20.2.08
A vida dos outros
A vida dos outros
1.
È bom passar certas tardes em silêncio, pegar o primeiro cinema da tarde na Paulista, chorar ali sentado no escuro, numa reviravolta engenhosa do filme, num beijo, na volta daquele amor, numa fala precisa, no ponto mais alto da interpretação de um ator ou atriz desconhecido. É bom conter na garganta aquele soluço súbito que daria vexame na certa se estourasse na boca, e chorar em silêncio, pra dentro, enxugando discretamente as lágrimas quando as luzes teimam em acender antes que os créditos acabem.
2.
Novamente em silêncio, devorar o alface, a cenoura, o tomate, o repolho, o queijo ralado e as bolinhas de queijo, mais os pães quentinhos com o molho que o carinhas de marketing do Mac chamaram de caseiro.
3.
Pegar o metrô antes das seis, pra fugir da muvuca, pra conseguir viajar sentado e, melhor ainda, ler as primeiras páginas de Carta a D., a linda história de amor de André e Dorine, que você acabou de comprar na Cultura e tira agora do saquinho plástico.
4.
Quando o telefone toca seu nome aparece na tela, portanto, antes de atender e ouvir sua voz, já sei que é você, sabe-se lá de onde, depois de toda essa imensidão de tempo. Estou cansado. De andar. Do filme. Do Mac. Do livro. E ainda vou trabalhar daqui a pouco. Mas ouvir sua voz, e principalmente os silêncios sutis, que se imiscuem nos meus, que se lançam das bordas das minhas palavras ocas, enfim, você, você, você torna o início de noite mais fácil. É bom.


criado por ciadaobesidade
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