Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

28.3.08

o primeiro ensaio

 

O primeiro ensaio é tão importante quanto o último. O primeiro ensaio tem mil aromas e expectativas. É hora de olho no olho,  de vozes roçando os ouvidos, de acompanhar o vôo de cada gesto. É hora da empatia. De encontrar os bicudos que passarão todo o processo se bicando. De sacar futuros amantes, descobrir ou rever irmãos. É hora de marcar terreno e estabelecer destino. Hora de falar de agendas que serão mais ou menos cumpridas. De sonhar junto. Especular. Traçar caminhos que talvez logo sejam abandonados, em nome de atalhos, rampas, abismos, saltos no vácuo, caronas, longas estadas parados nos acostamentos. O primeiro ensaio é bom porque dura pouco e logo dá lugar ao segundo ensaio. E aí, logo, a gente está no último. E último ensaio é apenas aquele que acontece segundos antes da peça começar. No dia seguinte, a coisa recomeça. Às vezes, logo depois da estréia, na mente dos criativos, que repassam, avaliam, reinventam cada um de seus próprios passos em ensaios mentais obsessivos. Todo ensaio, portanto, tem seu quê de primeiro e último. É sempre precário, sempre aponta para algo além. E permanece aquém do espetáculo, questão de emoção e temperatura. Mas o espetáculo de hoje também é ensaio do espetáculo de amanhã. E cada ensaio é espetáculo à parte. O desejo de repetição fala mais alto, geme e grita, como no amor ou no medo da morte.

 

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Sexo ou Häagen-Dazs?

Ôi. Você vem sempre aqui? Quer saber… Estou louco prum cafezinho. Pode ser de máquina. É bom. Embora ataque a gastrite. Muito, muito forte. O mais forte. Café de coador já foi bom. No interior ainda é. Em botecos onde a xicrinha fica mergulhada na água quente, a colherinha vem colocada bem no buraco da asa, a moça põe a xícara na sua frente e espera, com o bule na mão, você colocar açúcar. Esse café é bom. Dá bafo? Então não vou nem falar no de boteco, que fica naqueles grandes cilindros de metal. 3 Fs. Fraco, frio, fedido. Tem também café de maquininha de escritório. Você aperta um botão, cai um tipo de um Nescafé no copinho de plástico. Aperta outro, cai açúcar. Aperta mais um, água quente. Precisa ter diploma pra acertar o ponto. Repartição ainda usa garrafa térmica, aquelas rodelas de mancha de café no guardanapo sobre a bandeja. Hospitais particulares têm máquinas sofisticadas, parece que mora duende ali dentro. Você põe a moedinha, a geringonça faz até capuccino, mocaccino e outras viadagens – isso quando simplesmente não engole a tua grana! Hospital particular sempre encontra um jeito de engolir a tua grana. Eu não estou com bafo. Ou é bem levinho. Já tomou café de cafeteira italiana, a dois, num love? Um charme. Muitas lanchonetes, padocas dão bolachinha junto. Um suspiro. Uma queijadinha. O MacDonald’s dá bolinha de chocolate. É. Tem quem dê bala de hortelã. Um clássico. Elegante. Não tem bafo que resista. Você tem namorado? Eu também não. Nem namorado, nem namorada. Pena que você não toma café. Média, pingado, carioca, canelinha ou espuminha? Toma chá? Pão com manteiga, você come? Chapado ou canoa? Com ou sem miolo? Bisnaga? Pão de queijo? Caseirinho? Ainda não tomei café hoje. Estou sem um puto. Com fome. Muita fome. Desculpe. Será que você me paga um café? Um pão com manteiga? Tudo bem? Olha… Os teus olhos têm a cor do café. Entre o marrom e o negro. Lindos. Eu diria até… Gostosos! Você realmente não gosta de café. Você prefere vodka, conhaque, pinga? Meu amor me deixou. Desculpe perguntar, mas você, numa escolha simples, um ou outro, numa escolha seca, esquece o café, esquece, você prefere sexo ou Häagen-Dazs? Esse silêncio diz tudo. É. Estou fazendo uma pesquisa. Perguntei pra muita gente. Nem você terminou a pergunta, sexo ou Häagen-Dazs, os homens emendam: sexo. Na lata. A maioria das mulheres faz esse silêncio. Silenciozinho eloqüente. Vai ver mulher gosta mesmo é de Häagen-Dazs. Tudo bem: algumas mulheres respondem: sexo com Häagen-Dazs. Quase dá pra acreditar. Confesso: no fundo, no fundo, muitos homens preferem jogo do Corínthians. Adolescentes punheteiros ficam com Playstation. Playstation 3, é claro. Adolescentes patricinhas preferem High Schooll Musical. Mas o sorvete Häagen-Dazs custa oito reais a bola. Acha caro? Muito mais em conta que motel. Você investe uma grana, nada de braçada na banheira de hidro, crente que tá abafando… e pensar que com seis contos você conseguia o que quisesse da mina… Serviço completo… Tudinho. A verdade nua e crua. Dura. Gelada como um Häagen-Dazs. Quem me dera ter oito contos… Eu tomava meu café, comia um pão com manteiga, talvez até mesmo dois. Verdade. Você tem lindos olhos de café. E a imensa gentileza de me dar o troco de que tanto preciso. Oito reais. Prometo aproveitar como se fosse sexo, sexo divino, já que estou meio gripado e não posso mesmo tomar sorvete. Nem um Chicabom. Obrigado. Adeus.

                           

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criado por ciadaobesidade    19:24 — Arquivado em: Sem categoria

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