14.3.08
Ao pobre B.B.
São Paulo, 14 de março de 2008.
Caríssimo Sr. Bertolt Brecht,
Desculpe a demora em escrever. Já se vão quantos anos? Uns 20, certamente, desde que nos conhecemos. Já nos encontramos nas mais variadas situações e, embora tenha escrito muito sobre o senhor, de poemas a a peças, de citá-lo, recitá-lo, de usar sua obra como base para tantas aulas e dissertações, jamais escrevi uma carta diretamente para o senhor.
A idéia foi do meu irmão, que lá de Portugal sugeriu que eu escrevesse para os autores de que mais gosto, os autores com quem, de um modo ou de outro, tenho dialogado. Diálogos do caos, às vezes. Diálogos de surdos, vez por outra. Diálogos com os mortos, em alguns de seus melhores momentos.
Os mortos têm vozes poderosas, que gritam ou sussurram dentro das nossas fantasias, ou nos silêncios das noites insones, ou visitam nossos sonhos, aparecem de repente nas ruas, ocupando outros corpos, ou vibram na letra impressa, nos filmes, nos discos, no mármore negro de uma lápide.
Ouvir os mortos. Conversar com eles.
A minha fé é o teatro – e no teatro espíritos, almas, entidades, avatares ganham corpo, vivem alguns momentos e depois retornam ao nada. A morte, por alguns momentos, fica suspensa numa pausa, e os dois mundos se entreolham, trocam palavras.
Por isso mesmo, resolvi que precisava escrever para o Senhor. Antes de Benjamin, de Camus, de Kafka, de tantos outros.
E desculpe a minha formalidade. Quem sabe, com o tempo e a correspondência, eu me sinta mais à vontade.
Acho muito difícil fingir naturalidade diante de um grande gênio. Um sujeito tão irritantemente inspirador. Tão ágil. Tão múltiplo. Tão combativo e, ao mesmo tempo, tão esteticamente rigoroso.
Mas saiba que, antes de mais nada, não sou admirador do COLOSSO Brecht. O que mais me encanta são suas inúmeras arestas. Sua complexidade. Herói, sim, e covarde, também (como é estranho, assustador e comovente ouvir seu depoimento na comissão de assuntos antiamericanos, na época da caça às bruxas, nos EUA!).
Poeta e dramaturgo. Ensaísta e polemista. Amante e pai de família. Homem em fuga, tótem comunista.
Estou realizando uma peça sobre seu período em Svendborg, Dinamarca. Na peça, falamos de seus encontros com Walter Benjamin, das dificuldades do exílio, de amores e medos e da visita de um anjo. Sim, um anjo. Perdoe-me. Mas é fato que já aprendi faz tempo com aquele seu seguidor, Heiner Müeller, que é preciso enterrar Brecht! Mesmo que, depois, a gente ainda tenha a desfaçatez de puxar conversa com o morto!
Preciso confessar que sua presença é fundamental em minha vida e na minha vida no teatro. Tudo começou quando, moleque, assisti a uma montagem da sua peça Mahagonny, realizada pelo Grupo Ornitorrinco, aqui em São Paulo.
Foi um momento de plenitude. Uma revelação.
Não sei se o senhor aprovaria a montagem – a família de seu parceiro Kurt Weill abominou as liberdades que Cacá Rosset e companhia tomaram com suas lindas coanções, chegando a proibir o trabalho.
Pena. A peça era marvilhosa. Reunia, senhor Brecht, uma geração de grandes artistas, a começar do então garoto Cacá Rosset (que continua hoje com o mesmo pique, com incríveis montagens de Shakespeare), diretor de imenso talento e teatralidade, mestre da cena e ator com amplo domínio da comicidade.
Ao lado dele, Maria Alice Vergueiro, mestra que tanto o senhor quanto sua esposa, Helene Wiegel, adorariam e, tenho certeza, já ouviram falar aí onde estão. Maria Alice, que também fez inesquecível montagem de A Velha Dama Indigna, aquele seu grande conto, arrasava e arrasa, brechtiana até o último pelinho do cu – essa é que é a verdade, o senhor me desculpe (ou não) a linguagem.
Junto deles, Chiquinho Brandão! Ah, o Chiquinho… Morreu tão moço… Era um talento extraordinário. Ator de dotes sem fim. Não lembro se em Mahagonny ou em Ubu (outra montagem do Ornitorrinco), havia uma cena inesquecível, uma dança que Chiquinho e acho que Galízia (falarei dele daqui a pouco) faziam quase nus, só com chapéu coco que seguravam sobre a genitália. Todo o humor da situação estava em executar a dança sem deixar cair o chapéu, até um desfecho fantástico. Maravilhoso!
Citei também o Galizia. Luís Roberto Galízia. Além de puta ator, teórico incrível. Pioneiro no Brasil no estudo da performance e, especialmente, do mago Bob Wilson, com um livro ainda insuperável. Galizia também morreu, naquela época em que a Aids chegou e levou tantas almas e talentos maravilhosos. Felizmente, hoje os tempos são mais amenos, ao menos nesse assunto.
Tínhamos também Edith Siqueira, atriz talentosíssima e linda, que fez carreira consistente, entre obras do Senhor, tragédias e outras cositas, até ser colhida pela indesejada das gentes também muito nova.
Mahagonny do Ornitorrinco era um negócio vertiginoso. Tinha estranhamento, cabaret… E o Teatro de Revista bem brasileiro, o senhor adoraria o gênero. Um quê de Zé Celso (que também montou peças suas, em outro contexto que deixo pra outra hora) e muita personalidade.
Aquilo me empurrou de vez pro teatro.
Não se sinta responsável, Senhor Brecht. Essas coisas acontecem. O senhor sabe bem melhor do que eu o quanto as obras (des)encaminham os jovens do mundo.
Eu, de minha parte, agradeço.
Tentei demonstrar a gratidão e processar seu legado ao longo dos anos. Minha primeira peça, “Bidi – Cenas da vida do pobre B.B.”, no primeiro ano de faculdade, foi justamente uma montagem sobre sua vida e obra. Como aprendi ali, 1991, 1992.
Aliás, de lá vem o embrião sobre o projeto atual sobre Svendborg, “O Anjo da História”, reunindo o senhor e Walter Benjamin, de quem também sou fã confesso.
Senhor Brecht, adoro especilamente seus poemas. Sobre o Teatro Cotidiano. Canções para meninos. E tantos outros. Das peças, além de Mahagonny, amo com paixão Baal, Na Selva das Cidades, A Vida de Galileu e Mãe Coragem. Não gosto do teatro didático – assim como também não gosto das apropriações que uma certa esquerda brazuca faz disso. Paradoxalmente, como o senhor vê, isso também não me impede de cometer meus deslizes, propondo, por exemplo, essa nossa conversa.
Agradeço todas as oportunidades de reflexão que sua obra tem oferecido (agora, por um momento, vêm algumas lembranças à minha cabeça e percebo que meu contato com o senhor é ainda mais distante, começa lá por 1983, no meu primeiro ano da primeira tentativa de realizar curso superior, jornalismo, onde fiz com colegas seminário sobre o livro Teatro do Oprimido, do Boal. Foi lá, sim, que entrei pela primeira vez em contato não só com o senhor, mas com um certo modo de ver, fazer e viver teatro). Tenho convicção que muitas outras oportunidades virão.
Sou também grande fã de sua esposa Helene – e assisti, também faz muitos anos, consternado, ao mãe coragem de vocês dois, no vídeo do Instituto Goethe, em São Paulo. Seu poemas para Helene estão, em minha opinião, entre os mais inspirados. Que ela, portanto, me perdoe, mas também sou grande fã de Ruth Berlau, cuja obra sobre o senhor me parece a mais saborosa e humana. Detesto as biografias do senhor que só falam de política e de literatura e endeusam o autor, deixando de lado o homem, suas riquezas e contradições. Admiro também os caminhos que seus filhos tomaram.
Com isso tudo, me despeço, esperando retomar a conversa muitas e muitas vezes.
Com devoção,
Celso Cruz
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