Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

6.12.07

Quando eu era menino……

Quando eu era menino…

Hoje acho que nós, da Cia. Da Obesidade, depois de levarmos uma traulitada num dos festivais dessa vida (talvez eu volte ao assunto em outra ocasião), precisamos da força de Goethe pra nos inspirar. Pensando nisso, resolvi trazer pra cá um trecho da peça “Werther de Goethe”, que fiz com Marcos Suchara. O texto a seguir mistura partes do final do romance de Goethe com nacos do poema Prometeu, também do mestre alemão, mais umas pitadas nossas. Agora, em que estamos envolvidos com o Anjo da História, ao lado de outros mestres alemães, Brecht e Benjamin, com nossos doces e malditos refugiados, aposto na força do colosso Goethe! Beijos pra todos.

Desde menino, quando eu não sabia me virar,
Meus olhos procuravam as estrelas,
Como se lá existisse ouvido para minhas queixas,
Um coração como o meu,
Solidário à minha angústia…

Mas quem me livrou da dor, do medo da morte e da escuridão?

Só você, meu coração…
Meu jovem, belo, bom – e enganado coração! –
Que oferecia preces para um Deus
Que lá no céu dormia…
Sem suavizar as dores do oprimido
Ou enxugar as lágrimas do angustiado…

Quem me fez Homem foi esse silêncio.
O tempo. O destino. O acaso.
Senhores meus e teus.
E de todas as crianças e mendigos,
Loucos cheios de esperança.

Você, amigo, talvez tenha pensado
Que eu odiaria a Vida
E fugiria para os desertos
Porque nem todos os meus sonhos
Frutificaram…

Mas eu estou aqui!

Para sofrer, chorar, gozar, me alegrar.
Para mirar as estrelas e desejá-las
Sem respeito algum.

Eu sou apenas um viajante, um peregrino sobre a terra.

E você, por acaso, é algo mais do que isso?

 

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A última

 

A última

Maio. Campinas. Naquela noite apresentaríamos Só As Gordas… na CPFL. O circo estava armado e sobravam ainda umas duas horas pra peça. Eu estava com uma agonia. Peguei um bloquinho e uma futura vermelha e fui pra padoca de frente – aliás uma belíssima padoca. Aí rascunhei o texto a seguir. Uma hora o Dill veio comprar bolacha e foi testemunha. Meus garranchos, uma situação bem simples pra começar e o jazz. Veio uma pequena peça. Depois, esqueci do texto e do bloco. Achei que tinha perdido. Encontrei tem uma semana, num canto do escritório – e quem conhece meu escritório sabe que às vezes perco umas coisas por lá. Passei pro computador e resolvi trazer pra cá. Bruto. Bruta. A última peça. Felizmente, já vieram muitas depois. E o momento é perfeito pra (re)começar.

A última peça

Eu desisto. Foram essas as palavras que você usou? As palavras. As que você disse. Eu desisto. Você. Você disse. De você. Eu desisto de você. Aliás, eu desisto de você e do seu carinho, evidentemente, como desisto do meu emprego, da minha arte, até dos meus filhos, pecado, eu desisto. Foram essas as palavras. Não, não, não, não foram outras, não foram quase essas palavras, não é questão de aproximação, nem de manter o sentido, mesmo que com outras palavras. Não. Você usou essas. Essas você usou. Cuidado. Cuidado com as palavras. Eu sou bom com palavras. Na verdade eu sou muito bom, você sabe. Eu sei usar muito bem as palavras. Como navalhas. Machados. Tesouras de trinchar frangos. Marretas de abater gado. Pinças para lidar com as asas de borboletas perdidas. Eu sei. Cuidado. Tudo o que você disser poderá ser usado contra você. Será usado contra você. Está sendo usado. Você está sendo usada pelas palavras sempre que fala, sempre que emite palavra, estamos sendo todos usados, eu sei, eu sei porque eu sou muito bom com as palavras, assim como elas têm sido boas comigo. Eu acho. As palavras me deram tudo. À medida que o mundo me tirava, lá iam as palavras e me davam, davam tudo. As palavras. Corrosivas como maresia. Como a baba de um Alien. Como um beijo teu. É. Teu. Você. Você. Você que disse. Eu desisto. De você, de você, de você, etc. Esta portanto é a última peça, o último item do contrato. Ficamos por aqui. Façamos um acordo entre as partes. Eu ouço você dizer eu desisto eu digo cuidado com as palavras as palavras não perdoam como os bandoleiros dos antigos spaghetti westerns. Eu desisto. Você se entrega? Talvez, talvez. Cuidado Não haverá volta. O julgamento, como num spaghetti western, não será justo, todos são feios, sujos e malvados nesse tribunal e não haverá clemência e, diferentemente de um spaghetti western, Clint Eastwood não aparecerá no final para disparar um tiro preciso na corda da tua força. Será teu o corpo que balança num derradeiro estertor. A derradeira ejaculação e pronto: aqui jaz teu corpo, esvaziado e frio, destino preciso de quem desiste, principalmente de quem desiste das palavras. Você se entregará a um mutismo cara-de-pau metido a sábio zen de mangá de quinta? Será teu o corpo na rua. Cachorro virá lamber e não haverá mais poesia. Esta é a última peça. Não há mais cena nesta caneta ou nesta retina, como não há mais gesto nestes braços cansados, que os movimentos redundantes e repetitivos condenariam a uma artrite precoce. Haja comprimidos. O estômago corroído pelo ácido das palavras. Pelo aço das palavras. O discurso é um lento suicídio. Não dá mais pra negar. Por isso, então, eu desisto. Foi o que você disse. Ao menos. Ao menos foi o que você disse. As ações sobre o palco não modificam nada, o que caiu por terra foi tua arrogância de poeta. Morte aos poetas e suas utopias. Chega de amores e de fantasias. Chega de rimas, também. Que o fogo vire brasa e a brasa se extinga num espasmo da linguagem. E nem pense que o silêncio será ao menos um tanto quanto significativo. O Silêncio é vazio. Como muitas vezes podem ser, como muitas vezes foram, como tantas vezes eram as palavras sobre o papel, na cena, na boca dos atores. Aceite: ninguém ouviu teu gemido. Assuma: ninguém notou tua queixa. Compreenda: ninguém dá – nem deu – a mínima. A diversão é efêmera. Ninguém aqui quer peças difíceis sobre o caos, já basta o caos do dia-a-dia, o caos dos escritórios, das escolas, dos lares. Eu disse caos? Foi o que você disse, exatamente. Caos. Perdão. Não foi bem isso. Agora é tarde. Está dito. E talvez seja bem dito. O caos? O caos. A linguagem é uma tirana e, ao mesmo tempo, uma puta e, ao mesmo tempo, uma mãe e, ao mesmo tempo, a esperança de liberdade. Você sempre foi um romântico. É verdade. Eu era. Agora, não. Eu desisti. Eu desisto. Esta é a última peça. O monólogo da degola. O soluço do palhaço. O espasmo do doente. O quem vem depois? Do fim? Da morte? Da desistência. Um pouco de tudo. A voragem da língua te vira pelo avesso e expõe no varal tuas vísceras. És e serás nada. Aliás, como fora. E não importa a contorção do verbo, tentando fixar e dar sentido a um naco do contínuo que é o tempo. Mergulhar nessa vertigem é confrontar o nada, o absurdo. A tua pela será esticada e atarraxada ao tambor do mundo, o tambor que o mundo percute e cuja freqüência nenhum de nós escuta. Fodam-se você e sua agonia. Foda-se tua necessidade de grana, prestígio, sucesso, poder. Condições de trabalho. Condições para amar. Condições para criar os filhos e amar os pais, as mães, os cachorros e os gatos e as gordas, as gordas felizes ou mais ou menos felizes ou menos felizes ou ainda menos. Tuas imprecações frente ao muro do mundo sempre foram ridículas, assim como tua autocomiseração e auto piedade. As tuas seduções baratas. O sexo conquistado. Os amores que você deixou e os que te deixaram. Tudo isso são detalhes de uma última peça. Uma peça sem cenário nem personagens, sem deixas ou rubricas, sem ação, em suma, só conflito. Ou melhor: só impasse no conflito. E jogos de linguagem em torno da desistência. Será essa uma forma sagaz de resistência? Uma tentativa fútil de resiliência? Onde está a consistência, que não acompanha a volta das rimas banais e bagaceiras? Isso aqui é solidão. Solidão bruta. No meio do mundo. Do palco. Você disse: eu desisto. E isso quer dizer eu desisto. Mas sinto te informar: não é mais possível. Aliás, nunca foi. O palco é tua prisão, nunca houve uma primeira peça, só uma única, longa, quase interminável, derradeira peça. A última, eu creio. A última peça, esperamos todos nós. Aliás, desejamos. Porque o mundo não precisa mais de peças. Há peças suficientes no mundo. Há amores, mulheres, orgasmos, delírios, empregos e sofrimentos suficientes no mundo e nunca, jamais, sabemos como dar cabo deles, como acabar, como terminar bem esta cena. Usamos, portanto, nossos truques, até que eles se esgotem e descubramos, então, o óbvio, o que estava ali, desde sempre. Eu desisto. Essa é a única fala, dita por um personagem indeterminado, nesse aqui e agora, nessa água parada que você ousa, enfim, declarar tua última peça.

                     

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criado por ciadaobesidade    12:34 — Arquivado em: Sem categoria

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