12.3.08
Nego Duro
Era o Toti. Por um, dois segundos, era. O mendigo bailava pela calçada da Heitor Penteado, pacote de pipoca doce na mão esquerda, de onde tirava bocados e enfiava na boca. Todo ele encardido. Barba, unhas. Sapatos em petição de miséria. Por um ou dois segundos era o Toti. E veio vindo uma onda de carinho, eu ia a braçar o Toti, com aquele jeito de bailarino sobre a navalha do caos.
O Toti morreu tem dois anos. Foi uma morte besta, num sábado. Ele foi fazer um bico. Podar a árvore na calçada de uma vizinha. A rua tinha uma ligeira inclinação, mas não podia ser chamada de ladeira. A calçada não era das piores, como essas de São Paulo, pura irregularidade.
Em Dois Córregos as calçadas respeitam um pouco mais o padrão mínimo de civilidade. Uma mãe com carrinho de bebê, por exemplo, tem muito menos problemas para passear no… Passeio! Por outro lado, as guias das calçadas são muito altas. E a mesma mãe que precise atravessar a rua com o mesmo carrinho só consegue realizar a tarefa em regiões de guias rebaixadas, nas entradas para carros.
O Toti colocou uma dessas escadas caseiras de cinco degraus no plano inclinado para podar a árvore, que não tinha (ainda tem) mais de dois metros. Uma hora da tarde. Em Dois Córregos, num sábado, isso significa uma combinação de silêncio, vazio e sol de rachar.
Toti, Fenelon Aristóteles, como chamou-o seu pai, ninguém sabe o porquê da homenagem à Filosofia, tinha acabado de almoçar, na marmita que religiosamente pegava na casa da irmã e, ao invés da soneca, foi para o serviço. Não chegou a realizar a tarefa. Embora não estivesse calibrado naquela altura do dia, coisa rara, o Toti tropeçou nos degraus e, na queda, bateu com a cabeça na quina da calçada.
Ficou sangrando um tempo curto, mas impreciso, na tarde vazia. De um modo tão surreal que só poderia ser verdade, passou uma ambulância. O motorista e o enfermeiro reconheceram o homem caído e o carregaram imediatamente para a Santa Casa.
De lá, ligaram para a casa da irmã do Toti, a não mais do que 50 metros do lugar do acidente. O cunhado e o sobrinho do Toti tomavam umas e outras, comemorando o aniversário do cunhado do Toti. Esperavam, no final da tarde, tomar com o velho companheiro mais algumas e umas outras.
O Toti nunca foi casado, nem teve filhos. Vivia de favor, graças aos cuidados da irmã, numa casa pequena que ela comprara com suas economias, das vendas da Natura e da Avon. Antes disso, o Toti dormia na antiga casa de sua mãe, térrea e caindo aos pedaços, com telhas soltas e piso carcomido, dava pra ver a terra por debaixo.
De resto, fazia seus bicos e garantia o dinheiro da marvada, do joguinho e da erva, combinação explosiva que, em outros tempos, na sua juventude, fizeram com que Toti passasse alguns anos de cana dura lá em Itirapina. Além disso, também sempre ganhava um troco do cunhado. Um afago. Ele meio que considerava o cunhado um verdadeiro pai.
Toti estava inconsciente quando o cunhado e o sobrinho chegaram no hospital. Os dois, homens enormes e fortes. O Toti, pequeno, atarracado, nos seus cinquenta e poucos anos, na maca. Tinha uma constituição rígida e um corpo bonito, que podia ser observado quando, sem camisa, ele carpia o terreno onde o cunhado tinha a horta.
O médico, que conhecia o Toti de tantas carraspanas, disse que era grave. Em Dois Córregos, não tinham muito o que fazer. Jaú? Era pouco. Colocaram o Toti novamente numa ambulância e, com a Parati do cunhado fazendo comboio, para Bauru, a cerca de 90 quilômetros. Lá, enquanto recebia os cuidados médicos, Toti morreu.
Eu estava em BH, com o espetáculo Só As Gordas São Felizes, e fiquei sabendo no domingo de manhã da morte do Toti. Minha mulher, sobrinha do Toti, acabara de receber a notícia. Sua mãe, seu pai e seu irmão resolveram contar para ela apenas no domingo porque ela era muito ligada ao Tio.
Rita estava muito triste. Queria pegar o carro e correr para Dois Córregos, chegar a tempo para o enterro. Mas nossos filhos na época eram mujto pequenos. Eu estava longe, a trabalho. Concordamos que ela não tinha condições de realizar a viagem.
Rezamos.
O grande Fenelon. Irmão da dona Lair, que cuidou dele com carinho até o fim, como aliás cuidou também de sua própria mãe, bem velhinha, de sua outra irmã doente, e do caçula, raspa de tacho, do segundo casamento da mãe, o Zuza, que nasceu down e morreu com 45 anos, que adorava tocar instrumentos, principalmente um acordeon que ganhara na juventude, pelas ruas da cidade. Quando o Zuza se perdia, coisa não muito rara, quem saía em busca do irmão era justamente o Toti. O Zuza, como o Toti dizia, morreu em suas mãos.
O Toti também dizia, com todas as letras, que era revoltado. Dizia que odiava muita gente. Que um dia acabava matando um ou outro. O Toti era bom de bravata. Tinha um coração gigante e ainda lembro dele com meus filhos bebês no colo e dizendo “Êta, nego duro”.
O Toti trabalhava muito bem o couro, pois era exímio sapateiro. As botas e sapatos que fazia duravam décadas. Mas não parava em emprego. Odiava chefes. Achava esse mundo injusto.
Um dia a irmã juntou uns trocados e montou uma oficina pro Toti. Logo ele abandonou os calçados. Vendia fiado. Não sabia cobrar. Dava sapatos pros amigos. Torrava o que ganhava em pinga, cigarro, jogo e maconha.
Toti também trabalhou na carceragem de Itirapina. E, anos depois, conheceu a cadeia por dentro, digamos assim. Coisas da maconha. Dizia que armaram pra ele, colocaram tijolo da droga no seu fusca.
O Toti pegou duas canas por isso. Ficou um bom tempo atrás das grades. Religiosamente, a irmã ia visitá-lo. Levava comida, levava os filhos. Os sobrinhos do Toti o adoravam. A Rita, minha esposa, fotógrafa, fez um lindo ensaio do Toti trabalhando as botas.
As mãos enormes e grossas do Toti e o gesto delicado do Toti. O Toti coçando a barba, andando como cowboy de filme dos irmãos Cohen, xingando uns e outros. O Toti "amigo do peito, irmão", nas palavras do Luizão, vizinho e companheiro de tantos anos.
Luizão contava das inúmeras brigas que os dois armaram pelos bailes da vida no interior, na juventude. O Toti, baixinho invocado. O Luizão, gigante sangue quente. Hoje o Luizão, que foi motorista desde que se entende por gente, de caminhão a taxi, está de licença. Coluna. Fica difícil guiar as ambulâncias da cidade. Prefere fazer uns bicos levando e trazendo gente pra Cumbica, São Paulo, Rio de Janeiro ou o destino que o cliente quiser. Encara 8, 10 horas sem titubear. Depois, chega nos braços da doce esposa e ainda curte uma dose. Fumar, não fuma mais. Quase empacotou por causa disso.
O Luizão ficou muito só sem o Toti, seu grande companheiro de papos no fim das horas de almoço ou no cair da tarde. O Toti que vinha e oferecia uma manga colhida no pé, um saco de acerola.
O Luizão conta que, uma vez, um sujeito jurou de morte o Toti. O Toti, antes que o cara armasse pra ele, tomou a dianteira. Agarrou um facão, entrou no bar, furou o pescoço e a barriga do sujeito. O cara não morreu. Nem deu queixa. Mas desistiu do lance de matar.
Eu já tinha ouvido a história da boca do próprio Toti. Parecia lorota do grande contador de histórias. Mas era verdade. Como naqueles livros do Steinbeck. Aliás, o Toti e o Luizão davam uma dupla perfeita do Steinbeck. Tipo Ratos e Homens.
O Toti tinha seu quê de rato e de homem. Mas quem não tem? O Toti era transparente. Transparente como o mendigo que veio em minha direção na Heitor Penteado.
“O Toti podia ter sido um mendigo.” Quantas vezes ouvi isso da irmã do Toti, a minha sogra. Sim, o Toti podia. Como Francisco de Assis, como alguns beats e freaks daqui e dali. Como tantos desgarrados mundo afora. Como outros nem tanto, andando pelas avenidas, por um ou dois segundos.
http://soasgordassaofelizes.zip.net/index.html


criado por ciadaobesidade
19:28 — Arquivado em: