10.2.08
A VOLTA
Volta
Estava quase encostando na garagem, o rádio do carro, numa daquelas raras emissoras dedicadas à música brasileira, engatou um antigo sucesso, baladona de Fábio e Tim Maia. “Meu amigo…”. Imediatamente a memória começou a trabalhar e a letra veio vindo, palavra a palavra, inteirinha, pra boca. A dupla de cantores desfia a história de um amor, mais especificamente de um sujeito abandonado, em tom de conversa de buteco, na madrugada. “Será que ela vai voltar?” “Ela ainda vai te procurar.” Amigos oferecem consolo e ombro na bruta dor. Com direito, no meio da canção, à irrupção de um trecho de Cassiano: “Jogue suas mãos para o céu e agradeça se acaso tiver alguém que você gostaria que estivesse sempre com você, na rua, na chuva, na fazenda…”. Deixo pra você, se você tiver mais de 30, a conclusão mental desse clássico – estrategicamente alocado dentro do outro clássico que originou este texto. Pois é: a essa altura já escorregamos e caímos em um abismo afetivo, canções dentro de canções, memórias dentro de memórias, afetos e amores. Amores que partiram. Algum dos seus amores voltou? Ela voltou? Será que ela, ainda, depois de tudo, depois de tantos anos, será que ela ainda vai voltar? Voltar pra onde? Minha cidade emocional (São Paulo, acima de todas as dúvidas, é o modelo dessa minha desacorçoada mente) é sujeita a estranhas e brutais mudanças na lei de zoneamento, horrendos edifícios tipo Robocop surgem onde repousavam velhos casarões, embora ainda existam terrenos alguns terrenos – caríssimos – pra gente maluca construir um lar. Estacionei o carro na vaga do prédio e fiquei ouvindo a canção. Lembrei do Clip, lá dos anos 80, devo ter visto no Fantástico. Lembro do rosto do Fábio, madeixas encaracoladas, e do rosto do Tim, saudoso e furioso Tim Maia. Éramos todos garotos naquele tempo, só tínhamos memórias do futuro, sonhando aqueles amores que iriam nos abandonar.


criado por ciadaobesidade
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