O OUTRO DOMINGO
Ontem recebi um e-mail de uma amiga. Ela mora em outro país há anos. A última vez que nos vimos foi pouco depois que meu primeiro filho nasceu. Trocamos nem meia dúzia de mensagens desde então. Às vezes, como ontem, ela avisa que vai realizar concerto em São Paulo. Ou eu convido para peça que acontecerá em algum lugar do mundo. Comunicação brevíssima e enviesada, mensagem lançada na garrafa, mas o carinho está lá. Carinho nascido e delinedo em período delicioso da vida, quando estudávamos juntos na faculdade. Lembro até hoje da primeira vez que vi a quase loirinha cacheada zanzando pros lados do Bloco C da ECA, ainda em nosso teste de admissão. Depois, já no curso, ela sempre vinha de bicicleta pra escola – e sempre chegava atrasada, esbaforida, nervosinha. Sempre linda. Começamos como grandes colegas, estudando e realizando trabalhos juntos. Viramos grandes amigos e derramamos esse afeto nas peças que, naquele período, realizamos. A gente brigava, a gente atuava, a gente se curtia e se divertia – evidentemente com mais um bando de aloprados como nós! Depois, ela passou a se dedicar com exclusividade à música, área em que, nos tempos de graduação em cênicas, já arrasava. Um dia me deu presente inesquecível: partitura de Satie, arranjo escrito só pra mim. Pois é: quando leio um desses e-mails curtos e grossos, alguns deles copiados para outros amigos e amigas ou mesmo para desconhecidos, todo esse filme passa na minha cabeça e o coração se agita. A última mensagem, entretanto, gerou uma deliciosa corrente. Outra grande amiga nossa do período aproveitou para convidar para seus espetáculos teatrais, propondo, sutilmente, um encontro da turma na semana que vem. Não sei se vou. Não sei se alguém vai. A verdade é que lá se vão muitos anos. Leio os nomes copiados no e-mail e sei que grande parte daquelas pessoas se amava muito e, bem, como dizia Safo – e a nossa história também confirma- , o amor queima. Amo algumas dessas cicatrizes, mas agora estou abarrotado de cabelos brancos, entrei faz algum tempo nos quarenta e, muitas vezes, engano a mim mesmo dizendo que sou um quase respeitável senhor. Meus exames cardíacos vão bem, mas e se o coração sair pela boca? E se agora tudo acontecer de modo protocolar, gelado? E se eu virei uma pedra de gelo? Além disso, faz tempo que não compro roupas transadas, não uso mais o brinco e nem muito menos o batom que, algumas vezes, botava pra provocar. Havia naquele grupo muita paixão – e muita paixão cruzada – e na minha estupidez fico imaginando que a gente podia fazer teatro junto de novo… Eu sempre metido a controlador, organizando e envolvendo todo mundo! Do alto da meia idade que se instala reconheço que sofremos todos com isso. Mas também amamos demais e nos dedicamos com fúria, sangue, atos e imenso desejo à arte que, um dia, resolvemos abraçar! Tempos de Sala Preta da ECA, de Aquário, de passeios pelos jardins da USP, de aulas de maravilhosos mestres que infelizmente já partiram e de outros grandes guerreiros que ainda guiam meus caminhos. Tempo de assistir Ham-Let de mãos dadas com aquele grande amor. Tempo de Brecht, Ibsen, Millôr, Williams, Nelson… De uma candura quase adolescente e de um utopismo tão londe da moda que ainda me comove. Hoje, algumas vezes, quando entro em uma sala de aula e um grupo de jovens alunos apresenta algum bom trabalho, relampeja em minha cabeça um flash daquela energia, daquela dedicação, daquele tesão. Isso me dá esperança. Sei que a minha turma está por aí, no mundo, e que basta um sinal quase imperceptível para imantar as almas, como se fôssemos a Liga da Justiça, chamada para enfrentar alguma grande catástrofe universal. Esses meus e minhas colegas, quase todos bem mais novos do que eu, que entrei na faculdade com provectos 25 anos, hoje estão lá pelo meio dos trinta. Casaram ou não. Descasaram ou não. Tiveram filhos ou não. Abandonaram o teatro o não. Voltaram ou não. Jamais abandonaram ou vivem abandonando. Ampliaram amizades e família. Mudaram de estilo, de cabelos, de gostos. Mas cada um de vocês que eu beijei e amei, cada um de vocês com quem partilhei o palco – o mais sagrado e o mais profano dos espaços e dos tempos – aquece agora minha memória. É um jeito de ser imensamente feliz. Quem sabe a gente se vê no outro domingo.
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