30.3.08
Para Gostar de Ler 2
Dizer que sempre gostei de ler é falar pouco. Amo ler. Ler é um de meus amores mais precoces e mais duradouros. Esteve ao meu lado em todas as outras perdas ou conquistas amorosas. Alimenta meu sonhos e meus desesperos. Ilumina minha escrita, minha profissão, minhas amizades.
Já contei aqui no blog que minha madrinha lia a Bíblia comigo no colo. A mesma tia-madrinha me deu de presente, na primeira infância, uma coleção do Monteiro Lobato que tenho até hoje.
Em casa, meu pai lia o Jornal da Tarde. Nos anos 70, o JT não era “apenas” um jornal, mas uma verdadeira revolução gráfica e editorial. Páginas limpas e muito bem diagramadas, com inovações elegantes. Um caderno de esportes com títulos originais. Textos bem editados, sincopados. E um antológico caderno de variedades e cultura no sábado.
Evidentemente que a análise fica por conta do professor de comunicação hoje com mais de 40. Mas garanto que o conjunto da obra encantava o garoto, que adorava folhear, ler do seu jeito aquele delicioso diário.
Também já falei neste espaço da importância que a coleção Para Gostar de Ler, da Ática, teve na minha infância e adolescência. Tanto os livros da Ática quanto o segundo jornal da família Mesquita tinham em comum um grande conteúdo editorial, casado com um extraordinário apuro gráfico. Enfim, ambas com design magnífico.
No mesmo período, comecei a ler Gibis, sem sombra de dúvida minha maior paixão em leitura. Acompanhava com tesão inigualável o trabalho da EBAL (editora brasil-américa) de Adolpho Aizen, pioneiro em quadrinhos no Brasil, desde o fim dos anos 30 e início dos 40.
Já nos anos 80, em visita ao Rio de Janeiro, meu pai me levou para conhecer a editora. Cachorro na porta do açougue, fiquei completamente besta com os maravilhosos quadrinhos do simpático Sr. Aizen. Era como se eu conhecesse a Fantástica Fábrica de Chocolates de Willy Wonka!
Livros, minha mãe sempre leu muitos. Lembro especialmente como, nos anos 70, ela devorava Érico Verissimo. Com ela, aprendi a frequentar livrarias. Naquele tempo, em São Paulo, íamos muito às Sicilianos, à Livraria do Ponto, no Brooklin e, eventualmente, à Cultura, lá no Conjunto Nacional – para comprar algum livro solicitado pela escola.
Sempre fui rato de bancas de jornal. Sou capaz de entrar em dez bancas numa mesma avenida. Criança, buscava nas bancas meus gibis do Batman, do Super Homem, da Liga da Justiça… Mas a minha grande paixão eram as “revistas antigas”, gibis usados dos meus heróis.
São Paulo tinha belas bancas com esse tipo de material. No Viaduto Maria Paula, meu pai sempre me levava numa ótima. No Largo São Francisco, também. Meu pai trabalhava no centro e, quando podíamos visitá-lo, eu acabava ganhando um ou outro gibi.
Assim nasceu uma coleção. Logo virei especialista. Buscava números específicos de cada título. Organizava-os cuidadosamente num armário de casa. Tinha método e recorte: revistas antigas eram as com mais de 10 anos – e dentro desses limites eu ampliava minha coleção.
Essa paixão por gibis antigos também ganhava força com a publicação de maravilhosos álbuns de personagens da era de Ouro dos Quadrinhos, como Flash Gordon e Jim das Selvas, de Alex Raymond, Tarzan, de Burne Hogarth, Príncipe Valente, de Harold Foster. Todas publicações da legendária EBAL. Edições de luxo, capa dura, reproduzindo em versão sofisticada as edições originas dos anos 40.
Como não tinha dinheiro para comprar todas elas – e também não era tão fácil encontrá-las -, eu paquerava meses cada ábum de Flash Gordon acomodado na prateleira mais alta da livraria La Selva do Aeroporto de Congonhas. Aí, no Natal, se o álbum ainda estivesse lá, eu podia pedir pro Papai (Noel)…
Desse modo, completei os 8 álbuns das aventuras de Flash Gordon no Planeta Mongo.
Num aniversário ainda mais feliz, meu pai me levou até a distribuidora da EBAL, no viaduto Santa Ifigênia. Lá, ganhei álbuns do Príncipe Valente, do Tarzan e do Príncipe Valente. Uma baciada (única na vida).
Também namorei muito a vitrine de uma loja pioneira (e hoje falecida) que ficava na Brigadeiro Luis Antonio, quase com Paulista. Lá, do lado do também finado Cine Paulistano, brilhava a livraria Gibi. Não consigo lembrar dela, até hoje, sem emoção. Lembro da luz da vitrine e, em especial, de seu luminoso, com a marca gibi e a figura do menino negro. Isso mesmo, Gibi, esse sinônimo de revista em quadrinhos, era o personagem que dava nome a uma revista dos anos 40 e 50, a Gibi.
O luminoso vermelho, as letras negras com contorno branco, o negrinho. Na vitrine, pérolas que nunca conquistei, como o Almanaque Lobinho de 1947!
O dono da loja era ranzinza e não dava bola pro moleque que ficava olhando as revistas, vidrado. As revistas, sempre além do meu orçamento, são, mal comparando, o rosebud deste pobre diabo.
Também desse tempo é uma publicação extraordinária da Rio Gráfica Editora (do grupo Globo): o relançamento da revista Gibi. Foram apenas 40 números semanais, em formato tablóide e papel jornal, com heróis dos anos 40 ao lado do novo quadrinho europeu, parte colorida, parte pb. A revista Gibi foi uma das mais vertiginosas experiências em quadrinhos da minha vida.
Para tornar a coisa ainda mais sensacional, a editora lançava especiais de grandes personagens, como Spirit e Ferdinando. E a coleção Gibi Nostalgia, semestral ou anual, não sei, álbuns de luxo com histórias do Fantasma, do Mandrake e muitos outros… Além de um Gibi Atualidade, com craques dos quadrinhos modernos, incluindo aí o nosso gênio Luís Gê.
Foram 7 almanaques Nostalgia e um almanaque contemporâneo, mais uma meia dúzia de especiais. Com as 40 edições semanais de Gibi, formam um pequeno tesouro.
Não vendo, não troco, não dou.
(Como uma história em quadrinhos publicada em capítulos, este texto continua na próxima edição…)


criado por ciadaobesidade
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