20.12.07
CANUDOS
CANUDOS
Cocorobó
Até onde alembro era dia,
passarim na cantoria,
sol era estrela cega,
burburinho na bodega.
Era dia até onde alembro,
não sei se janeiro ou dezembro,
no dia do fogo primeiro,
mataram meu conselheiro.
Eu jogava meus brinquedo
sem sombra de dor e medo,
no meio do movimento,
e servia mantimento.
Barricas de bacalhau.
Charque nos embornal.
Cavalinho Rio Real,
É vem o meu general,
Antonio Vicente dos mares,
pra curar todos pesares!
“Louvado seja Jesus,
que anda pregado na cruz.”,
diz meu Santo Aparecido
e é logo respondido:
“Pra sempre seja louvado,
Jesus meu deus meu amado.”
Sou um jagunço menino,
vesgo, desengonçado,
mal guento o gibão surrado
onde levo meu destino,
mas eu sigo sem um ai
as jornadas do meu pai.
“Não sou seu pai, sou irmão,
encho de pedra as mão,
faço muro e cemitério,
capela, sem muito mistério,
que as mão só conhece a obra,
se não faz Deus vem e cobra.
Acho que imposto é caó
e não pago, tenha dó.
E o casamento civil,
pouca vergonha, onde se viu!
Sou a favor da Monarquia,
seja noite ou seja dia.”
“Mas me diga, peregrino,
diga pro seu menino,
se eu fosse aqui o capeta
pra atanazar tua meta,
e te prometesse jóia, ouro,
o mais rico dos tesouro,
pra deixares a jangada
ao fim dessa madrugada,
sem muita patifaria,
o que é que me diria?
“Tempestade se alevanta
no coração de Maria.
Vambora raiou o dia.
Vem do meu lado e canta.”
Aqui ali e acolá
terra é lugar de se andar.
“Vim de Quixeramobim.
Meu Deus, que será de mim?”
Sou aqui de Cocorobó.
Labuta, brinquedo e só.
Sou cria do seu arraial.
“Muda branca no varal.”
Aguardente, pito, um tudo,
pra essa gente de Canudos,
judiada da refrega,
aqui se encontra na bodega.
“Baiano, sergipano,
cearense, pernambucano,
cafre, tapuia, pardo,
nego que larga fardo,
preto que esquece açoite…”
Todo viajante tem pernoite.
Perto da praça, da Capelinha.
Feijão de corda e farinha.
Mas quem quiser remédio santo,
lenitivo até pra espanto,
é só procurar Conselheiro,
nosso fiel companheiro.
“Daqui até o horizonte
é tudo nosso Belo Monte.
A nova barca de Noé,
feita de barro e palha.”
Foi isso que ele disse, não é?,
se a memória não me falha.
Mas um dia a tropa veio,
rachou tudo pelo meio.
Será que ele é o anticristo?,
me perguntou o Evaristo.
Abaixo toda conquista
do povo conselheirista!
Contra faca e parabelo,
nossos parabelo e faca.
Sertanejo num é vaca
que se mata com cutelo.
Diga só, Moreira César,
que foi que te matou?
Bala lá de Belo Monte
que Conselheiro ordenou.
Minha arma é minha amante.
Chumbo aqui é purgante,
bom bota-lombriga
vai limpar tua barriga.
E depois, para tua tosse,
aribú de bico doce,
que adora comer soldado,
mas não bica nosso lado,
vai pegar corta-pescoço
e deixar só pele e osso.
As mulheres de Canudos
guerreiam com água quente.
Os meninos com pedradas
fazem voltar muita gente.
Terço no fim de tarde,
ofício de madrugada.
Ai, como essa chaga arde
daqui até o fim dos mundos.
É a guerra papando tudo.
Artur Oscar,
se você morrer,
vem me buscar?
Maria Helena,
se eu morrer,
você tem pena?
Alferes Francisco Teles,
tenente Zazuarte,
cada um faz sua parte,
o covarde que se pele.
Pegue as contas pra rezar.
Aqui todos vão penar.
“Fui rábula e professor,
sabia ler, escrever, contar.
Fui caixeiro, amansador,
e sofri ao me casar.
Agora fiz meu passamento
por bala e degolamento
pelo Exército Naval
de Artur Oscar, general.
Incendiaram o povoado.
Matança pra todo lado.
Pega faca.
Risca couro.
Dá um carinho.
Dá um trocado.
Rega a muda.
Rega a pedra.
Arranha a terra.
Cisca, Maria, cisca.
Arranha o fole.
Arranha a gaita.
É o Diabo no deserto?
Quarenta dias.
Quarenta noites.
O conselheiro amansa a fera.
O bicho fareja, aquieta.
O cão mija nos caminho.
É galo, é bode, é boi.
É brinquedo de criança.
É calango desossado.
Quem vai e quem fica?
Quem é que se sacrifica?
Eu era um menino, eu era.
Um menino.
Se bem me alembro.
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