26.2.08
Notas da UTI
A paciente do leito número 3 virou o rosto pro seu lado esquerdo. No leito número 4, a oriental ressonava. Desde que chegara, a paciente do leito número 4 não abrira a boca nem os olhos. Imóvel. A paciente número 3 mirou o rosto desfeito pelo tempo e pela doença. Teia de rugas. Acompanhá-las, sabia, seria como embarcar numa viagem por rios antigos, afluentes pouco freqüentados, na brenha, cobertos por mato alto. A paciente número 4 abriu os olhos. Lá do fundo, os globos oculares lançavam seu morse obscuro. O tempo numa UTI forma poças que, vez por outra, são pisadas com estardalhaço: o socorro ao senhor do leito número 7, que veio fazer hemodiálise e teve um ataque cardíaco, os gritos da paciente número 9 ali no leito da frente. Gritos, xingamentos, pacientes surtam, médicos e enfermeiras também. As coisas ganham seqüência, como capítulos de livro ou novela. De resto, o tempo se mascara, na névoa das drogas. Gota a gota, elas invadem as veias, mas a conta é infinita. Noves fora, nada. A impressão, a sensação, o sentimento, a experiência, tudo indica que o tempo não existe. O filha da puta está lá, de butuca. A paciente número quatro mirava seu rosto. Teias, bacias. A paciente número três perguntou se ela tinha filhos. Silêncio. A paciente número 4 estendeu com dificuldade a mão esquerda e, com os dedos engruvinhados, formou o número 2. Aí, abriu os lábios e disse algo inaudível. Melhor: não houve som algum, ela nem mesmo tentou ser ouvida, apenas deixou as palavras se formarem na boca, na língua e nos lábios. Parecia filme mudo, TV sem som. Após outro silêncio, a paciente número 4 repetiu a cena. Repetiu algumas vezes, até que a paciente número 3 compreendesse. A paciente número 4 tinha perdido 2 filhos. A paciente número 3 perguntou se a moça que vinha vê-la nos horários de visita também era sua filha. A paciente número 4 fez que sim com a cabeça. Então fechou os olhos, voltou a ressonar. A paciente do leito número três se ajeitou na cama e, com a mão livre dos tubos, puxou o cobertor.
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