30.4.08
Empada
Naquele fim de tarde de outono não conseguia mirar com precisão a empadinha sobre o prato. Parecia que o mundo todo estava fora de foco. E olha que não tinha bebido nada. Nenhuma gota. O dinheiro não dava. Uma empadinha e basta. Enquanto tentava encontrar nitidez, também já não lembrava qual sabor de empada escolhera. O cardápio era farto. Palmito. Frango. Frango com catupiry. Palmito com catupiry. Espinafre com queijo branco. Carne seca. Bacalhau. Na ficha de pedido, ao lado do prato, em letras miúdas, muito miúdas, a balconista anotara o sabor, mas se nem conseguia bons resultados com o raio da empada, o que dizer dos garranchos da moça no papel? As luzes do início da noite borravam sua visão. Precisava consultar um oculista. Refazer as lentes dos seus óculos. O grau devia ter aumentado. Óculos custam os olhos da cara. Pensava essas coisas parado em frente à empada. Podia ao menos estender a mão direita e comer o salgado. Muitas dúvidas se dissipariam. Se ao menos conseguisse reunir todas aquelas imagens desencontradas. Sentiu que a garçonete parara à sua frente, um borrão no quadro da visão. Tentou sorrir. Talvez até tenha conseguido. Não saberia dizer se ela sorriu de volta. Pensou em pedir uma bebida. É. Precisava de uma bebida. Um suco de laranja. Um guaraná. Uma pinga. Enfiou os dedos da mão esquerda no bolso e alisou a nota. Sabia que era uma nota de cinco. Devia ser uma nota de cinco. A empada ao menos estava garantida. Mas era bom esquecer a bebida, definitivamente era melhor esquecer. Que tal um copo de água? Água da torneira mesmo. Isso. Isso podia ser. Era só pedir. Mas depois da tentativa de sorriso, mal conseguia olhar para a garçonete que sentia que continuava parada na sua frente, quem diria então construir uma frase, nem que fosse uma frase simples, algo como “por favor, você pode me dar um copo de água.” E o que fazer se ela respondesse “de copo ou de garrafa” e você tivesse de explicar que “não, não, de torneira mesmo serve, torneiral, água torneiral!” ? Sem falar que vai saber que tipo de imundície aquela água de torneira, num daqueles copos mal lavados de padarias e lanchonetes, com certeza traria. Manteve o silêncio e o olhar no prato, é, aquilo devia ser um prato com, é, uma empada, uma empada. A garçonete dissera que a empada era R$ 2,90, portanto ainda sobrariam R$2,10 de troco, mais as moedas que, tinha certeza, tinha no bolso, ou ao menos achava que tinha, deveriam estar lá, provavelmente, bem, com os R$ 2,10 e as moedas podia pegar o ônibus para casa. Isso se, enfim, recuperasse a nitidez e, como de costume, pudesse olhar no letreiro dos ônibus os destinos, até que passasse o seu. Não adiantava consultar o relógio, mesmo sabendo que ao menos seu pescoço e sua cabeça ainda respondiam muito bem aos seus comandos, pois embora nem conseguisse pegar a empada, colocá-la na boca, mordê-la enquanto ainda estava quente, sentindo, então, seu sabor, sabia que conseguia mover a cabeça, o pescoço, os olhos e os músculos do rosto, afinal, era ou não era um sorriso aquilo que, um pouco antes, lançara em direção à garçonete? Era ela parada ali na sua frente? O que era aquele borrão? Palmito, frango, bacalhau, carne seca, catupiry. Gostava de todos, mas no fundo nem estava afim de comer uma empada. Talvez o que o movera até o banco no balcão da lanchonete tenha sido uma fuga do frio repentino que desabou sobre a cidade no fim da tarde. A vista começou a ficar embaçada, debaixo da garoa fina, no lusco-fusco, entrou na primeira lanchonete, sentou no banco. Uma voz de mulher perguntou “o que o senhor deseja?” Deve ter sido ali que lançou um primeiro sorriso. “Temos empadas de palmito, frango, frango com catupiry, palmito com catupiry, espinafre com queijo branco, carne seca, bacalhau.” Sua memória continuava perfeita. Talvez ela tenha citado ainda outros sabores. É. Provavelmente ela citou. Mas ele ficou ruminando aqueles sabores e não deu ouvido a mais nenhum. E se, por acaso, ele tiver pedido “traz pra mim qualquer uma”, ou “traz pra mim a que estiver mais fresquinha”? Então não tinha mesmo como saber o sabor da empada, a não ser que estendesse a mão e a colocasse na boca. Suas mãos estavam pousadas sobre as coxas e, aparentemente, não davam mais a mínima para seu comando. Pelo menos conseguira conferir seu dinheiro. Era até melhor que não pegasse mais aquela empada com as mãos, que não lavava desde que saíra do trabalho, já fazia um tempo, e desde então sentia que as enfiara muits vezes nos bolsos, onde elas roçaram a nota e as moedas. Precisava lavá-las, as mãos. Isso. Desde que saíra do trabalho sentia um buraco no estômago que sabia que não tinha nada a ver com fome ou empadas. Talvez fosse a volta da velha gastrite. Talvez tenha sido a volta do velho vazio que, às vezes, se localizava no estômago, outras na mente, outras, sei lá, nos intestinos, um vazio. Se tivesse o mínimo de nitidez e, ao mesmo tempo, suas mãos respondessem, tiraria do bolso de trás da calça sua carteira e, dela, a foto daquele alguém que, até bem pouco tempo, podia chamar de amor. Começou a chorar. Chorar era bom. Talvez trouxesse a nitidez de volta.


criado por ciadaobesidade
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