Lá no Porno-Paraíso onde hoje mora, Linda Lovelace, vértice da santíssima trindade da era de ouro do Pornô (ao lado de Georgina Spelvin e Marilyn Chambers), deve olhar embasbacada para a pornografia que hoje praticamos por aqui.
Os anos 70 de Miss Linda já eram. Com eles, uma avalanche de utopias e ideais, inclusive os de teor sexual explícito…
Em Deep Throat, Garganta Profunda, de Gerard Damiani, filme de 1972, Linda é a mulher que tenta de tudo para atingir o prazer, mas não consegue, até descobrir que seu clitóris está localizado na… Garganta. A ficção estapafúrdia levava a cenas fantásticas com Miss Linda engolindo tudinho…
Cada um tem prazer e goza como e com quem quer.
No Brasil, o clássico chegou no início dos 80, com a abertura. Com ele, vieram outras pérolas, como O Diabo na Carne de Miss Jones (também de Damiani, mas com Georgina Spelvin), onde uma mulher de meia idade, muito infeliz, tenta se matar e descobre o prazer numa trip com o próprio demônio.
Também chegou por aqui, na época, Atrás da Porta Verde, com Marilyn Chambers, a deusa dos setenta, performer pra lá de habilidosa.
Os adolescentes da virada dos 80 assistiam a tudo isso fascinados. Os filmes rendiam inúmeras homenagens a Onan. Com eles, as revistas, os jornais, os livros… A informação aos poucos alcançava a garotada, que devorava os fragmentos e, enquanto tentava digeri-los, sonhava, delirava…
Vendo daqui, parece que havia um clima de ingenuidade nisso tudo, inclusive no boom da indústria pornô, tão bem retratado em Boogie Nights, o grande filme do diretor de Sangue Negro. Logo viriam os anos 80, passando o trator sobre tudo isso…
O fato é que a meninada era muito sozinha. Poucos tinham(os) namorada ou haviam(os) experimentado o sabor de um beijo. Sexo… Bem, nossa geração não ia, de modo geral, a puteiros, coisa comum na geração anterior que, por sinal, também não fornecia muita informação sobre esses assuntos.
Os pais… Ah, os pais… Ralando pra tentar surfar no fim do milagre dos 70… Até cair com tudo na ressaca dos 80…
De vez em quando, um dos moleques contava de uma transa com a empregada do vizinho… Ou fazia um troca-troca bem sem jeito e bem culpado.
Era tudo truncado. Proibido. Não só pela moral, mas literalmente pela censura, que pouco a pouco, como nos exemplos dados lá em cima, começou a afrouxar.
Eu e meus amigos chegamos na juventude bem perdidões. De lá pra cá, temos feito esforço enorme pra compreender as mudanças do mundo. E pra não dar pista de que continuamos, bem, enfim, perdidões!
Uns tentaram – e até conseguiram – entrar até o talo no mundo neoliberal que, ali, começava a esboçar seus contornos. Outros, por mais que buscassem seu lugar nesse sol, não conseguiram. Tem quem nem tentou. A maioria de nós, entre os quais me incluo, muitas vezes tem sido carregada de posição em posição, nesse tabuleiro, pela varredura do vento da história.
Acho que ficou um bruta oco afetivo. Uma dificuldade de lidar com amores, amizades, carinho… E com as mulheres, então? Muitas vezes não conseguimos enxergar em nossas mulheres mais do que resíduos distorcidos das nossas fantasias com Marilyns e Lindas… Por mais educados, polidos e gentis que aparentemos ser; ou por mais selvagens e escrotos que nos revelemos em noites com ou sem lua cheia.
Sonhávamos com um mundo livre. Com amor livre. Com liberdade política. Liberdade de expressão. Com liberdade.
A liberdade veio.
Ou não?
Ou só um pedaço?
O que fazemos com isso?
Como lidamos com essa perspectiva, nós que nos criamos em domingos de Silvio Santos… Onde a Gretchen vencia no “Qual é a Música?” Ora, até a Gretchen hoje seguiu os caminhos abertos por Miss Linda e já fez os seus pornôs.
Enfim, a gente tá só tocando o puteiro?
Como olhar o Brasil contemporâneo e, nele, por um instante, ou durante um espetáculo como A Irmandade, que estamos fazendo na Cia. Da Obesidade, com seus 50 minutos, observar, com carinho mas sem idealizações ou concessões, essa geração de homens que cresceu nos 70?
A nossa, a minha geração.
É difícil explicar como, em alguns aspectos, ainda somos ingênuos. É difícil contar o quanto nos fudemos. O quanto é duro ficar dando risada pro senso comum que infesta o mundo. E, ainda mais, dar risada do próprio desespero e da própria perplexidade.
Às vezes me sinto muito sem noção. Ou puramente pretensioso. A maior parte do tempo, me sinto tomado por um tesão criativo… Uma fúria poética cega… Difícil tatear material tão quente, tão próximo…
Dá alento nessa hora ler Richard Sennett, Bauman, Gorzs, Delilo, Coeteze, Roth, Carvalho… E outros, com seus berros anticonformistas.
Também ajuda mergulhar na liberdade virtual do YouTube, e reencontrar nacos da Marilyn, da Georgina, da Linda. E aí vir pra essa pequena caverna do blog e derramar esses pensamentos. Soltar a voz nas estradas virtuais (pra parafrasear um verso dos 60, 70, de Fernando Brant).
Acima de tudo, que prazer o artesanato, a composição da peça, principalmente ao lado dos meus parceiros Guilherme, Marcão e Dill.
É graças a eles que estamos encontrando e solucionando (ou equacionando, o que é ainda melhor) os enigmas da Irmandade. Um a um. Ensaio a ensaio. Lá na sala do Gui, como quando fazia (fazíamos) teatrinho na infância.
Teatro é meditação.
Segunda, estaremos lá, no fringe.
Que a santíssima trindade do pornô dos abençoe.
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