Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

29.3.08

REZA

 

Seja feita a vontade do pai, a cada noite em que você se deita e repete as palavras, cabeça no travesseiro, mãos em prece. Peça também a Nossa Senhora que te guarde e louve o fruto que o ventre dela desentranha em cada novo rebento. Mas se o sono nubla a paisagem de palavras e o murmúrio não alcança as alturas, os anjos carregam o recado. O pai está em ti. Ele que te invoca.

 

(Caixa de Escorpião, p.68)

criado por ciadaobesidade    9:03 — Arquivado em: Sem categoria

FITA

 

Lembrança do Senhor do Bonfim, a fita enrolada no pulso oferece três desejos. O mundo das coisas, o mundo dos sentimentos, o mundo dos espíritos, cada um requer uma chance. A cada um dá de beber um gole da bênção. Ata o primeiro nó, o segundo, o terceiro. A fita é uma barragem, acumula a energia de um rio, acumula a energia, acumula, até que os desejos madurem, rompam os nós e inundem.

 

(Caixa de Escorpião, p.67)

 

criado por ciadaobesidade    9:02 — Arquivado em: Sem categoria

Caixa de Escorpião

Tenho dois livros: Livro de Amor, Devoção e Outras Taras; Caixa de Escorpião. Ambos publicados pela editora Livros do Cão, do amigo e grande escritor Joca Terron. Como os livros estão esgotados, vez por outra vou colocar textos deles aqui no blog. Pra começar, material da Caixa.

 

VODU

 

Tem gente que seca, espeta prego enferrujado em boneca esfarrapada, enterra objeto pessoal dos outros em terreno baldio, afunda tufo de cabelo em travesseiro, deita olho gordo, quebranto - e as samambaias murcham e o emprego não sai e nem se encontra mais jeito de pagar o aluguel. Se proteger dessa gente. Fazer da alma poço de benesses para quem ama e fogo que anula quem constrói o mal.

(Caixa de Escorpião, p.66)

 

  

criado por ciadaobesidade    9:00 — Arquivado em: Sem categoria

28.3.08

o primeiro ensaio

 

O primeiro ensaio é tão importante quanto o último. O primeiro ensaio tem mil aromas e expectativas. É hora de olho no olho,  de vozes roçando os ouvidos, de acompanhar o vôo de cada gesto. É hora da empatia. De encontrar os bicudos que passarão todo o processo se bicando. De sacar futuros amantes, descobrir ou rever irmãos. É hora de marcar terreno e estabelecer destino. Hora de falar de agendas que serão mais ou menos cumpridas. De sonhar junto. Especular. Traçar caminhos que talvez logo sejam abandonados, em nome de atalhos, rampas, abismos, saltos no vácuo, caronas, longas estadas parados nos acostamentos. O primeiro ensaio é bom porque dura pouco e logo dá lugar ao segundo ensaio. E aí, logo, a gente está no último. E último ensaio é apenas aquele que acontece segundos antes da peça começar. No dia seguinte, a coisa recomeça. Às vezes, logo depois da estréia, na mente dos criativos, que repassam, avaliam, reinventam cada um de seus próprios passos em ensaios mentais obsessivos. Todo ensaio, portanto, tem seu quê de primeiro e último. É sempre precário, sempre aponta para algo além. E permanece aquém do espetáculo, questão de emoção e temperatura. Mas o espetáculo de hoje também é ensaio do espetáculo de amanhã. E cada ensaio é espetáculo à parte. O desejo de repetição fala mais alto, geme e grita, como no amor ou no medo da morte.

 

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criado por ciadaobesidade    21:04 — Arquivado em: Sem categoria

Sexo ou Häagen-Dazs?

Ôi. Você vem sempre aqui? Quer saber… Estou louco prum cafezinho. Pode ser de máquina. É bom. Embora ataque a gastrite. Muito, muito forte. O mais forte. Café de coador já foi bom. No interior ainda é. Em botecos onde a xicrinha fica mergulhada na água quente, a colherinha vem colocada bem no buraco da asa, a moça põe a xícara na sua frente e espera, com o bule na mão, você colocar açúcar. Esse café é bom. Dá bafo? Então não vou nem falar no de boteco, que fica naqueles grandes cilindros de metal. 3 Fs. Fraco, frio, fedido. Tem também café de maquininha de escritório. Você aperta um botão, cai um tipo de um Nescafé no copinho de plástico. Aperta outro, cai açúcar. Aperta mais um, água quente. Precisa ter diploma pra acertar o ponto. Repartição ainda usa garrafa térmica, aquelas rodelas de mancha de café no guardanapo sobre a bandeja. Hospitais particulares têm máquinas sofisticadas, parece que mora duende ali dentro. Você põe a moedinha, a geringonça faz até capuccino, mocaccino e outras viadagens – isso quando simplesmente não engole a tua grana! Hospital particular sempre encontra um jeito de engolir a tua grana. Eu não estou com bafo. Ou é bem levinho. Já tomou café de cafeteira italiana, a dois, num love? Um charme. Muitas lanchonetes, padocas dão bolachinha junto. Um suspiro. Uma queijadinha. O MacDonald’s dá bolinha de chocolate. É. Tem quem dê bala de hortelã. Um clássico. Elegante. Não tem bafo que resista. Você tem namorado? Eu também não. Nem namorado, nem namorada. Pena que você não toma café. Média, pingado, carioca, canelinha ou espuminha? Toma chá? Pão com manteiga, você come? Chapado ou canoa? Com ou sem miolo? Bisnaga? Pão de queijo? Caseirinho? Ainda não tomei café hoje. Estou sem um puto. Com fome. Muita fome. Desculpe. Será que você me paga um café? Um pão com manteiga? Tudo bem? Olha… Os teus olhos têm a cor do café. Entre o marrom e o negro. Lindos. Eu diria até… Gostosos! Você realmente não gosta de café. Você prefere vodka, conhaque, pinga? Meu amor me deixou. Desculpe perguntar, mas você, numa escolha simples, um ou outro, numa escolha seca, esquece o café, esquece, você prefere sexo ou Häagen-Dazs? Esse silêncio diz tudo. É. Estou fazendo uma pesquisa. Perguntei pra muita gente. Nem você terminou a pergunta, sexo ou Häagen-Dazs, os homens emendam: sexo. Na lata. A maioria das mulheres faz esse silêncio. Silenciozinho eloqüente. Vai ver mulher gosta mesmo é de Häagen-Dazs. Tudo bem: algumas mulheres respondem: sexo com Häagen-Dazs. Quase dá pra acreditar. Confesso: no fundo, no fundo, muitos homens preferem jogo do Corínthians. Adolescentes punheteiros ficam com Playstation. Playstation 3, é claro. Adolescentes patricinhas preferem High Schooll Musical. Mas o sorvete Häagen-Dazs custa oito reais a bola. Acha caro? Muito mais em conta que motel. Você investe uma grana, nada de braçada na banheira de hidro, crente que tá abafando… e pensar que com seis contos você conseguia o que quisesse da mina… Serviço completo… Tudinho. A verdade nua e crua. Dura. Gelada como um Häagen-Dazs. Quem me dera ter oito contos… Eu tomava meu café, comia um pão com manteiga, talvez até mesmo dois. Verdade. Você tem lindos olhos de café. E a imensa gentileza de me dar o troco de que tanto preciso. Oito reais. Prometo aproveitar como se fosse sexo, sexo divino, já que estou meio gripado e não posso mesmo tomar sorvete. Nem um Chicabom. Obrigado. Adeus.

                           

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criado por ciadaobesidade    19:24 — Arquivado em: Sem categoria

27.3.08

Cão chupando manga

- Eu sou o cão chupando manga!

Ele surgiu das profundezas do palco, lá da escuridão sem fim, na tarde de ensaio. Era a primeira vez que me encontrava com ele pessoalmente. Antes, trocamos telefonemas. O primeiro deles, onze e pouco da noite, foi um susto. O telefone toca na sala do casarão onde eu morava, atendo, do outro lado a voz inconfundível dá nome ao dono. Silêncio. Atônito, não sei bem o que dizer. Ouvir a voz de um grande mestre do palco, que não conheço, vinda lá da Itália, ele acabava de dizer, me tira dos trilhos. Ele diz que conhece e ouviu falar do meu trabalho. Me convida para fazer parte de um sonho. Como recusar?

Meses depois, ele enfim aparece das profundezas do palco, teatral até a medula. Nos abraçamos. Começa ali uma estranha parceria (qual parceria de verdade não é estranha?), que se desdobra em ensaios de um projeto literalmente quixotesco, até que chegamos a um impasse, digamos, dramatúrgico: eu quero intervir mais nesse aspecto da nossa obra conjunta (e conjunta aí, quer dizer um maravilhoso exército de Brancaleone, com atores, produtores e cia extraordinários); ele, com educação, negaceia. Como a situação não se resolve, acabo me afastando. Apenas fisicamente, é verdade, pois encontro e parceria como aqueles, inspirados sabe-se lá por quê ou por quem, não tem jeito, não.

Nesse meio tempo de convívio, ensaiamos juntos, vimos os processos teatrais um do outro e diferentes modos de conduzir atores. Eu sempre ficava encantado com o modo bufão com que ele dirige. Em especial, adorava quando, no limite de resistência de um determinado ator, ele, invocado, ia lá e fazia a cena. Ah… As cenas que ele fazia, improvisando com lógica e qualidade!

Sem falar nos papos comendo pizza de pé no buteco. A hipocondria comum. Os medos. As famílias. Um tremendo carinho. E as histórias que ele contava do seu mestre, de um certo modo, mestre de todos, aquele polonês meio freak que passou seus últimos tempos na Itália.

De vez em quando a gente se encontra. Sei que o trabalho dos da sua casa vai de vento em popa. Os trabalhos das minhas ilhas, aos trancos, também seguem seus cursos.

Sinto vontade de voltar a trabalhar com ele e de conversar (pois desse papo cada fiapo compõe destino). Mas o encontro é tão intenso que sai faísca!

Sei que, em cada trabalho que faço, noto sua presença.

Lá, em nosso primeiro encontro, vindo das profundezas do palco, ele não mentia.

 

(Acabo de descobrir que hoje é o Dia do Teatro. Então esse texto é a minha homenagem à arte que amamos, na figura de um de seus mestres.)

criado por ciadaobesidade    19:34 — Arquivado em: Sem categoria

Francisco (Última Parte)

 

O Dill tá batendo a foto. Vejam quando foi fundado o restaurante. E as nossas caras de bobos (Gui, Marcão, Celso, da esquerda pra direita). Aí, fomos embora, descendo a São Francisco.

 

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26.3.08

Cineminha Mequetrefe

 

Personagens: o do cavanhaque, eu; o alemão, Marcão; o moreninho  invocado, Dill; mais o Gui.

 

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criado por ciadaobesidade    23:59 — Arquivado em: Sem categoria

Francisco (terceira parte - a capa do álbum)

 

Como prometido, a foto pra "capa do álbum".  Depois tem mais…

 

(Cruz, Freitas, Magno e Suchara, da esquerda pra direita.)

 

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criado por ciadaobesidade    21:22 — Arquivado em: Sem categoria

sexo oral

 

Amanhã acontece a última sesão da atual temporada de Sexo Oral, la no Bibi Ferreira.
Aproveito pra convidar todos os que passam os olhos por estas páginas digitais a comparecer.

O texto é meu, com direção de Eduardo Chagas, o grande Edú. Ator extraordinário e companheiro pra vida toda.

Conheci o Edu quando fui trabalhar com a Companhia Teatro X, do grande Paulo Fabiano. Nossos santos bateram de cara. Considero o Edú um dos atores que mais compreende e realiza os textos que escrevo, recriando-os com seus gestos e entonações de modo sempre original, divertido e comovente.

Fizemos já várias peças juntos. Com direção do Paulinho, ele atuou no Prometeu e no Cidadão (seu Ioda é inesquecível). Ele fez a luz do Calígula, em que Paulinho atuou. Depois, com direção minha, estava na primeira montagem de Sexo Oral. Ele e o Gui arrasavam (em pérolas como Comendo Ovos e O Homem Velho).

Nessa brincadeira, já devem correr uns 7 anos, por baixo.

Graças à garra do Edu, Sexo Oral continuou em cena. Ele montou novo elenco (um grupo que está afinadíssimo e que vale o ingresso), produziu e levou a peça, da Praça Roosevelt à Brigadeiro Luís Antonio. Não é tarefa fácil, não.

Ah… E o prazer que o Edu tem fazendo a peça.

E com grande sucesso. O público, desde as primeiras sessões da primeira montagem, adora a peça. Ri do começo ao fim e se diverte muito.

Para a montagem atual, forneci vários novos textos, acabei sugerindo uma trama que o Edu arrematou muito bem.

Ao contrário do que alguns podem esperar, Sexo Oral FALA de sexo. Das dificuldades que temos de viver nossa vida afetiva, que passa, viva!, pelo sexo. Falamos, muito, enfim!

Na peça, acompanhamos a trajetória de um casal, suas separações, encontros e desecontros, tentativas afetivas, transas, etc. No mundo do trabalho, nas ruas, nas lojas, nos motéis e nos elevadores. Tudo muito simples. Banal como eu, no mínimo.

Não sei se o Edu vai estender a temporada. Espero que sim. Espero, sobretudo, que vocês apareçam lá pra prestigiar. E pra aplaudir meu grande companheiro Edu. Se não bastasse tudo o que faz, o carinha é ator pra caralho.

Bom Sexo Oral!

 

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criado por ciadaobesidade    20:50 — Arquivado em: Sem categoria

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