro esperto e craque. O inchaço rendeu gozações homéricas. Parecia mesmo o Homem-Elefante. Ou seja, nada corria bem e, curto e grosso, ele estava obeso. Tinha começado a engordar lá pelos oito anos, depois de uma operação de amígdalas, até lá era um palito. Pelo menos era o que a mãe dizia, e ele repetia sem saber qual era a ligação real entre as coisas. As amígdalas dificultavam a ingestão de alguma comida? Sua retirada estimulava algum desejo por guloseimas? Vai saber. Pelo menos, era uma explicação. Sejamos sinceros: se entupia de pizza nos rodízios do Grupo Sérgio, embora não ganhasse o concurso de quem devorava mais pedaços – quem ganhava era sempre o Camarão; não passava noite sem um belo copo de leite e, no mínimo, meio pacote de waffles, ou bolachas-sanduíche da Tostines. E comia sempre bem, sem tempo feio. Praticava natação e era bom em todos os estilos, mas detestava seu corpo gordo sobrando no calção, os peitinhos pronunciados – e, de repente, começou a ter terríveis conjuntivites após mergulhar nas piscinas cloradas. O regime foi uma grande decisão. É verdade que tinha tentado em outras ocasiões, mas desta vez pegou o telefone do endocrinologista do Douglas. O Douglas era outro obeso da escola. Nas aulas de Educação Física, os meninos, estimulados pelo professor, acabavam com o Douglas. Em jogo de queimada, ele era alvo preferencial. Aí, depois dumas férias, o Douglas apareceu magrinho. Obra do Dr. Chiorboli, mago da endocrinologia, que tinha participado da equipe do médico que criou a pílula anticoncepcional, nos Estados Unidos. O consultório do Dr. Chiorboli era em Moema. Médico particular, chique, caro. Tremendo esforço para os pais. Primeiro, o médico fez um apurado exame clínico do garoto. Ele se lembrará por muitos anos das doloridas apalpadas em seu saco escrotal e da sensação vexatória de exibir suas banhas. Fez também exames de sangue, que constataram disfunções hormonais. O menino teimava em entrar na adolescência, enquanto seus pares já espichavam, ganhavam pelos pelo corpo. Sem falar em seu maior trauma, o pinto. Nos vestiários, passava apuros. Detestava trocar de roupa, exibir o pintinho ainda de criança, enquanto os colegas já tinham seus pintos de respeito, peludões. Dr. Chiorboli recomendou injeções de hormônios, moderador de apetite e uma rigorosa dieta, com o objetivo de perder quinze quilos e crescer outros tantos centímetros. O garoto foi corajoso e, graças aos cuidados da mãe, que realizava as receitas sem óleo, os bifes na chapa, as saladas – ou que dava almoço ou janta em separado para o outro filho, magrinho e atleta -, em poucos meses a meta era alcançada. O regime começou em setembro. Em janeiro, o menino era outra pessoa. Aproveitou, então, para mudar de escola. Ano novo, vida nova – literalmente. Quinze quilos mais magro e uns dez centímetros mais alto, definitivamente, com um empurrão, entrara na adolescência. O tratamento ainda durou alguns anos de controle, mas sem sobressaltos. É verdade que o menino levou para a vida estranhos sentimentos de culpa frente a grandes pratos ou diante de eventuais quilinhos que ganhava, principalmente os que a idade traz. Dessa estranheza, nunca se livrou. Foi ela que, ao longo dos anos, também comandou breves dietas que ele voltou a realizar, para enxugamentos mais simples ou por conta das gastrites, esofagites e até mesmo úlceras que passaram a açodá-lo na idade adulta. Coisas de metabolismo. Coisas do estresse. Essas coisas. Aos doze anos, entrando no regime, sua mãe trocou os doces e coxinhas por livros.
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