27.12.07
Ghost Writer
GHOST WRITER
1. Ghost
Levanta e vai pro banheiro. Frente ao espelho, considera suas chances. É, rapaz, a decepção inspira seus lances mais delicados. Pode ser na cama. Pode ser no trabalho, onde você se dilui no rodamoinho de releases, roteiros, anúncios, reportagens, uma nova versão do Livro de São Cipriano, uma adaptação da Sabedoria de Buda para livros de bolso, traduções dos antigos gregos via inglês capenga (Safo: Para Eros: Você me queima). É. Você não é nem um rei dos Gibis de Terror, seus argumentos não assustam, apenas vampirizam novelas românticas ou góticas. Você não é nenhum dédalo de inteligência e sensibilidade, com leves toques de esquizofrenia, embora tenha, é verdade, um sutil tique nervoso. Ghost writer, autor de cartas comerciais com a rubrica, o abraço e o até breve dos gerentes de produtos, você é o falso enólogo que assina cartas de vinhos de restaurantes medianos. Tudo, de preferência, em página dupla, 4 cores. Doses de “requinte”, “sofisticação”, “prazer” inundam suas laudas. Uma pontuação cuidadosa, um ritmo elaborado, tudo quase artesanal – não fosse a indústria (que você não serve nem engana?) impingir prazos, trocar títulos, exigir conjunções. Esse é seu ofício, dele extrai seu sustento. Por isso evita o abuso dos travessões e o travo na garganta e, de modo inofensivo, trama doces vinganças na urdidura dos parágrafos, como quem embute segredos, cabalas, SOS, marcas de personalidade. Mas é uma salada insossa que move seus dias. É. Você hoje está amargo, na terceira pessoa. Hoje seu desdém é profundo e o seu olhar, numa palavra escrota, bilioso. Mas ao menos você não recorre mais a dramáticas teorias literárias. Isso: agora pensa nos seus ídolos. Borges e Bioy fazendo textos promocionais de laticínios. “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”, slogan de Fernando Pessoa – reprovado, diga-se de passagem - para a Coca-Cola. Cada um vive como pode. Quem não se liga se fode. Um, ordenado. Outro, cachê. Um, comissão. Um, michê. Um leva jeito. Outro, nabo. Entra com pau ou com rabo. Cada um vive como sabe. Uns vão além do que cabe. Um, pistolão, sobrenome. Um, rima rica. Outro, pobre. Cada um vive como aguenta. Um é poeta, outro tenta. Cada um vive como gosta. Uns no perfume, uns na bosta. Você ainda lembra dos seus ideais? Aquelas meias verdades que você pensava tocar, de leve, na cama, na vertigem do gozo. Puro monólogo. A moça ronca na cama. Então desfia de uma vez a meia de vedete das suas vaidades, engole o chiclete de clichês e trocadilhos, taca fogo em seus papéis. E dá descarga.
2. Eterno Retorno
O tronço gira como brinquedo no fundo da privada do motel. Por mais que você aperte a hydra, ele não se vai.
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criado por ciadaobesidade
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