31.3.08
Sendas de Oku
Anatol frequentava aquela padaria desde que morava com a irmã, logo depois do infarto. Antes, ambos viviam sós. Não que agora não vivessem, mas, ao menos, compartilhavam aquelas estranhas, e muitas vezes sórdidas, formas de solidariedade que só os irmãos, íntimos à força desde o berço, mesmo com a enxurrada dos anos, não conseguem perder.
Procuravam sincronizar suas agendas. Quando um saia, o outro chegava. Anatol multiplicava as viagens até a padaria. Tinha banqueta cativa ao balcão. Pedia sua média e seu chapado e puxava papo com algum outro cliente. Ganhava conhecidos. Às vezes, amigos.
A moça entrou e pediu um maço de Marlboro. Deixou o dito cujo sobre o balcão, sentou-se no banco sobrando e pediu um curto. Toda angulosa, os ossos pressionavam a pele fina e muito clara. Imensos óculos escuros. Sutil brilho nos lábios.
Início de manhã ensolarada na Vila. Pouco movimento. Pães de queijo na vitrine. Coxinhas e empadinhas em banho maria.
A moça desviou os olhos dos quitutes e matou seu café sem açúcar. Respirou fundo. Tirou o plástico do maço. Puxou da bolsa um caderno de desenho e um lápis número 2. Começou a rabiscar uma folha em branco.
Anatol estendeu o olhar, do outro lado do balcão, para o movimento da mão extraordinariamente magra e para o desenho que se formava. Uma bananeira.
A moça caprichava nos detalhes. Tronco, folhas, cachos.
- Tem um grande poeta japonês que se chamava justamente “bananeira”.
Os olhos da garota surgiram, por cima dos óculos escuros, procurando o dono da voz.
- Ele viveu há muito, muito tempo.
Uma covinha surgiu num canto da boca da desenhista. Nunca fora uma mestra nessa arte, aliás, em arte nenhuma, e já tinha tentado várias nos seus vinte e poucos anos, inclusive a das incisões breves e profundas nos pulsos.
- Bananeira?
- Bananeira. Bashô. Matsuó Bashô. Bashô quer dizer bananeira. Em japonês.
- O Sr. Fala japonês?
- Quem dera. “Primavera. Quimera. Quem dera.” É um poema de Bashô.
- É curto.
- É um Hai-Kai. Uma forma de poema. Mal traduzindo, tem três versos.
- Só?
- É.
A moça brinca com o plástico do Marlboro, hesitando entre abrir ou não o maço.
- O primeiro verso coloca um tempo ou um lugar. O segundo, uma situação. O terceiro quebra as expectativas, lança a gente num outro mundo.
- Pôxa.
- Alguns acham que um Hai-Kai pode levar um pobre mortal à iluminação. Iluminação. Um satori, para os budistas. Para os budistas, a arte da poesia pode levar a gente ao paraíso da iluminação. Pode.
- Bananeira.
- É. O nome do poeta. Meio mixo pra quem busca uma iluminação?
- É.
- Bashô vagava pelo Japão. Era um vagabundo. Um mestre vagabundo.
Um silêncio.
- Muitos mestres não passam de vagabundos.
- Os mestres da minha faculdade são muito pouco vagabundos.
- Pena.
- Tenho que desenhar essa bananeira pra escola. Arquitetura.
- Você é uma arquiteta?
- Ainda não. E o poeta?
- Matsuó Bashô. Tenho os livros dele em casa. Você gostaria de conhecer?
- Não tenho tempo.
- Entendo.
- Não tenho tempo hoje. Talvez amanhã.
Ela puxara o cigarro e brincava com ele entre os dedos. Desceu do banco. Parecia prestes a quebrar.
*
No dia seguinte, tudo aconteceu como combinado. Numa pasta, Anatol trouxe três livros de Bashô. Um em português, um em inglês, outro em francês. Todos versões da obra mais famosa do poeta japonês, Sendas de Oku. A moça entrou toda de negro, o que a deixava ainda mais parecida com um caniço bailando ao vento, elástica e, embora aparentemente frágil, difícil de quebrar. Pelo menos, foi o que Anatol pensou naquela hora.
*
Naquela tarde o apartamento de Anatol estava vazio. A irmã cumpria o ramerrão, supermercado, banco, igreja. O quarto de Anatol, abarrotado de livros que trouxera de seu antigo apartamento. A moça passou os olhos rapidinho pelas lombadas e sentou-se na cama.
- Quatro internações. Quarenta dias numa clínica. Alimentação na veia. Nada desce. Minha mãe já tentou de tudo. Meu pai também. Eu não sei. Eu não consigo.
- Eu tenho uma cicatriz aqui.
Anatol desabotoou a camisa e mostrou o peito grisalho onde a quelóide do talho gritava. Ela passou as unhas delicadas na cicatriz. Então, tirou cada peça de roupa, dobrando-as cuidadosamente sobre a cama. Branco sobre branco. Nudez contra a cortina de voil. Lá, no fundo, o azul do céu da Vila e uma ou outra nuvem.


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