Marilyn Chambers era, sem dúvida, a maior gata da santíssima trindade do pornô. Começou como garota propaganda de produtos para crianças, acabou deusa do cinema, com o antológico Behind the Green Door. Segundo a Wikipédia, Marilyn completa 56 anos em abril.
É curioso pensar que “películas” como o clássico de Marilyn, Garganta Profunda e O diabo na carne de Miss Jones, filmes que exploram o sexo e que marcaram a explosão da indústria do pornô, no início dos anos 70, retomam, diluídos e em escala industrial, o tema de Bela da Tarde, o maravilhoso filme que Buñuel rodou poucos anos antes, com Catherine Deneuve.
A mulher insatisfeita, fria, incapaz de lidar com seu desejo – ao mesmo tempo encarnando a fantasia ideal de todos os homens – que, em situação à parte de seu mundinho classe média, encontra satisfação.
No caso de Garganta, o local é o próprio corpo, na surrealista fantasia do clitóris na garganta. No caso do Diabo, no fáustico encontro de quinto grau com o demo e suas criaturas. Já em Atrás da Porta Verde, o que encontramos nós atrás da dita porta? Bom, aí, só vendo o filme.
Filmes escritos e dirigidos por homens, com o objetivo explícito de transformar fantasia em grana, os pornôs dos 70 (Garganta teria custado vinte e pouco mil dólares – e rendeu 600 milhões de dólares mundo afora), vistos de hoje, têm seu glamour, sua ingenuidade, seu quê de aventura e romantismo (falei em post anterior no Boogie Nights de Paul Anderson).
Paradoxalmente, são filmes que têm, como memória que volta, o seu perigo. Uma força de reflexão e transformação. Uma beira de abismo. Como um filme de Buñuel, talvez.
Afinal, vistos hoje, os filmes são muito diferentes do que convencionamos chamar pornô. Vejamos os corpos. Os rostos. As histórias. Os tempos internos dos filmes. Tarefa para críticos e filósofos, talvez.
É como metáfora dos anos 70 – tempos de diluição de sonhos dos 60, de transformação de desejo em grana, para a geração que se consolidava, e de descoberta do dito cujo, para os adolescentes – que os filmes entram na peça A Irmandade, que a Cia. Da Obesidade está montando.
O que explode como farsa nos anos 70 do então chamado primeiro mundo chega aqui no fim da década ou, mais tarde, no começo dos 80. Os meninos, no fim da infância e na puberdade, ávidos, desejantes, querendo afeto e informação… Os meninos classe média, repito, entram de cabeça no cardápio. Livros, filmes, revistas, conversas.
Com esses cacos, constroem-se.
(Aliás, como no filme de Buñuel, interessam a mulher que se descobre e, não menos importante, os medos e as ansiedades que afloram no homem que assiste a isso. No filme de Buñuel, o protagonista acaba cego.)
Ficarão para sempre em nossas memórias as marcas de Marilyn, Georgina e Linda. Para o bem e para o mal. E além deles.
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