7.11.07
Algumas Palavras…….
Algumas palavras sobre um livro lindo
Em algum lugar, acho que em Além do Bem e do Mal, Nietzsche diz alguma coisa mais ou menos assim: “não almejo a vida eterna, mas a eterna vivacidade”.
A citação pode não ser perfeita, mais uma traição da memória, mas é com a ressonância desse conceito que saio da leitura de O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza.
O livro narra a trajetória de um homem que, em meados dos anos 80, aos 29 anos, é pai pela primeira vez. Casado, estudante de letras, sem emprego, escritor iniciante, não é com poucas dificuldades que ele enfrenta esse grande momento de mudança em sua vida. E a situação fica dramática quando a criança, Felipe, é diagnosticada como Down.
O Filho Eterno mostra toda a luta desse homem, interna e externa - e sua transformação em pai. Da entrada brusca no universo da paternidade até a construção de uma identidade paterna e, mais do que isso, de uma relação amorosa com o filho, numa intensa troca afetiva.
Do repúdio inicial às partidas do time do coração que ambos hoje assistem juntos. Dos primeiros esforços terapêuticos com o bebê, em cenas comoventes, aos grandes resultados atuais do jovem Felipe com a pintura. Todas as fugas do pai e algumas fugas do filho, essas muito concretas, na adolescência.
Em paralelo, o autor narra também, a partir das memórias de seu personagem, o desenvolvimento artístico desse homem, suas lutas para encontrar caminho na arte e na vida prática, desde a adolescência até a maturidade,realizando grande conquistas literárias.
As duas narrativas têm como ponto de contato o narrador anônimo da história, evidentemente, e como motor de desenlace dos nós a presença do filho, com sua vivacidade, gerando sentido para vida e obra do narrador.
O Filho Eterno se coloca como “romance”, mas são evidentes seus contornos biográficos. O autor conta sua própria história de vida – e a de seu filho Felipe.
A exposição é completa. Muitas vezes dura e até cruel, mas sem jamais perder cada naco de ternura que, página a página, ao longo de vinte e poucos anos, os personagens conquistam. E que nós, seus leitores, conquistamos também, numa prosa precisa, leve e serenojovial (para lembrar mais uma vez o Nietzsche, em tradução acho que do Jacó Guinsburg).
Aqui, filho e obra reinventam o criador que as gerou, num sofisticado eterno retorno, pois a história não termina com o fim do livro, continuando na vida da família Tezza, nas futuras obras do autor e, temos certeza, em muitas outras tardes maravilhosas em que pai e filho assistirão juntos aos jogos do Atlético Paranaense.
Não à toa, o narrador/autor é fã de Nietzsche, que é citado muitas vezes no livro. Acho que O Filho Eterno libera no mundo a grande metáfora dessa eterna vivacidade, que só pode ser encontrada no aqui e agora, e que, no transcorrer da obra, o narrador descobre e aceita na sua relação com o filho.
Pai e filho. Filho e pai.
O amor, enfim.


criado por ciadaobesidade
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