2.9.07
Três Momentos
A praça é nossa
Domigo é dia das crianças. Pais e filhos brincam na praça. Balança mais forte, pai, balança mais alto! Quero ir no gira-gira. Bem forte, pai, que nem o Power Ranger. Que nem o Hulk. Moleque de fralda bambeia primeiros passinhos. Pega-Pega na grama. Trepa-trepa. Um futebol improvisado. Montinhos de areia. Farra no esgorredador. Sol malemolente. Carrinhos de bebês. Um pai tenta ler o calhamaço do Estadão de Domingo. Um vento bagunça tudo. Pega o caderno de imóveis e transforma num chapéu de pirata, num aviãozinho. Mães de óculos escuros depois da enésima noite feliz e mal dormida. Quantas vezes ela acordou nessa noite? Mamou tudo isso? O almoço hoje é na vovó. Qual vovó? A Glória ou a Lair? A vovó Lair mora longe, bem longe. Uma criança cai e esfola o joelho. Colo de pai, lava com água da torneira, naquele canto, depois dá um beijo que sara, tá sarando, sarou. Sarou. Num canto distante uns moleques fumam um back. Num outro canto neguinho zanza com um pitbull. Merda de cachorro é mato. Cacos de garrafa de vinho barato também. Às vezes a área das crianças é cercada. Às vezes a área dos cachorros é que é. Quando não é a praça toda. Cachorrinhos, cachorros, cachorrões. Simpáticos, babões, nervosos. Às vezes medo. Às vezes brincadeira. Passa um polícia. Água de coco. Pipoca. Bicicletas. Hoje o filho vai deixar de lado as rodinhas. Vai se lançar em vôo solo, ele e a máquina, o equilíbrio perfeito – alcançado após trocentos tombos e raladas. E olha esse sorriso. É pra vida inteira. Pra guardar pra sempre. Domingo é dia dos pais.
Semana
Aquele tem emprego. Aquele não tem. Aquela tá rica. Aquele não tem um puto. Aquela ganhou herança. Outra dá pro gasto. Um faz poupança. Outro aplica na bolsa. Aquele vai de Mega-Sena. Aquela nem bolsa tem. Esse pensa no futuro. Essa vive no passado. Ela é aqui e agora. Outro anda meio ausente. Aquele não tá nem aí. Aquele é pau pra toda obra. Ele quer mais qualidade. Aquela não aguenta mais. Essa pensa à vista. Aquele, no cartão. Aquele pensa na família. Este pensa que pensa. Aquele nem pensa mais. Como numa ciranda, daquelas bem ensaiadas, todos trocam de papel e lá vamos nós, pra mais um giro da roda.
Mora
meu amor mora aqui
onde seu amor mora
ora para algum deus
pela graça do agora
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criado por ciadaobesidade
12:44 — Arquivado em: 
SEMANA QUE VEM ESTREAMOS NO SATYROS