28.11.07
Barrela
Barrela
Há quase 50 anos, em Santos, um garoto de circo, sem grande instrução, cometeu sua primeira peça. Levou pra cena um fato: um jovem de classe média foi colocado numa cela de prisão com mais de dezena de presos; lá, passou por todo tipo de desgraça. O texto usa a situação como base e cria um painel vertiginoso da ralé urbana, da violência, da degradação, da humanidade e da poesia que explode no caos.
Barrela, a peça, revelou o jovem dramaturgo Plínio Marcos, hoje, sem a menor dúvida, um dos maiores criadores de teatro que já andou pelos palcos brasileiros. Um autor cuja obra ainda não tem nem o reconhecimento, nem a publicação, merecidos e necessários.
Plínio escreveu e realizou sua obra maravilhosa com a ira dos poetas malditos e com o desejo de mudança, de justiça e inclusão.
Mas quem diria que em final de 2007, numa cela do interior do Pará, uma menina seria submetida a toda a série de crimes que ressoam a Barrela de Plínio.
“Colocar uma menor numa cela com 20 anos por cerca de um mês…” Essa frase curta contém uma quantidade absurda de barbaridades. Essa frase é fato. Nos domínios da brutalidade, não há porque criar uma escala, sugerir qual crime ou ação, qual situação ou ato é mais degradante.
Precisaremos de uma multidão de novos Plínios gritando para que um dia esse tipo de coisa pare de acontecer?
O jornalista Jânio de Freitas deu nome aos bois: isso é nazismo. Puro e simples. Num país que ainda tem gente que pinta a suástica ou defende abertamente ideais totalitários. Ou onde muita gente compreende o polêmico Tropa de Elite como aval para ideologias de extermínio.
Não nos esqueçamos que, no Pará, quem comanda o governo é uma mulher. A juíza do caso é uma mulher. A delegada também. Ou seja: no Pará, uma governadora, uma juíza, uma delegada e uma menina formam uma macabra cadeia que joga no lixo qualquer ideal de cidadania ou direitos humanos.
Mesmo que um delegado diga que a menina é “uma débil mental”, ou que a menina “é de maior”. Ou que já saibamos que o caso da menina não é a exceção, pois já se fala em outras situações semelhantes no estado.
Tenho saudades do Plínio, que vendia suas peças em edições de autor na porta dos teatros de São Paulo, que lia Tarô, que era ator extraordinário e declamava poemas de Brecht como ninguém. Do Plínio que jantava no Gigetto, que circulava pelo centro, que escrevia obras primas, irmãs e mães.
Dizem os dicionários que Barrela pode ser pessoa frouxa. Pode também ser caldo coado de cinzas e soda usado pra clarear roupas. Pode também ser um engano (dar em água de barrela: ir por água abaixo, dar em nada). No sentido figurado, pode falar da limpeza da reputação de alguém.
A essa altura do campeonato, o que é que cada um de nós, brasileiros, pretendemos fazer com nossa própria Barrela?


criado por ciadaobesidade
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