Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

27.10.07

ROSTOS

 

Rostos

São Paulo. Cidades sobrepostas. Você pega uma foto antiga da Ladeira da Memória. Está lá o risco das ruas, mesmo que nas beiradas tenhamos erguido e destruído mundos. Pegue também fotos do Anhangabaú. Era o Santana o teatro que ficava ali, do lado da Light? Ou eu estou variando, conforme a deformação da memória. Acho que em cada cidade que visito busco uma São Paulo da minha infância: passeios de Natal pela Rua Direita; as lojas de animais do Largo São Francisco, as gaiolas com pássaros, outras com filhotes de cães e gatos; as Lojas Americanas; o sanduíche de calabresa da Casa Califórnia, acompanhado pelo suco de coco; o elevador do Mappin; casacos da Peter´s, camisas da Jean Daniel; LPs do Museu do Disco; o fuzzilli da Pozillipo (e tenho certeza de errar na quantidade de consoantes), cantina na Paim da qual só sobrou o painel de azulejo no fundo do galpão, retratando a praia da pequena cidade do sul da Itália. O casarão da minha vó, demolido pela Igreja Achiropita (já escrevi sobre isso em um livro). Hoje São Paulo bufa, impermeabilizada de fora a fora. Rios corrigidos e mortos. Regatos canalizados. Se essa chuva cair vai ser bom pra gente respirar um pouco. Sabe lá onde essa água toda vai desembocar. Haja piscinão do Maluf! Do Pacaembu ao cantão das Águas Espraiadas. Sonho com São Paulo ou é Buenos Aires, com becos de Paris e ladeiras de Lisboa? A Liberdade reencontrada. República de antigos domingos de Feira de Antiguidades, expositores vendiam pequenos fósseis cravados nas pedras, nunca tive um, mas achava o máximo. Acarajé naquela barraca. Ou um almoço no Da Giovanni, sentados no balcão, o pai, a mãe, o Gugui e eu. Comer uma massa, pudim de sobremesa. O Comodoro, o Metro, o Ipiranga. A Rhodia, ali na Libero Badaró, onde meu pai trabalhava, e de onde começou a assistir ao incêndio do Joelma. Não tem jeito. Por mais que eu te rejeite ou me rejeites, conforme o dia, a hora ou o trânsito, o caso é que te amo, São Paulo, com todos esses rostos que tens e tivestes.

                    

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MIGRAÇÕES 1.6

 

Amigo Shopping (a partir de entrevista de Sérgio D’Ávila)

“Amigo” é uma das poucas palavras em espanhol que uns carinhas dos subúrbios de Washington conseguem aprender. Ela ajuda bastante quando os bandos chamam o imigrante ilegal que passa, no fim da jornada do subemprego, com uns trocados no bolso, e dão uma bela duma rapa. A atividade tem até nome: “Amigo Shopping”. Modo pós-moderno de “ir às compras”, como se o sujeito fosse gôndola de loja, e já que a vítima não tem mesmo com quem se queixar.

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MIGRAÇÕES 1.5

 

O texto de hoje nasce da deliciosa mensagem da Alexandra, comentando o texto anterior do blog, Pizza. É uma mínima ode aos estrangeiros, ao acolhimento que minha amiga me dá e, além de tudo, uma homenagem carinhosa a um casal muito, muito querido.

Estrangeiros

1.

Quando o personagem do livro de Camus, no meio da praia da Argélia, sob o sol implacável, sente coceirinha no dedo e puxa o gatilho, o menino, no pequeno sobrado na zona sul de São Paulo, com a edição capa dura do Círculo do Livro entre as mãos, descobre que ele mesmo é O Estrangeiro. Com o passar dos anos, no meio de muitas cidades, sonhadas ou destruídas, de mãos dadas ou vazias, continuará ouvindo o zumbido das balas na carne estraçalhada.

2.

Quando a figura desembarca na praia que agora chamamos grega, vinda de algum canto do que hoje dizemos África, só quer comer e dormir. Quase não deixa vestígios. Mas os que a observam em poucos séculos criam a lenda de um deus estrangeiro, confinado nesta máscara de olhos vazados que ainda encaram turistas nos museus do primeiro mundo, scholars com teses desesperadas e infiéis adoradores, que agradecem a dádiva do alheamento em porres incríveis.

3.

Quando o gajo abriu a boca, a rapariga já sabia que ele era estrangeiro. O sotaque definiu a geografia, conhecida das novelas. “Eles tomam nossas mulheres e empregos” – alguém disse, numa rodinha. “As deles são prostitutas” – pensou o entendido. “Falta raiz” – aconselhou a vizinha. Amaram-se loucamente num hotel barato - e via e-mails melosos, depois que ele partiu. Talvez ela venha. Talvez ele volte. Os amigos abençoam. Amar: nem que seja no meio do Atlântico, num Titanic.            

 

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