Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

22.11.07

Entre Irmãos

Cruzes

Meu irmão vive em Portugal há uns 12 anos. Antes, passou um tempo em Londres. Antes ainda, vivia em São Paulo, sua terra natal. Cresceu no Brooklin, estudou no Pequenópolis e na ESPM, comia no Pozzillipo. No ano que vem, completa 40. Hoje, casado com a incrível Susi, portuguesa da sua Póvoa de Varzim, cria a maravilhosa Vitória, mezzo portuguesa, meio brasileira, com 1 ano e meio de puro dengo. Sócio vitalício da Cia. da Obesidade, é ele que nos (des)encaminha quando viajamos com nossos espetáculos por terras lusitanas. É ele o grande inspirador de nosso projeto Migrações, que desenvolvemos atualmente com o PIM Teatro de Évora. Nosso objetivo: falar das diferenças num mundo cada vez mais chapado e, sem dúvida, propor a convivência entre irmãos - não apenas os de sangue. Tudo isso, evidentemente, no Teatro. Aguardem, muitas peças virão - e irão - em intercâmbio lusófono de primeira!
O MEU irmão, o Fábio, sabe muito bem o que é viver fora de seu país de nascimento - as doçuras e as agruras das Migrações. Além disso, está escrevendo o fino. Assim, tenho o orgulho de apresentar um texto dele nestas páginas digitais. Com vocês, algumas ponderações sobre as migrações, de Cruz para Cruz - e em nome de todas as nossas cruzes.

Muito obrigado, irmão! Beijos!

 

O Chiar da Panela de Pressão

 

Finda a euforia, o imigrante passa a viver em banho-maria de si mesmo, emocionalmente em lista de espera temendo que a sua bolha protectora expluda e ele fique definitivamente espalhado. Perdido para sempre.
Vive como se observasse o chiar da panela de pressão.
Porque há uma distinção importante entre ser imigrante e ser estrangeiro:
Imigrante, é o que pensamos de nós próprios.
Estrangeiro, é o que os outros pensam de nós.
A ferida surge quando nos tornamos estrangeiros para nós mesmos, como se fosse a nossa imagem do outro lado do espelho que andasse por aí. Não nos reconhecemos.
A gente não sabe bem quem é e já nem desembaraça o fio condutor da nossa vida.
Parecemos uma figura ambulante do jogo dos sete erros. Uma pintura falsa. Um produto chinês. Vivemos em um mundo paralelo, com todas as suas semelhanças e diferenças mas com a noção de que alguma coisa está fora da ordem.
Um eletro-eletrônico consertado e que funciona bem sem aquela peça que se esqueceram de recolocar. Pior seria se ao abrirmos não víssemos as pilhas! Adiante.
O tempo se comprime, como se fossemos astronautas retornados de uma longa viagem e reencontrássemos os que ficaram na terra mais velhos do que nós. O tempo se materializa no estranhamento ao vermos as rugas nos rostos que deixamos para trás.
Passamos a ser uma mistura sobreposta de eus e de épocas diferentes. Dois, três vários slides projectados juntos.
Não há distância. O imigrante está sempre no meio, no meio de si mesmo. Só há caminhada mas como nas passadeiras eléctricas em que é a paisagem que se move.
Entretanto, o início da experiência é muito estimulante: estar por conta própria, ser aquele que não reconhece e nem é reconhecido, a complete unknow, like a rolling-stone.
Andamos para lá e para cá e ninguém dá aquele tapinha nas costas, faz um aceno à distância ou nos olha com um olhar antigo.
Mais tarde isso nos deixa invisíveis demais e vamos sumindo, fazendo o sentido inverso da fotografia que se revela.
Novas pessoas e amigos vão surgindo mas a memória só é verdadeiramente memória quando compartilhada, como a calabresa ou o azulejo da cantina. Isso leva muito tempo, muita constância e muita amizade.
A nossa história é que nos define e nos molda mas nossa memória se confunde com a lembrança de um livro que lemos, um filme que vimos ou uma história que ouvimos.
A vida do imigrante é um mosaico repartido de sentimentos e vontades. A imagem completa é vista de longe. De perto são só fragmentos.
Transitamos entre dois mundos, em terra de ninguém. Sabemos que a parte mais importante da história é a que estamos vivendo agora mas o passado está sempre presente e reaparece a todo instante, nos momentos e situações mais insignificantes.
Existem também os que nascem nos lugares errados e passam o resto da vida tentando voltar para casa mas essa é uma outra viagem, com enredo diferente e que rima com aquela música “Estou bem aonde eu não estou porque eu só quero ir aonde eu não vou”.
Por fim, e com isso reiniciamos este ciclo vicioso, finito mas ilimitado, existe a questão definitiva da vivência da língua, que é por onde a nossa cultura se manifesta.
A geografia linguística afirma que a pronúncia da palavra se diferencia consoante o lugar e assume formas, intensidades enfim, sentimentos diferentes.
Consequentemente o ambiente é que nos molda e se falamos com o corpo todo significa que o ambiente também tem o dom de nos refazer por completo.
Assim, ao alterarmos a nossa pronúncia e o nosso léxico alteramos a nossa identidade, nos diluindo em uma solução ao mesmo tempo doce, salgada, azeda e amarga.
Uma solução sem solução.

 

Fabio Cruz

 

                          http://soasgordassaofelizes.zip.net/index.html

 

criado por ciadaobesidade    19:10 — Arquivado em: Sem categoria

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