Volta 2
Uns quarenta dias sem escrever no Blog. Desculpem a ausência, queridos visitantes. Mais do que férias, embora o período envolvesse issso, dediquei boa parte desse tempo a cursos e, especificamente, a terminar a primeira versão da peça O Anjo da História, sobre a qual já falamos aqui no Blog. Deu trabalho – e imensa felicidade – chegar ao fim da primeira versão.
Digo “primeira” porque textos dramáticos, mais ainda do que narrativas ou poemas, têm um número indeterminado de versões possíveis. Explico: enquanto o poema ou a história passam por rigorosas reescritas (ou não: pois existem, sim, textos que “nascem” prontos – sejam eles raros ou não, dependendo do autor), o texto teatral passa por mais uma dura prova – o trabalho da encenação e, especialmente, o corpo, a boca, dos atores.
Assim, por mais que o “ouvido” do dramaturgo tenda ao “perfeito”, a nuances que você só descobre em ensaios e, aí, o lance é voltar para o texto – e o ping pong é instaurado!
No caso do Anjo, veremos como a coisa vai acontecer. Pela primeira leitura, tenho a impressão (e muitas vezes me engano) de que não teremos tanto trabalho com o texto (felizmente, porque levantar a peça não será bolinho).
Posso dar um exemplo bem próximo da proliferação de versões. Também nesse janeiro, entrando em fevereiro, terminando ontem mesmo, trabalhei em outro texto dramático meu, A Irmandade.
Originalmente, A Irmandade nasceu de uma “encomenda”. Grandes amigos, de Porto Alegre, pediram um texto. A idéia era reunir em cena duas duplas: os já citados grandes artistas lá do Sul, mais Marcão suchara e eu, aqui de Sampa. O Ramiro dirigiria, eu faria o texto, Marcos e Evandro mandariam bala em cena. Tudo, se possível, com verba de um belo concurso federal.
Parti de um ponto bem simples. A incrível semelhança física entre o Evandro e o Marcão, que não são tipos muito comuns. Pensei em fazer uma peça sobre irmãos. Aceita a premisa pelo grupo, fui à luta.
A Irmandade acontece num velório, durante a madrugada. Dois homens se conhecem ali. Um é vendedor. O outro, padre. Ambos quarentões. Com o desenrolar da história descobrimos, evidentemente, que eles são irmãos, filhos do mesmo pai, o morto. Também saberemos detalhes da intrincada história que os (des)une, com matizes políticos, afetivos, culturais… Tudo em tom de comédia (e mais não conto pra não estragar a diversão dos eventuais espectadores).
As primeiras versões foram lidas pelo grupo, que propôs mudanças de todo tipo. Por exemplo, Ramiro sugeriu que o morto não fosse enterrado, mas cremado. Aceita a sugestão, outras mudanças ocorreram – pois trabalhar num texto é lidar com cobertores curtos ou dominós que desabam.
Na época, aproveitei também um workshop de dramaturgia que dei aqui em São Paulo pra fazer leitura dramática do texto. Guilherme Freitas e eu fizemos a leitura e, em um ensaio, cortei pra valer o texto que, felizmente, funcionou junto ao público, que curtiu muito.
Enfim, chegamos a um primeiro consenso. Um bom texto de partida. Mandamos o projeto pro concurso – e ele não faturou. Aí, a idéia foi pra gaveta (Ah, nossas gavetas cheias de idéias…).
Meses depois, pedi autorização para retomar o projeto aqui em São Paulo, caso nossos parceiros não tivessem horizontes. Com meu grupo, agora com Marcão e Guilherme em cena, retomei a montagem.
Leituras, discussões… Os atores começaram a decorar o texto. “Decorar” não bem a palavra. Mais correto seria “incorporar”, tornar orgânico, respirar. Aí, descobri vários problemas estruturais no trabalho. Em termos de diálogo, tempo, ritmo, clareza, etc.
Bom, o negócio então é enfrentar.
Comecei cortando, e cortando muito. Pra você ter uma idéia, das 54 páginas iniciais, cheguei a umas 39. E, mesmo assim, os personagens cresceram e a situação ficou mais estruturada. Mudanças sugeriram novas mexidas – e aí acontece aquela coisa, os personagens “comandam”, “ganham vida”, ou seja, o processo te (des)encaminha. Há impasses, inquietações, dúvidas.
Sempre procuro compartilhar tudo isso com meus companheiros de empreitada. Envio as seguidas versões, recebo as críticas, opiniões, sugestões. Às vezes, levo tempo para digerí-las. Surgem controvérsias. O processo é bem legal!
Nessa lida, chegamos à décima versão de A Irmandade!
Mandei para os atores e declarei (pela enésima vez) que não mexia mais.
Aí, aconteceu “o milagre” (e uso a palavra porque ela faz parte do contexto da peça). Ou, de modo mais simples, o processo criativo deu aquela guinada súbita que ilumina as coisas! Retomei trechos da antigas versões e cheguei numa versão power, digamos assim, um negócio que reúne o melhor (e algumas imperfeições valiosíssimas – pois cada peça e cada personagem têm seu próprio ritmo e dicção, formado por várias forças opostas) de tudo, piadas antes cortadas, deixas que havia abandonado, transições, etc.
Ficou bem legal. Fiquei feliz.
Enviei o texto pra moçada. Amanhã, no ensaio, vamos trabalhar e ler. Aqui entre nós, acho que agora o trabalho de mexer no texto acontecerá nos próprios ensaios, com a gente rabiscando em nossos textos encadernados, ou seja, coisa da dinâmica da cena. Mas vai saber.
Depois eu conto.
http://soasgordassaofelizes.zip.net/index.html