22.3.08
Malhar o Judas
Quando era criança, bem criança, minha tia e madrinha me colocava no colo, num corredor lá do fundo da paróquia da Achiropita, e me contava histórias do Evangelho, numa Bíblia ilustrada com capa dura vermelha.
A história do Judas era especial. Lembro da última ilustração onde o danado aparece. Ele e a árvore (figueira? Na minha imaginação, com certeza, mas talvez esteja misturando parábolas/episódios). Daqui a pouco, depois da leitura, além do quadrinho, Judas vai se enforcar. Roído de arrependimento, além de qualquer remissão, o traidor vai executar seu destino.
Não levou muito tempo pra que eu percebesse que não havia Jesus sem Judas. Que os dois formavam uma daquelas duplas amarrada para todo sempre. Como Tom & Jerry. O Gordo e o Magro. Deus e o demônio. A história só funcionava bem mesmo com os dois e, para o bem da história, nenhum podia ficar de fora.
Assim, comecei a desenvolver, ao menos, uma admiração, digamos, narrativa, pelo tal Judas.
Também ficava fascinado ao assistir às malhações de Judas que aconteciam todo sábado de Aleluia em São Paulo, em tantas esquinas. A encenação sempre era violenta. O boneco de pano e jornal, vestido com roupas velhas da turma da rua, era pendurado num poste. Com paus e pedras, os meninos massacravam a figura. Uma fogueira reduzia o traidor a pó. Dava até na TV.
Confesso que eu me condoía do boneco e do Judas, propriamente dito. Assustado e, insisto, fascinado com a cena.
Hoje, não sei se a malhação é proibida ou se apenas controlada. Talvez tenha se transformado em evento. De todo modo, a brincadeira das antigas turminhas das ruas, numa cidade tão violenta como a nossa, hoje não pegaria bem. Chacinas sem fim trucidam Jesus e Judas, cotidianamente.
Mas a figura de Judas continua fundamental.
O traidor. Aquele que entrega quem ama em troca de trinta moedas. Aquele que trai uma causa, um sonho, um ideal, os amigos, a si mesmo. Aquele que se revela nesse ato, iluminando também sua contraparte divina, o seu opositor, o traído.
Criança católica, fui doutrinado a execrar Judas. Criança do mundo, encontrei Judas no espelho tantas vezes. Assim, aprendo a admirar a santidade daqueles à minha volta.
Porque existem santos. Como existem traidores. Como existimos, mestiços, aos montes.
Admiro a pureza dos primeiros e o poder dos segundos. Sempre com a perplexidades dos últimos.
O mal, mesmo quando banal, ou principalmente o banal, massacra cotidianamente nossas vidas. Os crimes abjetos e sem razão (revendo, por exemplo, o Decálogo de Kieslowski, me pergunto o que o mestre polonês faria com nacos da realidade brasileira, uma menina que queima outra, garotos mortos nas ruas…), o vazio afetivo nas relações, o descaso, a exclusão…
O bem também marca presença. Nos hospitais, nos templos, nas mesmas ruas, em toques sutis que, sim, acontecem também em todas as esquinas.
Isso sem falar dos grandes heróis e vilões. Dos grandes santos e traidores. A História já fala dos que passaram. Outros constroem história nesse exato momento. Prefiro, portanto, essa pequena história que deuses e demônios e humanos comuns vão fazendo por aí.
Penso sempre na árvore onde Judas se enforca. A árvore seca? Ou é a figueira da outra parábola ? Ou ambas são a mesma? A árvore permanece morta e rija, no meio do mundo, até que uma eternidade depois dois vagabundos tentam se enforcar na ruína, um tal de Vladimir e um tal de Estragon? Ninguém vira em seu resgate?
Ah… Judas que tanto me sacaneou vida afora. Judas no trabalho – aquele sujeito que não só te leva até a beira do abismo, como faz questão de dar um empurrão distraído. Judas no amor – gente que partiu sem dizer nada, largando a gente na festa do desespero. Judas na política – vou me abster de exemplos ou figuras de linguagem.
Não há justificativas. Às vezes, há perdão, seja total ou com pena. Na cadeia ou remoendo dores com seu travesseiro. Não importa.
Eu já entreguei meu amor por trinta dinheiros.
Ou menos.
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criado por ciadaobesidade
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