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Ator Shakespeareano
Mais uma pro meu amigão
Alô, tudo bem, preciso pegar umas coisas. Sei, vem. Rezo para um encontro de paz. Ela chega. Linda, calma, engraçada. Engraçado: nada como umas e outras na telha pra deixar ela engraçada. Sempre foi assim. Nem parecia que oito meses, oito meses, oito tinham se passado. Nem parece, caralho – foi o que deu pra dizer. E também nem parece que, ainda outro dia, noutro telefonema, disse que nada, nada, não me interessava mais nada da vida dela, nada. Como se uma brisa carregasse as palavras. Uma metáfora, entende? Nada muito profundo ou original, mas serve. Conversamos amenidades, círculos largos e bem distantes do olho do furacão. Aliás, eu também não tenho mais vestígio do velho olho de tigre, que me garantia em situações de estresse ou de amor arregaçado. O olho de tigre que ganhei em velhas sessões de cinema assistindo a películas do Stallone. Ele, o Stallone, por incrível que pareça, ainda encara uns Rambos e Rockys aos 60. Com louvor e bilheteria. Ou DVD pirata. Eu preciso correr pro trabalho pra fechar o mês. Não tenho Photoshop que me guarde. Nenhum filtro miraculoso. Então tá. Adeus. Adeus é muito forte. Nunca se sabe. Melhor assim. Sei. Vai, vai acabar de encher a telha, meu bem. Pego o Minhocão, de repente estou na Radial. Era pra parar no Bixiga, no meio de um monológo shakespeareano.
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criado por celsocruz
19:48:51
A paciente do leito número 3 virou o rosto pro seu lado esquerdo. No leito número 4, a oriental ressonava. Desde que chegara, a paciente do leito número 4 não abrira a boca nem os olhos. Imóvel. A paciente número 3 mirou o rosto desfeito pelo tempo e pela doença. Teia de rugas. Acompanhá-las, sabia, seria como embarcar numa viagem por rios antigos, afluentes pouco freqüentados, na brenha, cobertos por mato alto. A paciente número 4 abriu os olhos. Lá do fundo, os globos oculares lançavam seu morse obscuro. O tempo numa UTI forma poças que, vez por outra, são pisadas com estardalhaço: o socorro ao senhor do leito número 7, que veio fazer hemodiálise e teve um ataque cardíaco, os gritos da paciente número 9 ali no leito da frente. Gritos, xingamentos, pacientes surtam, médicos e enfermeiras também. As coisas ganham seqüência, como capítulos de livro ou novela. De resto, o tempo se mascara, na névoa das drogas. Gota a gota, elas invadem as veias, mas a conta é infinita. Noves fora, nada. A impressão, a sensação, o sentimento, a experiência, tudo indica que o tempo não existe. O filha da puta está lá, de butuca. A paciente número quatro mirava seu rosto. Teias, bacias. A paciente número três perguntou se ela tinha filhos. Silêncio. A paciente número 4 estendeu com dificuldade a mão esquerda e, com os dedos engruvinhados, formou o número 2. Aí, abriu os lábios e disse algo inaudível. Melhor: não houve som algum, ela nem mesmo tentou ser ouvida, apenas deixou as palavras se formarem na boca, na língua e nos lábios. Parecia filme mudo, TV sem som. Após outro silêncio, a paciente número 4 repetiu a cena. Repetiu algumas vezes, até que a paciente número 3 compreendesse. A paciente número 4 tinha perdido 2 filhos. A paciente número 3 perguntou se a moça que vinha vê-la nos horários de visita também era sua filha. A paciente número 4 fez que sim com a cabeça. Então fechou os olhos, voltou a ressonar. A paciente do leito número três se ajeitou na cama e, com a mão livre dos tubos, puxou o cobertor.
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criado por celsocruz
08:37:00
Chips Desbloqueados
Para – e a partir – de um grande amigo.
Passaram não sei quantos meses, o telefone toca, é ela.Fala umas palavras, eu esquento, mando se fuder, desligo na cara. Toca de novo, claro que é ela, atendo, digo: não me interessa mais nada de você, da sua vida, sem dramas, sem encanações, sem nada, sacou? Saquei, ela responde e desliga. Ligo de novo e digo: nada contra você, só não me interessa mais nada, nada. Ela diz: depois de tantos anos, não quer nem ser meu amigo. Eu disse: não. Silêncio. Aí começa uma falação, como se esses nem sei quantos meses nem tivessem passado, uma enxurrada de córrego que transborda na zona sul e carrega toda uma vida, tudo que você comprou a prestação na Casas Bahia, tudo, numa só tacada. Nem sei quem desligou. Quer saber, sem maldade, ou com maldade, sei lá: quero é que ela se foda.
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criado por celsocruz
01:53:07
A vida dos outros
1.
È bom passar certas tardes em silêncio, pegar o primeiro cinema da tarde na Paulista, chorar ali sentado no escuro, numa reviravolta engenhosa do filme, num beijo, na volta daquele amor, numa fala precisa, no ponto mais alto da interpretação de um ator ou atriz desconhecido. É bom conter na garganta aquele soluço súbito que daria vexame na certa se estourasse na boca, e chorar em silêncio, pra dentro, enxugando discretamente as lágrimas quando as luzes teimam em acender antes que os créditos acabem.
2.
Novamente em silêncio, devorar o alface, a cenoura, o tomate, o repolho, o queijo ralado e as bolinhas de queijo, mais os pães quentinhos com o molho que o carinhas de marketing do Mac chamaram de caseiro.
3.
Pegar o metrô antes das seis, pra fugir da muvuca, pra conseguir viajar sentado e, melhor ainda, ler as primeiras páginas de Carta a D., a linda história de amor de André e Dorine, que você acabou de comprar na Cultura e tira agora do saquinho plástico.
4.
Quando o telefone toca seu nome aparece na tela, portanto, antes de atender e ouvir sua voz, já sei que é você, sabe-se lá de onde, depois de toda essa imensidão de tempo. Estou cansado. De andar. Do filme. Do Mac. Do livro. E ainda vou trabalhar daqui a pouco. Mas ouvir sua voz, e principalmente os silêncios sutis, que se imiscuem nos meus, que se lançam das bordas das minhas palavras ocas, enfim, você, você, você torna o início de noite mais fácil. É bom.

criado por celsocruz
20:00:11
Selva das cidades
Desceu no metrô Vila Madalena, pegou a Heitor Penteado no sentido Lapa, subiu a leve ladeira logo depois da Pompéia, comprou 3 DVDs piratas na banquinha, passou no Sebo e não levou nada.
Pouco antes do cruzamento Heitor-Aurélia-Cerro Corá, pegou a travessinha que desemboca já pertinho do Habib’s e encurta um pouco a caminhada pela Cerro.
A travessinha faz um cotovelo, tem uma caixa d’água da Sabesp, um sobrado cujo jardim da frente tem centenas de brinquedos espalhados, como uma espécie de lar para gnomos e, bem no ângulo, uma pracinha meio escondida que tem uma puta vista da USP e do Butantã.
Quem anda vai no sentido contrário à mão da rua que, naquele horário da manhã, quase não tem carros, nem pedestres – de noite não é aconselhável fazer o atalho, melhor ir até o finzinho da Heitor, onde tem o Veterinário 24h, e pegar a Cerro Corá, olhando a praça do outro lado da rua, cuja vista da Zona Oeste abarca até o Pico do Jaraguá, principalmente em noite de lua cheia.
Naquela manhã, seu passo era ainda mais apertado porque queria encontrar os filhos antes que eles fossem para a escola. Mal olhava para os passantes com quem cruzava, no típico estilo paulistano de andar.
O paulistano cria uma espécie de radar e, mesmo à distância, avalia todos ao seu redor e, de acordo com tais julgamentos sumários, muda de calçada, acelera ou retarda o passo, olha de canto de olho uma bunda que passa, ou para na portaria do primeiro prédio que vê, fingindo ser morador.
Naquela manhã de passo acelerado observou num relance o homem que vinha na direção contrária. Mais ou menos sua idade, um pouco maior, linhas mais largas e grossas.
Quando se cruzaram, notou as sobrancelhas bem grafitadas na beira da testa, um olhar negro vindo do fundo do rosto. Camisa listradas esvoaçante sobre camiseta e um jeans.
Nem bem se cruzaram e a imagem na retina remeteu-o a uma viagem. Em segundos zanzou por inúmeros corredores mentais e encontrou com um menino. Um colega seu de escola. De que data vinha aquele garoto? Há quanto tempo estava lá? 15, 20 anos? Fez as contas: 28 ou 29…
Resolveu conferir. Na travessinha, virou-se e olhou as costas do homem que seguia em direção à Heitor, ainda a poucos passos. Os braços meio que abandonados, como adereços ao lado do tronco. As costas. A leve corcundinha do lado esquerdo que, agora lembrava, vinha acompanhada de um peito fundo, uma espécie de buraco negro no centro do tórax (revia aquelas tardes em que faziam natação e trocavam de roupa no vestiário da escola).
O adolescente de tantos anos atrás era muito magro e muito alto. Agora ambos os adultos tinham altura semelhante, e não tão generosa. Ambos carregavam o literal peso da idade.
Um rinoceronte. Foi a imagem que passou pela sua cabeça, como se homem, menino e bicho fossem todos cromos brilhantes de um álbum de figurinhas carimbadas.
Um rinoceronte. Largo, grosso, duro, determinado – em chegar à Heitor Penteado, pelo menos.
Também podia ser outra pessoa. Mas não parou para perguntar.
Embora parecesse seguir seu caminho em direção à Cerro, e de lá até em casa, e da casa ao trabalho, e assim por diante, na verdade continuou pastando pelos labirintos da memória.

criado por celsocruz
18:42:00