| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 3 | 4 | |||
| 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 |
| 12 | 13 | 14 | 15 | 16 | 17 | 18 |
| 19 | 20 | 21 | 22 | 23 | 24 | 25 |
| 26 | 27 | 28 | 29 | 30 |
Barrela
Há quase 50 anos, em Santos, um garoto de circo, sem grande instrução, cometeu sua primeira peça. Levou pra cena um fato: um jovem de classe média foi colocado numa cela de prisão com mais de dezena de presos; lá, passou por todo tipo de desgraça. O texto usa a situação como base e cria um painel vertiginoso da ralé urbana, da violência, da degradação, da humanidade e da poesia que explode no caos.
Barrela, a peça, revelou o jovem dramaturgo Plínio Marcos, hoje, sem a menor dúvida, um dos maiores criadores de teatro que já andou pelos palcos brasileiros. Um autor cuja obra ainda não tem nem o reconhecimento, nem a publicação, merecidos e necessários.
Plínio escreveu e realizou sua obra maravilhosa com a ira dos poetas malditos e com o desejo de mudança, de justiça e inclusão.
Mas quem diria que em final de 2007, numa cela do interior do Pará, uma menina seria submetida a toda a série de crimes que ressoam a Barrela de Plínio.
“Colocar uma menor numa cela com 20 anos por cerca de um mês...” Essa frase curta contém uma quantidade absurda de barbaridades. Essa frase é fato. Nos domínios da brutalidade, não há porque criar uma escala, sugerir qual crime ou ação, qual situação ou ato é mais degradante.
Precisaremos de uma multidão de novos Plínios gritando para que um dia esse tipo de coisa pare de acontecer?
O jornalista Jânio de Freitas deu nome aos bois: isso é nazismo. Puro e simples. Num país que ainda tem gente que pinta a suástica ou defende abertamente ideais totalitários. Ou onde muita gente compreende o polêmico Tropa de Elite como aval para ideologias de extermínio.
Não nos esqueçamos que, no Pará, quem comanda o governo é uma mulher. A juíza do caso é uma mulher. A delegada também. Ou seja: no Pará, uma governadora, uma juíza, uma delegada e uma menina formam uma macabra cadeia que joga no lixo qualquer ideal de cidadania ou direitos humanos.
Mesmo que um delegado diga que a menina é “uma débil mental”, ou que a menina “é de maior”. Ou que já saibamos que o caso da menina não é a exceção, pois já se fala em outras situações semelhantes no estado.
Tenho saudades do Plínio, que vendia suas peças em edições de autor na porta dos teatros de São Paulo, que lia Tarô, que era ator extraordinário e declamava poemas de Brecht como ninguém. Do Plínio que jantava no Gigetto, que circulava pelo centro, que escrevia obras primas, irmãs e mães.
Dizem os dicionários que Barrela pode ser pessoa frouxa. Pode também ser caldo coado de cinzas e soda usado pra clarear roupas. Pode também ser um engano (dar em água de barrela: ir por água abaixo, dar em nada). No sentido figurado, pode falar da limpeza da reputação de alguém.
A essa altura do campeonato, o que é que cada um de nós, brasileiros, pretendemos fazer com nossa própria Barrela?
http://soasgordassaofelizes.zip.net/index.html

criado por celsocruz
11:52:14
Nós já recebemos o nosso presente de final de ano ,muito obrigado a todos que nos visitaram ,vida longa as crônicas de Celso Cruz.
http://soasgordassaofelizes.zip.net/index.html

criado por celsocruz
11:09:04Cruzes
Meu irmão vive em Portugal há uns 12 anos. Antes, passou um tempo em Londres. Antes ainda, vivia em São Paulo, sua terra natal. Cresceu no Brooklin, estudou no Pequenópolis e na ESPM, comia no Pozzillipo. No ano que vem, completa 40. Hoje, casado com a incrível Susi, portuguesa da sua Póvoa de Varzim, cria a maravilhosa Vitória, mezzo portuguesa, meio brasileira, com 1 ano e meio de puro dengo. Sócio vitalício da Cia. da Obesidade, é ele que nos (des)encaminha quando viajamos com nossos espetáculos por terras lusitanas. É ele o grande inspirador de nosso projeto Migrações, que desenvolvemos atualmente com o PIM Teatro de Évora. Nosso objetivo: falar das diferenças num mundo cada vez mais chapado e, sem dúvida, propor a convivência entre irmãos - não apenas os de sangue. Tudo isso, evidentemente, no Teatro. Aguardem, muitas peças virão - e irão - em intercâmbio lusófono de primeira!
O MEU irmão, o Fábio, sabe muito bem o que é viver fora de seu país de nascimento - as doçuras e as agruras das Migrações. Além disso, está escrevendo o fino. Assim, tenho o orgulho de apresentar um texto dele nestas páginas digitais. Com vocês, algumas ponderações sobre as migrações, de Cruz para Cruz - e em nome de todas as nossas cruzes.
Muito obrigado, irmão! Beijos!
O Chiar da Panela de Pressão
Finda a euforia, o imigrante passa a viver em banho-maria de si mesmo, emocionalmente em lista de espera temendo que a sua bolha protectora expluda e ele fique definitivamente espalhado. Perdido para sempre.
Vive como se observasse o chiar da panela de pressão.
Porque há uma distinção importante entre ser imigrante e ser estrangeiro:
Imigrante, é o que pensamos de nós próprios.
Estrangeiro, é o que os outros pensam de nós.
A ferida surge quando nos tornamos estrangeiros para nós mesmos, como se fosse a nossa imagem do outro lado do espelho que andasse por aí. Não nos reconhecemos.
A gente não sabe bem quem é e já nem desembaraça o fio condutor da nossa vida.
Parecemos uma figura ambulante do jogo dos sete erros. Uma pintura falsa. Um produto chinês. Vivemos em um mundo paralelo, com todas as suas semelhanças e diferenças mas com a noção de que alguma coisa está fora da ordem.
Um eletro-eletrônico consertado e que funciona bem sem aquela peça que se esqueceram de recolocar. Pior seria se ao abrirmos não víssemos as pilhas! Adiante.
O tempo se comprime, como se fossemos astronautas retornados de uma longa viagem e reencontrássemos os que ficaram na terra mais velhos do que nós. O tempo se materializa no estranhamento ao vermos as rugas nos rostos que deixamos para trás.
Passamos a ser uma mistura sobreposta de eus e de épocas diferentes. Dois, três vários slides projectados juntos.
Não há distância. O imigrante está sempre no meio, no meio de si mesmo. Só há caminhada mas como nas passadeiras eléctricas em que é a paisagem que se move.
Entretanto, o início da experiência é muito estimulante: estar por conta própria, ser aquele que não reconhece e nem é reconhecido, a complete unknow, like a rolling-stone.
Andamos para lá e para cá e ninguém dá aquele tapinha nas costas, faz um aceno à distância ou nos olha com um olhar antigo.
Mais tarde isso nos deixa invisíveis demais e vamos sumindo, fazendo o sentido inverso da fotografia que se revela.
Novas pessoas e amigos vão surgindo mas a memória só é verdadeiramente memória quando compartilhada, como a calabresa ou o azulejo da cantina. Isso leva muito tempo, muita constância e muita amizade.
A nossa história é que nos define e nos molda mas nossa memória se confunde com a lembrança de um livro que lemos, um filme que vimos ou uma história que ouvimos.
A vida do imigrante é um mosaico repartido de sentimentos e vontades. A imagem completa é vista de longe. De perto são só fragmentos.
Transitamos entre dois mundos, em terra de ninguém. Sabemos que a parte mais importante da história é a que estamos vivendo agora mas o passado está sempre presente e reaparece a todo instante, nos momentos e situações mais insignificantes.
Existem também os que nascem nos lugares errados e passam o resto da vida tentando voltar para casa mas essa é uma outra viagem, com enredo diferente e que rima com aquela música “Estou bem aonde eu não estou porque eu só quero ir aonde eu não vou”.
Por fim, e com isso reiniciamos este ciclo vicioso, finito mas ilimitado, existe a questão definitiva da vivência da língua, que é por onde a nossa cultura se manifesta.
A geografia linguística afirma que a pronúncia da palavra se diferencia consoante o lugar e assume formas, intensidades enfim, sentimentos diferentes.
Consequentemente o ambiente é que nos molda e se falamos com o corpo todo significa que o ambiente também tem o dom de nos refazer por completo.
Assim, ao alterarmos a nossa pronúncia e o nosso léxico alteramos a nossa identidade, nos diluindo em uma solução ao mesmo tempo doce, salgada, azeda e amarga.
Uma solução sem solução.
Fabio Cruz
http://soasgordassaofelizes.zip.net/index.html

criado por celsocruz
19:10:42
Meu erro
O erro no meu berro madrugada adentro ensaio sem fim de peça sem começo
O berro no meu erro a noite principia e esse novo esforço me vira do avesso
O terço em que desfio os erros e meço desvios e me arremesso
O berço de todas as dádivas em todas as dúvidas sem moral nem preço
O verso que sonhei a cena que bolei o gesto que esbocei e esqueço
A carta que mandei pra ela e que agora volta pro meu endereço
O rasgo no papel o talho no teu olho a carne que lateja o abscesso
O jorro que não cessa o murro que não lesa a vida que não tem mais peso
As asas que bolei o vôo que arrisquei a queda livre de adereços
Em cada gole de fracasso beber meu sucesso
http://soasgordassaofelizes.zip.net/index.html

criado por celsocruz
13:01:36
Relíquias
Não posso contar nada, nada! Nenhum detalhe. Mas como não entregar nem um naquinho dessa maravilha que é Harry Potter e as Relíquias da Morte?
Acabei de ler. As últimas 80 páginas eu li molhando o livro, de tanto que chorei! As cenas mais emocionantes de toda essa série inesquecível.
O livro é demais. Tem muita, muita aventura. Grandes reviravoltas. Respostas para os grandes nós da trama. Mortes. Amores. Personagens dúbios. Grandes confrontos e, principalmente, o mais aguardado de todos, o entre o menino-que-sobreviveu, Harry Potter, e o lorde das trevas, aquele-que-não-deve-ser-nomeado, Lord Voldemort!
Se Joseph Campbell estivesse vivo, certamente estaria debruçado sobre a saga do bruxinho, desvendando os fios míticos dessa incrível narrativa e espantando os chatos que torcem o nariz para uma boa história bem contada.
A saga do pequeno órfão que descobre pouco a pouco grandes poderes e, enfrentando desafios cada vez mais complexos, com a ajuda de mentores e amigos, para, mais do que se transformar em herói, realizar a trajetória do conhecimento pessoal e de integração em sua comunidade é um tesão!
Que satisfação! Passar a noite debruçado sobre um livro, página a página, capítulo por capítulo, com um prazer que, também pouco a pouco, se intensifica.
Penso em José Paulo Paes e seu ensaio maravilhoso sobre literatura de entretenimento. Penso nos romances que li com maior prazer na vida, sei lá, de O Pequeno Príncipe e O Menino do Dedo Verde a O Estrangeiro e A Metamorfose… De alguns livros de Stephen King, como O Iluminado, Carrie e Cemitério Maldito, à saga da médica-legista Kay Scarpeta, de Patricia Cornwell!
Um romance, ou seja, uma narrativa longa, pode ser muitas e muitas coisas, mas ainda é, pós-pós-modernismos, simplesmente, uma boa história, bem contada, com ritmo, personagens cativantes, reviravoltas, envolvimento e um final acachapante!
E que delícia quando uma história dessas galvaniza muitas pessoas, e você se sente sócio de um clube, a turma dos leitores malucos… Isso vale para o Werther, para o Quixote, para Harry Potter!
Enquanto eu lia o calhamaço de 590 páginas, algumas vezes meu filho mais velho chegava bem perto, observava a cena e perguntava quantas páginas eu tinha lido, ou quantas faltava ler. Então ele pegava o catatau e, do alto dos seus quase sete anos, conferia as páginas restantes, com ar de admiração, meio sem entender a situação: aquele pai paradão num canto com o nariz enfiado num livro!
Meu filho, que está em pleno processo de alfabetização, nessa sociedade das imagens e da internet, dos Power Rangers e do próprio Potter, que ele conhece dos filmes, olha com espanto o pai que lê.
Eu falo pra ele do prazer daquilo, da importância da leitura, do quanto se aprende, se vive e se conhece lendo. Ele já conhece o mundo das histórias não só por toda a mídia do mundo, mas principalmente pelas histórias que eu e a mãe contamos pra ele e pro irmão, seja apoiados em livros, gibis, por memória ou invenção.
Toda noite, quando não estou trabalhando, e eles exigem que eu os leve pra dormir, apagamos a luz do quarto, eu me deito na cama do menor e conto as histórias que eles escolhem.
Pode ser uma aventura do Quarteto Fantástico ou do Incrível Hulk, do Batman ou do Super-Homem… Esses heróis de quadrinhos que eu li e colecionei toda a vida. Ontem, foi um resumão da saga de Potter, sem o final, pois eu ainda não tinha terminado.
Hoje de noite, se eles quiserem, contarei o final da saga. Não importa. As crianças gostam das boas histórias. Que desejam ouvir e ver infinitas vezes, sem pudor, se entretendo e emocionando sem parar.
Espero que logo meus filhos leiam cada um dos livros de Harry Potter, e Monteiro Lobato, e muitos, muitos outros, sem falar em Camus, Ésquilo, Shakespeare, Moliére, Clarice, Joyce, Mutarelli, King e tantos outros. Os livros estão espalhados pela casa, ao lado das espadas de Power Rangers, dinossauros, papéis, canetinhas, etc
Lembro de Indiana Jones e a Última Cruzada, e na maneira engenhosa como, lá, fica provado que a pena vence a espada (revejam e relembrem).
Mesmo quando o mundo parece cair, ler é uma maneira maravilhosa de ser feliz. E, mais do que isso, ler é uma das melhores maneiras de impedir que ele caia!
Viva J.K. Rowland! Viva Roni, Hermione e Harry Potter!
Viva a literatura!
http://soasgordassaofelizes.zip.net/index.html

criado por celsocruz
21:16:27