29.12.07
Criaturas da noite
Criaturas da noite
Gótico
Erra quem diz que o vampiro aceita qualquer jugular. Cada pescoço passa por rigorosa seleção. O vampiro desdenha o colo nu que se oferece. Prefere o negaceio, o lábio seco que a língua umedece com fio de saliva, a piscadela nervosa. Só então os caninos se destacam e mergulham na carne. Assim.
Ahimsa
Depois que você vai dormir, as formigas cabeçudas, fantasmas, loucas e pixixicas devoram os resíduos do seu prato. Os ratos, cujos dentes crescem sem parar, fazem o mesmo sempre que seus crânios passam pela fresta da porta. A cascuda barata americana e a caseira alemãzinha engolem o que restou sobre a pia. Os seres acima mencionados pouco se lixam para sua mania de limpeza, ordem e sentido.
Gólem
Um grito. Um espasmo. Um sopro. Um gemido. Alguém dita no ouvido. A marionete executa. Exata. Boca fechada: aflito. Boca semi-aberta: feliz. Abre mais um milímetro, dois, três. Sorriso serrilha. Desdém? Ironia? Alegria? Abre mais. Continua. Mostra bem os dentes. Arreganha. Pára. Repara. Esta boca aberta. Este é o ataque. E a gargalhada. E também o gozo.
Caixa de Escorpião
Meu pai: “o câncer é uma caixa escura, você põe a mão e tateia e talvez tenha um escorpião lá dentro.”
Meynert exibe ao jovem Freud uma caixa de chocolates repleta de escorpiões: “deixe à noite o que é da noite da alma”. (Em o Enigma de uma Vida, de John Houston, roteiro de Sartre).
Praxila, cantora dos vinhos: “espia bem, amigo, sob cada pedra pode esconder-se um escorpião”.
É uma manhã sonada. Água no fogo pro café. A dor da ferroada não passa.


criado por ciadaobesidade
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