Meios de Transporte
Bandeira
Tava na Bandeira, carregada de compras, pressa danada, sábado calorento, pura assadura, esperava o Terminal Santo Amaro, aparece um boy, pinta de trombada, dá um papel: “venha resolver seus problemas, conhecer o futuro, o presente e o passado na casa da Mãe Xina.” Não gosto dessas coisas de bruxa e espiritismo. Até já fui numas, fiz cirurgia espiritual, fez bem na época, mas hoje sou crente. Conheci benzedeira séria, que sara furúnculo, segura casamento. Num fim de tarde, cartomante disse que via muita luz pra mim. Todo brilho que me esperava era de arear panela, encerar chão e lustrar móvel. Sou esse bofe, que a lida não faz ninguém Vera Fischer. Parece que tenho encosto, uns atrasos no caminho. Será que enterraram caveira de burro no quintal da minha casa, roubaram calcinha usada, largaram na encruzilhada? Deus dá, Deus toma. Por enquanto, tô tomando.
Lida
Bem-vinda, minha filha, boa tarde, calor desalmado, vi no SPTV que vai chover de enxurrada, minha coluna confirma. Senta, filha. Veio visitar mãe Xina, obrigado, que bom, a velha fica feliz, foi difícil achar o endereço? Café? Faço em coador de pano que Melita estraga o gosto e sirvo na xicrinha que ganhei dum japonês. Bolacha? Maria ou Água e Sal, não engorda, filha, que bom que você veio, já estou sintonizando as idéias, tenho muito pra dizer pra ti. Primeiro: não sou da macumba nem faço trabalho, não sou mesa branca nem puxo carta, não leio Tarô nem jogo búzio, não faço vidência pelas águas, não limpo aura, nem combato mau-olhado. Eu bato um papo. Me sinto como a Antena da Gazeta, sabe, lá na Paulista? Quer saber se a vida é uma lorota ou onde anda seu bilhete premiado da Sena, o seu Cuoco, o seu Fábio Assunção? Quer trazer de volta pessoa amada? Pega minha mão e viaja.
Contato
Quitinete arrumadinha, Sagrado Coração na parede, sofá forrado, quina desfiada pelo gato, tv ligada sem som no Mulheres, mesinha pra atendimento, cama com colcha de chenili, almofada estampada, talvez uma praia em São Vicente. Gelei pra segurar aquela mão tratada a Pond´s, esmalte sem lasca, anel com pedra azul, quase tapando aliança. Fui de pouquinho, estendendo mão lixada no sapólio. De repente, fiz contato.
Céu
Reparaste que ninguém, nunca, em outra vida, foi menos que rei e rainha? Ninguém nunca foi empregadinha, dessas fuleiras que nem eu. Ninguém nem puta foi, no máximo essas putas chiques, morria de tuberculose. Putinha de rodoviária, dessas de cinco merréis, ninguém nunca foi. Ninguém filhadaputa e, se foi, foi um Pilatos, um Judas, não o mane que martelou prego em Jesus. Sobrou pra mim, que do Egito até hoje nunca passei de doméstica. Pode pensar no Japão ou nas caravelas do Cabral. “Vi com clareza”, mãe Xina disse. Disse também que esse é o meu futuro, indo e voltando do céu das domésticas. Pelo menos não cobrou nada, que ela não tira de quem não tem onde cair morto, nessa e em vida nenhuma.
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