26.1.08
Volta das férias
OLÁ PESSOAL VOLTAMOS DE FÉRIAS E JÁ A TODO VAPOR,EM MARÇO ESTRÉIA A IRMANDADE EM CURITIBA E A PARTIR DA SEMANA QUE VEM AS CRÔNICAS DO CELSO CRUZ ESTÃO DE VOLTA

http://soasgordassaofelizes.zip.net/index.html
OLÁ PESSOAL VOLTAMOS DE FÉRIAS E JÁ A TODO VAPOR,EM MARÇO ESTRÉIA A IRMANDADE EM CURITIBA E A PARTIR DA SEMANA QUE VEM AS CRÔNICAS DO CELSO CRUZ ESTÃO DE VOLTA

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Meu pai tinha uma arma
Na passagem de ano meu pai subia pro terraço do sobrado e dava uns tiros pro céu com seu .38. Ia com meu avô e com meu tio-avô. Na juventude, meu vô foi policial, meu pai dizia que prendia uns caras pra ficar com suas minas. Meu tio-avô foi pracinha, fez a segunda guerra na Itália. Meu pai não gostava de militares, da polícia e nem mesmo de armas. Acho que esse 38. ele herdou do meu vô. Ficou com ele meio que por acaso. Acho que foi com essa arma que meu vô ameaçou as freiras que queriam converter minha vó moribunda, num asilo em São José dos Campos. Meu pai não era nem de matar moscas. Acho que meu vô também, nem meu tio-avô, mas eles eu não garanto. Na Guerra, é provável que meu tio-avô tenha matado alguém. Meu pai era um cara tranquilo, quando ficava puto berrava “eu te arrebento, eu te arrebento!”, e ficava nisso mesmo. Já o outro “berro” ficava guardado numa caixa. No quarto de casal, atrás da cama, no fundo de um antigo lambril, ficavam escondidos a tal caixa e um envelope pardo. No envelope, revistas pornô. Evidentemente, eu e meu irmão, crianças, conhecíamos cada esconderijo da casa. Exatamente à meia-noite de cada 31 de dezembro meu pai sumia da festa e a gente ouvia os tais tiros. Quando meu avô e meu tio-avô eram vivos, iam junto. Algumas vezes, meu irmão e eu éramos convidados para o ritual breve. Não tenho boa memória e não lembro bem se, alguma vez, um de nós chegou a atirar. Talvez um de nós tenha atirado junto com meu pai ou com meu avó, ambos segurando a arma. Nunca gostei de armas. Meu irmão também não. Embora tivéssemos arminhas de brinquedo, com espoleta, e adorássemos seriados como James West e Bonanza, ou mesmo Os Três Patetas e Tom & Jerry, que muitas vezes resolviam as coisas na bala. Além disso, sempre achei assustador aquele negócio de segurar a pistola, apontar pro céu e puxar o gatilho. Arma não é rojão – e o estampido do revólver era ouvido distintamente mesmo no meio dos tradicionais fogos de fim de ano. Talvez a gente pressentisse outras explosões similares na imensa onda que estourava, mas eu não tenho mesmo boa memória. Onde iam parar aquelas balas? Será que, depois de subir e subir, elas não podiam, na queda, acertar alguém? Meu pai, meu avô e meu tio-avô garantiam que não. Durante um tempo, depois que meu avô e meu tio-avô morreram, e que eu e meu irmão, já adultos, morávamos em outras casas e tínhamos nossas próprias famílias, o revólver sumiu. Um dia meu pai me pergunta: “você pegou meu revólver?” “Mas eu nem sei onde você guarda essa coisa!” Meu pai procurou pela casa toda. Perguntou também se eu achava que meu irmão poderia ter dado sumiço nela. “Meu irmão mora em outra cidade, não visita você há anos!” Quando estava de mudança para um sobrado menor, sem terraço, meu pai encontrou a caixa no fundo de um armário onde guardava velhos LPs, na sala. Na passagem de ano, disparou da janela tiros na noite.
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