Quando eu era aluno de ginásio, aprendi que não se começa uma bela frase com “quando”. Já não existe mais o ginásio, mas belas frases a gente ainda encontra aos montes, quando a gente menos espera, na boca das crianças, dos motoristas de táxi, nos romances daqueles que teimam nesse negócio da escrita, na boca de um ou outro personagem de minissérie ou novela, nos obituários dos jornais.
As professoras de português eram muito severas com essa coisa de estilo. Estavam certas. Mas continuei usando o quando de quando em quando, mesmo que, sempre, antes de rabiscar ou digitar a palavra no começo da frase, lembre das minhas antigas mestras.
Tinha aulas de Gramática, Literatura e Estilo. A professora de gramática era a mais severa – e, com ela, amarguei minhas notas mais baixas do ginásio. Graças a isso, li a (então) Novíssima Gramática (que continua saindo, até hoje, com esse nome e, é certo, algumas modificações).
Melhorei em análise sintática. Mas levei de brinde algo mais. A viagem pelos exemplos literários que o livro ofertava e a magia das figuras de linguagem.
Ambos foram minha salvação nas aulas de Português Estilo, em que a professora Marialice (devia ser Maria Alice, mas na minha memória afetiva tudo vem junto, num sopro: Marialice) nos estimulava a criar redações.
Também gostava muito de Português Literatura, aula dedicada à interpretação de textos. Líamos (eu, certamente maravilhado) Para Gostar de Ler, coleção saborosíssima da Ática. Cronistas e poetas. Fernando Sabino, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, para começar.
Como objetos, os livros eram muito bem bolados. Gostosos de manusear e de ler. E o conteúdo, resultado de um belíssimo trabalho editorial. Minha geração tem dívida sem fim para com a Ática e sua coleção, que rendeu muitos volumes. Eu, aliás, adoraria ter novamente esses livros ao meu lado.
Enfim, todo esse molho acabava derramado nas redações de Português Estilo, com a doce mestra Marialice.
Lá, pela primeira vez, alguém apontou qualidades em meu texto (antes, as professoras reclamavam que eu não conseguia me ater às 20 linhas obrigatórias para a boa redação, que eu rasurava demais, ou que espremia a letra para que a história, imaginosa demais, coubesse no espaço exigido).
Um dia Marialice mandou bilhete para minha mãe. Com carinho único, pedia que ela “cuidasse desse dom” do filho.
Ela comentava redação que escrevi sobre Cristo na Cruz. A criança de 12 anos descrevia em minúcias o calvário de Jesus – e do conjunto dos personagens, vá lá, emanava algum drama, que a mestra, cristã convicta, comovida com o texto, teve o cuidado de observar (mal sabia ela que, tantos anos depois, meus textos, continuariam tratando de calvários).
É assim que os professores agem realmente sobre a vida de seus alunos. Com pequenos toques, comentários, estímulos, marcas, observações e, esta é a palavra, estranhamentos. Verdadeiras brecadas no cotidiano, iluminando processos (pelo menos acho isso e, hoje, como professor de português, em meus poucos e melhores dias, procuro fazer isso e somente isso).
Assim, no conjunto de Português Gramática, Português Literatura e Português Estilo, na sétima série do Colégio Pequenópolis, na atuação daquelas dissimuladas Fúrias da zona sul de São Paulo, surgiu um escritor. Que, infelizmente, continua começando e terminando inúmeros textos com Quando.
Não lembro detalhes da redação sobre Jesus. Tenho memória da folha de prova, da letra da Bic Azul e dos comentários em vermelho da mestra. Talvez o texto terminasse de modo apoteótico, numa espécie de Páscoa retórica exaltando Cristo. É. Acho que era isso.
Hoje, novamente Páscoa, vale a pena falar novamente dessas pequenas ações amorosas que renovam a vida das pessoas. E nesse grande inspirador de revelações, Jesus Cristo.
Se a gente não falar disso em dias como hoje, vai falar quando?
Feliz Páscoa.
(Acordei hoje cedo e meu filho mais velho brincava na sala. Dei bom dia. Ele disse que era Páscoa. Perguntei se ele sabia o que era Páscoa. Ele falou que queria dizer Vida Nova. Que lá na história do tal de Jesus o cara morre e vai pra caverna fechada com uma pedra e daí a mãe e uns amigos vão lá e ele não está mais lá e então ele aparece e depois vai viver com o pai dele. Meu filho disse também que os jogadores de games precisam muito de Vidas Novas, pois gastam as que têm contra seus inimigos. Vida Nova para os jogadores e para todos nós!)
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