Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

20.10.07

MIGRAÇÕES 1.3

 

Amigos

1.

Quando o pintor de paredes conquistou o poder não restava nada a fazer senão mudar de país. Com a ajuda de companheiros, morou com a família na Dinamarca, onde recebia visitas de um grande amigo e mantinha malas prontas para eventual correria. Depois morou nos EUA, onde retocou seu Galileu, com o apoio de um dos maiores atores americanos. Depois da guerra, prestou depoimento digno das páginas de sua obra-prima na comissão que caçava bruxas. Aí só restava buscar novos anfitriões. Depois de algumas sondagens, voltou para a Alemanha, ao menos para uma delas, face da sua velha mãe pálida. Lá montou seu teatro, reuniu antigos colegas, fez muitos novos, dirigiu Mãe Coragem, que consagrou a companheira de uma vida, escreveu poemas para o camarada Stálin e virou busto, primeiro em Berlin, depois no mundo todo. Ou quase. É fundamental contar com os inimigos.

2.

Gostava de visitar o amigo. A comida era boa. A conversa, melhor ainda. Os silêncios, inestimáveis. Jogavam xadrez, fumavam. Ele, haxixe. O outro, charutos – alguns do Brasil. Discutiam seus escritos. Um poema, um ensaio. Uma peça, uma frase. Eram francos. Eram rigorosos. Às vezes rudes ou simplesmente cruéis. Às vezes amargos ou canalhas. Também falavam de Kafka e Lao Tse. Curtiam as chuvas de verão pela janela. Planejavam milhões de meios de aniquilar o pintor de paredes. E riam muito, pois sem isso não conseguiriam esquecer por um segundo que a vida no exílio era simplesmente insuportável. Sempre à beira de um tiro de pistola, um ataque cardíaco ou de uma dose fatal de morfina.

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Projeto Migrações

 

Projeto Migrações, uma apresentação:

"A Cia. da Obesidade, mais o PIM teatro, de Évora, Portugal, orgulhosamente apresentam o projeto Migrações…"

É o seguinte: após as duas viagens que a Cia. da Obesidade fez a Portugal, e depois de muito conversarmos com brasileiros que lá vivem e portugueses que vivem ou viveram no exterior, resolvemos bolar um projeto teatral falando sobre Migrações, em conjunto com nossos irmãos de Évora, o PIM Teatro.

Desejos e necessidades de mudanças. O movimento da mudança. Suas consequências. Os preconceitos. As conquistas. Os ruídos de comunicação - e a contribuição desses ruídos. A vontade de conhecer, devorar, acariciar, trocar experiências com outro. As dificuldades de vida nos países (a) periféricos, (b) do terceiro mundo, (c) emergentes, (d) fudidos. O medo de ambos os lados. A busca de refúgio. A raiva. O desejo puro e simples. O amor. As interações. As dificuldades de vida em todos os cantos…

Afinal, esse mundo é global ou só vale pra grana?

Resolvemos focar nossos esforços nas relações do universo lusófono. Em especial, Brasil e Portugal, mas sem fechar olhos para a grande mãe África e para a Ásia. Agora, estamos em fase de incubação. De absorver informações, associá-las e organizá-las em material de trabalho.

Isso explica os últimos textos desse meu blog, focados nessas questões - ou em alguns de seus raios. Mais textos sobre o assunto virão. E, nesse ponto, o blog de Celso Cruz, dramaturgo da Cia. da Obesidade, também vira grupo de discussão, evidentemente. Deixe sua história, opinião, idéia. Troque com a gente.

Evidentemente que o Blog jamais ficará restrito a apenas uma questão. O que passar pelo meu coração vem pra esfera virtual.

Mas esta introdução é necessária porque ilumina as mais recentes tramóias textuais - e talvez possa torná-las um pouco mais saborosas.

Agradeço ainda aos queridos do PIM, em especial João e Alexandra, minha parceirona nessa empreitada.

Ah… Vamos fazer um espetáculo, meio aqui, meio lá, meio aliche, meio mussarela. E vamos conversar com todo mundo.

Beijos,

Celso

 

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criado por ciadaobesidade    13:29 — Arquivado em: Sem categoria

MIGRAÇÕES 1.2

Trama

O pai dela nasceu em São Paulo, filho de imigrantes da Calábria. Os pais dele vieram da Itália com algumas economias e aqui prosperaram vendendo alho e cebola nas feiras livres.

A mãe dela nasceu na Calábria. Chegou em São Paulo aos 11 anos, com duas irmãs mais novas e pais sem tostão no bolso. Aqui continuaram do mesmo jeito.

O pai e a mãe dela se conheceram por acaso no Bixiga e tanto uma como outra família não aceitaram o romance. Ela era pobre. Ele ameaçou suicídio. Acabaram casando.

A nova família foi morar numa casa alugada pela mãe do noivo – que passaria a vida jogando na cara da nora cada centavo de ajuda. Lá criaram, além dela, mais 3 filhos.

Um casou com outra filha de italianos. Outro também. Uma jamais se casou – ou casou com Deus, como dizia uma das cunhadas. Ela casou com um paulistano, filho de campineiro, casado com bauruense, de famílias que, um dia, vieram de Portugal e da Espanha (talvez fossem cristãos novos, talvez não). No começo essa união não foi bem vista (talvez não seja até hoje).

Dessas uniões nasceram 9 filhos, que agora já têm outros 5. Os 2 filhos dela geraram 3 dessas crianças. Uma delas portuguesinha da gema, nascida na terrinha, de mãe também portuguesa, filha de pais portugueses, filhos não sei de quem. Sei lá se de celtas, ou de romanos.

No último caso vieram todos da bota, se bem que a atual Itália, em tempos muito distantes, acho que foi invadida por mouros, genérico aplicado para muçulmanos, sarracenos e africanos em geral, como observamos em Shakespeare ou em Tarantino.

Então são todos pretos e pronto.

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