GINSBERG.COM
Correspondência completa
com Allen Ginsberg
Querido Allen, obrigado pelo seu recado,
Proibo-o de deixar de tocar-me, homem a homem, autêntico americano.
Num supermercado, num manicômio, na beira de estrada soprando um girassol com um irmão e a velha locomotiva, na universidade impossível, num mergulho de peiote, no ventre de Naomi, na orelha decepada de Van Gogh. Um encontro. Hora: a da profecia sem morte como consequência.
Allen, deus está se fazendo, o ato sexual é um meio de salvação, a suprema realidade é a união dos princípios, abraço dos deuses, felicidade absoluta.
Hoje, todavia, as palavras ditas ou escutadas, as viagens e as caminhadas alimentam sua felicidade.
Allen, desconfie. Alimente o fogo com minha imagem.
Allen, vertigem de homens momentâneos e sós, alaúde afinado por um poeta cego.
Carma. Artevida. Obra sem cessar.
Eu quero ser um gato morto.
Querido Celso, obrigado pelo recado,
Proibo-o de deixar de tocar-me, homem a homem, autêntica máscara.
Encontrei Allen no meu peito, transmigrado pela força invocatória de Kaddish. Encontrei Allen num jorro de sêmen que adormeceu nos ladrilhos. Lábios carnudos, crescentes. Encontrei o uivo de Allen no meu silêncio.
Allen na escadaria do Municipal, em frente ao Mappin, noite quente.
Me apresento. Voz entrega fragilidade do dono.
Dou um presente: Stalker, o livro.
América, você me fez querer ser santo.
Nunca dei nada a ninguém e minhas imagens não passam de estilhaços.
A inteligência. A inteligência. A inteligência.
Conduzindo à ansiedade dura.
Paus na noite. É um acaso que produz essa ejaculação assombrosa. É um acaso que produz esse surto premonitório. É um acaso que produz a solidão e sua fuga. Bucetinha querida, ergo um templo com minhas carnes exaustas. Olhos que cantei durante anos. Série de poetas cegos, ninguém me condena ao desespero, mas arranco os olhos, trágico e estrangeiro vos acompanho.
“Vá conhecer seu ‘menino’!” Eu poderia, não fosse essa a essência do tempo, margem da imortalidade pretendida pela estátua de sal do ego.
“Vá se foder!”
A sede de poder te consome, meu caro.
Eu vi as melhores cabeças da minha geração assassinadas pela miséria, fome, desilusão, depressão, medo, tédio, AIDS, estupidez…
sou carne da carne da tua imagem espectador
frase ejaculada ritmo visceral respiração
novilíngua x belzebulenga
me chamo perigo fracasso
com fantasias autodestrutivas
empalado por uma escova de cabelos pelo cabo da raquete
de tênis lambuzado de merda
seu couro roçando meu cu com gozo furioso
a solidão (que não existe)
Em sto. André tem um cara, Allen, que tem Eurípedes na ponta da língua e é arauto do renascimento de Dioniso.
Querido Allen, estou tão só. Você trocaria São Paulo pelo Nirvana e sua complexa geografia? Mande resposta. Notícias. Saudade e beijos.
Querido fim. Desemprego, silêncio, almoço no Ponto Chic.
Sentia seu fantasma nas esquinas.
O sol iluminava o Minhocão, que era uma senda tranquila, e no rádio nenhuma canção me aniquilava.
Há muitas páginas dispensei metáforas hermosas.
Botei um papel no livro UIVO, entre as pgs. 26 e 26, com um retalho de entrevista de Ginsberg: o poema HOWL é uma afirmação, pela experiência pessoal, de Deus, do sexo, das drogas e do absurdo.
Brasil infinito, onze de junho de 1987…
Hé-lá-á-á-á-á.
Saúdo-te, Allen, saúdo-te
meu irmão em universo.
Nos teus versos, não sei se leio ou se vivo.
Não sei se o meu lugar é no mundo ou nos teus versos.
Porta pra tudo.
Ponte pra tudo.
Estrada pra tudo.
Críticas cruéis que não ultrapassam o espelhamento, sou um prato suculento.
Não adianta escrever quando o espírito não conduz.
Não quero mais negar maná.
Dos poemas de A.G. :
“Eu tenho o arrulhar da pomba e a pluma do êxtase.”
“Mas eu só morrerei pela poesia que salvará o mundo.”
O texto não pode ser consumido.
Buda, não cancelarei a árvore do desejo.
Ainda tenho lágrimas e uma família paranóica.
Eu amaria.
7 iluminações para jovens poetas:
1. Muito Blake (especialmente Sun-Flower – Cantos da Experiência), muita masturbação, ouvir muitas vozes.
2. Ler notas nos livros.
3. Tornar-se poroso a sua cidade e evitar encontros acadêmicos.
4. Viver o Cântico dos Cânticos.
5. Comer Burekas, torta de ricota e papoula no Bom Retiro.
6. Dar um beijo em sua mãe.
7. “Quando falta uma vocação especial que imponha uma orientação imperativa aos interesses vitais, o simples trabalho manual, acessível a todo mundo, pode desempenhar essa função. O trabalho, em geral, equilibra a economia libidinal do indivíduo, ligando-o à realidade.” Sei…
O que preciso para receber de você um bom dia?
Primeira anotação na Agenda Poética Mário Quintana:
Hoje passei na História e o clima rasteiro das relações me incomodou. Queria chacoalhá-los. Pretensão. Movimento minha vida. É o que deve bastar.
o que você anda lendo
o nada desesperado
a lágrima de colírio
o que você anda lendo
o mapa de grãos no prato
a certeza sem delírio
o que você anda lendo
poderia sonhar
amor
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