Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

27.3.08

Cão chupando manga

- Eu sou o cão chupando manga!

Ele surgiu das profundezas do palco, lá da escuridão sem fim, na tarde de ensaio. Era a primeira vez que me encontrava com ele pessoalmente. Antes, trocamos telefonemas. O primeiro deles, onze e pouco da noite, foi um susto. O telefone toca na sala do casarão onde eu morava, atendo, do outro lado a voz inconfundível dá nome ao dono. Silêncio. Atônito, não sei bem o que dizer. Ouvir a voz de um grande mestre do palco, que não conheço, vinda lá da Itália, ele acabava de dizer, me tira dos trilhos. Ele diz que conhece e ouviu falar do meu trabalho. Me convida para fazer parte de um sonho. Como recusar?

Meses depois, ele enfim aparece das profundezas do palco, teatral até a medula. Nos abraçamos. Começa ali uma estranha parceria (qual parceria de verdade não é estranha?), que se desdobra em ensaios de um projeto literalmente quixotesco, até que chegamos a um impasse, digamos, dramatúrgico: eu quero intervir mais nesse aspecto da nossa obra conjunta (e conjunta aí, quer dizer um maravilhoso exército de Brancaleone, com atores, produtores e cia extraordinários); ele, com educação, negaceia. Como a situação não se resolve, acabo me afastando. Apenas fisicamente, é verdade, pois encontro e parceria como aqueles, inspirados sabe-se lá por quê ou por quem, não tem jeito, não.

Nesse meio tempo de convívio, ensaiamos juntos, vimos os processos teatrais um do outro e diferentes modos de conduzir atores. Eu sempre ficava encantado com o modo bufão com que ele dirige. Em especial, adorava quando, no limite de resistência de um determinado ator, ele, invocado, ia lá e fazia a cena. Ah… As cenas que ele fazia, improvisando com lógica e qualidade!

Sem falar nos papos comendo pizza de pé no buteco. A hipocondria comum. Os medos. As famílias. Um tremendo carinho. E as histórias que ele contava do seu mestre, de um certo modo, mestre de todos, aquele polonês meio freak que passou seus últimos tempos na Itália.

De vez em quando a gente se encontra. Sei que o trabalho dos da sua casa vai de vento em popa. Os trabalhos das minhas ilhas, aos trancos, também seguem seus cursos.

Sinto vontade de voltar a trabalhar com ele e de conversar (pois desse papo cada fiapo compõe destino). Mas o encontro é tão intenso que sai faísca!

Sei que, em cada trabalho que faço, noto sua presença.

Lá, em nosso primeiro encontro, vindo das profundezas do palco, ele não mentia.

 

(Acabo de descobrir que hoje é o Dia do Teatro. Então esse texto é a minha homenagem à arte que amamos, na figura de um de seus mestres.)

criado por ciadaobesidade    19:34 — Arquivado em: Sem categoria

Francisco (Última Parte)

 

O Dill tá batendo a foto. Vejam quando foi fundado o restaurante. E as nossas caras de bobos (Gui, Marcão, Celso, da esquerda pra direita). Aí, fomos embora, descendo a São Francisco.

 

                                 http://soasgordassaofelizes.zip.net/

criado por ciadaobesidade    0:11 — Arquivado em: Sem categoria

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