Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

Crônicas de Celso Cruz

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Terra Blog

Arquivo de: Dezembro 2007

29.12.07

Valeu e valerá

Desde agosto, este Blog tem sido meu delicioso caderno de textos. Fico feliz que outras pessoas têm passado olhos sobre o amontoado de textos e agradeço o carinho de todos. Desejo muita alegria e felicidade em 2008, com muitos textos pra todos nós. Como este é um espaço pra aventura da literatura, mandem comentários e textos pra gente brincar juntos. Grandes beijos. Agradecimentos a todos, em especial ao Gui, meu técnico e querido amigo. Grande 2008 pra todos nós!

                          

                   

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Votos

Votos


Caldo

Aproxima o olhar dos três punhados sobre o tampo da mesa e tateia as contas do teu terço. Cada grão leva a antigos almoços, jantares e amores. A lembrança entorna o caldo.



Experiência

“Os instrumentos do poeta são a angústia e a humilhação”, escreveu Borges. Cegos, larguei-os sobre a mesa, após utilizar os últimos laivos da experiência, executar cortes no peito e aninhar a pedra bruta.


Voto

De manhã, o monge sobe a encosta com o balde cheio. De tarde, derrama água na árvore seca. Agora, anoitece. O voto não tem preço.

 

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Meios de Transporte

Meios de Transporte





Bandeira

Tava na Bandeira, carregada de compras, pressa danada, sábado calorento, pura assadura, esperava o Terminal Santo Amaro, aparece um boy, pinta de trombada, dá um papel: “venha resolver seus problemas, conhecer o futuro, o presente e o passado na casa da Mãe Xina.” Não gosto dessas coisas de bruxa e espiritismo. Até já fui numas, fiz cirurgia espiritual, fez bem na época, mas hoje sou crente. Conheci benzedeira séria, que sara furúnculo, segura casamento. Num fim de tarde, cartomante disse que via muita luz pra mim. Todo brilho que me esperava era de arear panela, encerar chão e lustrar móvel. Sou esse bofe, que a lida não faz ninguém Vera Fischer. Parece que tenho encosto, uns atrasos no caminho. Será que enterraram caveira de burro no quintal da minha casa, roubaram calcinha usada, largaram na encruzilhada? Deus dá, Deus toma. Por enquanto, tô tomando.

Lida

Bem-vinda, minha filha, boa tarde, calor desalmado, vi no SPTV que vai chover de enxurrada, minha coluna confirma. Senta, filha. Veio visitar mãe Xina, obrigado, que bom, a velha fica feliz, foi difícil achar o endereço? Café? Faço em coador de pano que Melita estraga o gosto e sirvo na xicrinha que ganhei dum japonês. Bolacha? Maria ou Água e Sal, não engorda, filha, que bom que você veio, já estou sintonizando as idéias, tenho muito pra dizer pra ti. Primeiro: não sou da macumba nem faço trabalho, não sou mesa branca nem puxo carta, não leio Tarô nem jogo búzio, não faço vidência pelas águas, não limpo aura, nem combato mau-olhado. Eu bato um papo. Me sinto como a Antena da Gazeta, sabe, lá na Paulista? Quer saber se a vida é uma lorota ou onde anda seu bilhete premiado da Sena, o seu Cuoco, o seu Fábio Assunção? Quer trazer de volta pessoa amada? Pega minha mão e viaja.


Contato

Quitinete arrumadinha, Sagrado Coração na parede, sofá forrado, quina desfiada pelo gato, tv ligada sem som no Mulheres, mesinha pra atendimento, cama com colcha de chenili, almofada estampada, talvez uma praia em São Vicente. Gelei pra segurar aquela mão tratada a Pond´s, esmalte sem lasca, anel com pedra azul, quase tapando aliança. Fui de pouquinho, estendendo mão lixada no sapólio. De repente, fiz contato.


Céu

Reparaste que ninguém, nunca, em outra vida, foi menos que rei e rainha? Ninguém nunca foi empregadinha, dessas fuleiras que nem eu. Ninguém nem puta foi, no máximo essas putas chiques, morria de tuberculose. Putinha de rodoviária, dessas de cinco merréis, ninguém nunca foi. Ninguém filhadaputa e, se foi, foi um Pilatos, um Judas, não o mane que martelou prego em Jesus. Sobrou pra mim, que do Egito até hoje nunca passei de doméstica. Pode pensar no Japão ou nas caravelas do Cabral. “Vi com clareza”, mãe Xina disse. Disse também que esse é o meu futuro, indo e voltando do céu das domésticas. Pelo menos não cobrou nada, que ela não tira de quem não tem onde cair morto, nessa e em vida nenhuma.

 

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Bíblia

Bíblia





Carga semanal


Dia um: ele cria céu e terra, trevas cobrem o abismo, ele paira sobre as águas e diz “luz”, a luz acontece e ele chama à luz “dia” e às trevas “noite”. Dia dois: ele faz o firmamento. Dia três: ele separa terra e mar, na primeira põe plantas, árvores, ervas, flores, frutos e sementes. Dia quatro: ele firma sol, lua e estrelas como luzeiros no firmamento e guias do elemento tempo. Dia cinco: ele bola monstros marinhos, seres das águas e também as aves, depois diz “frutifiquem e multipliquem-se. Dia seis: chega a vez dos seres terrestres, os animais selvagens e domésticos, os répteis... E aí ele resolve fazer a espécie humana a sua imagem e semelhança, supondo que ela reine, e cria o homem e a mulher e diz “tudo é de vocês, divirtam-se.” Sétimo dia: descanso. Os próximos capítulos não serão nenhum paraíso.


Revelação

Quisera vomitar o livro,
quebrar a vara,
levantar a foz,
arrancar o arreio
e derrubar da sela
o Dominador.
Quisera o exílio
a derramar quirela
para os pastores
da santa guerra.
Mas na solidão
um anjo escroto
meteu um cano
em minha boca
e exigiu a encomenda.
Toca espremer a gema
do rancor e da vingança
nas páginas perenes
do Apocalipse.
Amém.

 

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Criaturas da noite

Criaturas da noite


Gótico

Erra quem diz que o vampiro aceita qualquer jugular. Cada pescoço passa por rigorosa seleção. O vampiro desdenha o colo nu que se oferece. Prefere o negaceio, o lábio seco que a língua umedece com fio de saliva, a piscadela nervosa. Só então os caninos se destacam e mergulham na carne. Assim.


Ahimsa

Depois que você vai dormir, as formigas cabeçudas, fantasmas, loucas e pixixicas devoram os resíduos do seu prato. Os ratos, cujos dentes crescem sem parar, fazem o mesmo sempre que seus crânios passam pela fresta da porta. A cascuda barata americana e a caseira alemãzinha engolem o que restou sobre a pia. Os seres acima mencionados pouco se lixam para sua mania de limpeza, ordem e sentido.


Gólem

Um grito. Um espasmo. Um sopro. Um gemido. Alguém dita no ouvido. A marionete executa. Exata. Boca fechada: aflito. Boca semi-aberta: feliz. Abre mais um milímetro, dois, três. Sorriso serrilha. Desdém? Ironia? Alegria? Abre mais. Continua. Mostra bem os dentes. Arreganha. Pára. Repara. Esta boca aberta. Este é o ataque. E a gargalhada. E também o gozo.


Caixa de Escorpião

Meu pai: “o câncer é uma caixa escura, você põe a mão e tateia e talvez tenha um escorpião lá dentro.”

Meynert exibe ao jovem Freud uma caixa de chocolates repleta de escorpiões: “deixe à noite o que é da noite da alma”. (Em o Enigma de uma Vida, de John Houston, roteiro de Sartre).

Praxila, cantora dos vinhos: “espia bem, amigo, sob cada pedra pode esconder-se um escorpião”.

É uma manhã sonada. Água no fogo pro café. A dor da ferroada não passa.