Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

29.2.08

O piano

O piano veio com o apartamento, herança de uma tia distante e pra lá de generosa, que sempre incluiu o sobrinho em suas orações e não esqueceu dele nem depois de morta.

Não era um piano qualquer, mas um senhor piano de cauda, onde a tia, na maturidade, desfiava doces melodias para o marido, um padre de cabelos brancos que largou a batina em nome da paixão carnal e mundana.

Belo motivo pra aprender piano depois dos quarenta. Mesmo que a vida seja breve e que tudo passe. Inclusive a tia e o companheiro - quanto ao ap e ao piano, ambos passaram para as mãos e para o nome do querido sobrinho.

O piano ficou lá, ocupando completamente uma perna da sala em “L”. Impossível usar a entrada social do apartamento. Dificílimo contorná-lo para, ao menos, tirar o pó daquele canto do cômodo.

Se ao menos ele tocasse piano. Se ao menos ele tivesse um mísero motivo para aprender a tocar piano…

Em algumas das longas noites em que tentava limpar as esquinas inalcançáveis, ele aproveitava para sorrateiramente roubar um punhado de notas do instrumento.

Carinhava as teclas sem grande eloquência, pois assim como detestava ser acordado pelo liquidificador do 62, nem pensava em azarar o sono dos vizinhos.

Valia uma grana o piano. Uns cinquenta paus, numa avaliação pra baixo que o técnico da Casa Manon fez, desdenhoso. Só pra tirar o piano do ap, uma empresa de mudanças pediu 8 contos…

É. Dava pra ajeitar a vida se vendesse aquele piano.

Botou anúncio no jornal. Nada. Começou nas lojas de instrumentos usados e terminou nos bares da noite. Sem sucesso. No final das madrugadas, sentava-se ao piano, na companhia de uma xícara de chá de camomila, com o cuidado de não colocar, jamais, a louça quente no tampo brilhante.

Antes de dormir, rezava pela alma dos finados e agradecia os presentes: o apartamento, que o salvara das agruras do aluguel; o piano, prova material e instransponível de que o amor, sim, existe.

Hoje, acordou depois do meio-dia e saiu apressado pela porta da cozinha. Foi direto ao Wal Mart e comprou um machado.

 

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criado por ciadaobesidade    21:11 — Arquivado em: Sem categoria

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