18.2.08
Selva das cidades
Selva das cidades
Desceu no metrô Vila Madalena, pegou a Heitor Penteado no sentido Lapa, subiu a leve ladeira logo depois da Pompéia, comprou 3 DVDs piratas na banquinha, passou no Sebo e não levou nada.
Pouco antes do cruzamento Heitor-Aurélia-Cerro Corá, pegou a travessinha que desemboca já pertinho do Habib’s e encurta um pouco a caminhada pela Cerro.
A travessinha faz um cotovelo, tem uma caixa d’água da Sabesp, um sobrado cujo jardim da frente tem centenas de brinquedos espalhados, como uma espécie de lar para gnomos e, bem no ângulo, uma pracinha meio escondida que tem uma puta vista da USP e do Butantã.
Quem anda vai no sentido contrário à mão da rua que, naquele horário da manhã, quase não tem carros, nem pedestres – de noite não é aconselhável fazer o atalho, melhor ir até o finzinho da Heitor, onde tem o Veterinário 24h, e pegar a Cerro Corá, olhando a praça do outro lado da rua, cuja vista da Zona Oeste abarca até o Pico do Jaraguá, principalmente em noite de lua cheia.
Naquela manhã, seu passo era ainda mais apertado porque queria encontrar os filhos antes que eles fossem para a escola. Mal olhava para os passantes com quem cruzava, no típico estilo paulistano de andar.
O paulistano cria uma espécie de radar e, mesmo à distância, avalia todos ao seu redor e, de acordo com tais julgamentos sumários, muda de calçada, acelera ou retarda o passo, olha de canto de olho uma bunda que passa, ou para na portaria do primeiro prédio que vê, fingindo ser morador.
Naquela manhã de passo acelerado observou num relance o homem que vinha na direção contrária. Mais ou menos sua idade, um pouco maior, linhas mais largas e grossas.
Quando se cruzaram, notou as sobrancelhas bem grafitadas na beira da testa, um olhar negro vindo do fundo do rosto. Camisa listradas esvoaçante sobre camiseta e um jeans.
Nem bem se cruzaram e a imagem na retina remeteu-o a uma viagem. Em segundos zanzou por inúmeros corredores mentais e encontrou com um menino. Um colega seu de escola. De que data vinha aquele garoto? Há quanto tempo estava lá? 15, 20 anos? Fez as contas: 28 ou 29…
Resolveu conferir. Na travessinha, virou-se e olhou as costas do homem que seguia em direção à Heitor, ainda a poucos passos. Os braços meio que abandonados, como adereços ao lado do tronco. As costas. A leve corcundinha do lado esquerdo que, agora lembrava, vinha acompanhada de um peito fundo, uma espécie de buraco negro no centro do tórax (revia aquelas tardes em que faziam natação e trocavam de roupa no vestiário da escola).
O adolescente de tantos anos atrás era muito magro e muito alto. Agora ambos os adultos tinham altura semelhante, e não tão generosa. Ambos carregavam o literal peso da idade.
Um rinoceronte. Foi a imagem que passou pela sua cabeça, como se homem, menino e bicho fossem todos cromos brilhantes de um álbum de figurinhas carimbadas.
Um rinoceronte. Largo, grosso, duro, determinado – em chegar à Heitor Penteado, pelo menos.
Também podia ser outra pessoa. Mas não parou para perguntar.
Embora parecesse seguir seu caminho em direção à Cerro, e de lá até em casa, e da casa ao trabalho, e assim por diante, na verdade continuou pastando pelos labirintos da memória.


criado por ciadaobesidade
18:42 — Arquivado em:
Comentário por renata — 20.2.08 @ 13:15
Adorei cada vez melhor