Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

30.9.07

Espelho Meu

 

Espelho meu

A mandinga dos dias
A falta de sono
O cobertor curto
A corrida atrás da grana
A explosão da largada
A luta pela ponta
Aquele amor incurável
Cada orgasmo
Cada poema
A falta de cremes
De uma boa cirurgia
O trago a mais
O sal o açúcar
O arado da palavra
O vagar ao léu
A falha da memória
Aquele cigarro
O erro do projeto
A bola na caçapa
O capeta no ombro
A jura impossível
Dentes sem aparelho
Letras miúdas
E olhos puídos

 

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28.9.07

Gordas e Comendo Ovos

 

  E NÃO SE ESQUEÇAM ESTAMOS NO SATYROS ATÉ 31 DE OUTUBRO

                   TERÇAS /SÓ AS GORDAS SÃO FELIZES/ÀS 19:30

                             QUARTAS/COMENDO OVOS /ÀS 19:30 

                     

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22.9.07

O outro domingo

 

O OUTRO DOMINGO

Ontem recebi um e-mail de uma amiga. Ela mora em outro país há anos. A última vez que nos vimos foi pouco depois que meu primeiro filho nasceu. Trocamos nem meia dúzia de mensagens desde então. Às vezes, como ontem, ela avisa que vai realizar concerto em São Paulo. Ou eu convido para peça que acontecerá em algum lugar do mundo. Comunicação brevíssima e enviesada, mensagem lançada na garrafa, mas o carinho está lá. Carinho nascido e delinedo em período delicioso da vida, quando estudávamos juntos na faculdade. Lembro até hoje da primeira vez que vi a quase loirinha cacheada zanzando pros lados do Bloco C da ECA, ainda em nosso teste de admissão. Depois, já no curso, ela sempre vinha de bicicleta pra escola – e sempre chegava atrasada, esbaforida, nervosinha. Sempre linda. Começamos como grandes colegas, estudando e realizando trabalhos juntos. Viramos grandes amigos e derramamos esse afeto nas peças que, naquele período, realizamos. A gente brigava, a gente atuava, a gente se curtia e se divertia – evidentemente com mais um bando de aloprados como nós! Depois, ela passou a se dedicar com exclusividade à música, área em que, nos tempos de graduação em cênicas, já arrasava. Um dia me deu presente inesquecível: partitura de Satie, arranjo escrito só pra mim. Pois é: quando leio um desses e-mails curtos e grossos, alguns deles copiados para outros amigos e amigas ou mesmo para desconhecidos, todo esse filme passa na minha cabeça e o coração se agita. A última mensagem, entretanto, gerou uma deliciosa corrente. Outra grande amiga nossa do período aproveitou para convidar para seus espetáculos teatrais, propondo, sutilmente, um encontro da turma na semana que vem. Não sei se vou. Não sei se alguém vai. A verdade é que lá se vão muitos anos. Leio os nomes copiados no e-mail e sei que grande parte daquelas pessoas se amava muito e, bem, como dizia Safo – e a nossa história também confirma- , o amor queima. Amo algumas dessas cicatrizes, mas agora estou abarrotado de cabelos brancos, entrei faz algum tempo nos quarenta e, muitas vezes, engano a mim mesmo dizendo que sou um quase respeitável senhor. Meus exames cardíacos vão bem, mas e se o coração sair pela boca? E se agora tudo acontecer de modo protocolar, gelado? E se eu virei uma pedra de gelo? Além disso, faz tempo que não compro roupas transadas, não uso mais o brinco e nem muito menos o batom que, algumas vezes, botava pra provocar. Havia naquele grupo muita paixão – e muita paixão cruzada – e na minha estupidez fico imaginando que a gente podia fazer teatro junto de novo… Eu sempre metido a controlador, organizando e envolvendo todo mundo! Do alto da meia idade que se instala reconheço que sofremos todos com isso. Mas também amamos demais e nos dedicamos com fúria, sangue, atos e imenso desejo à arte que, um dia, resolvemos abraçar! Tempos de Sala Preta da ECA, de Aquário, de passeios pelos jardins da USP, de aulas de maravilhosos mestres que infelizmente já partiram e de outros grandes guerreiros que ainda guiam meus caminhos. Tempo de assistir Ham-Let de mãos dadas com aquele grande amor. Tempo de Brecht, Ibsen, Millôr, Williams, Nelson… De uma candura quase adolescente e de um utopismo tão londe da moda que ainda me comove. Hoje, algumas vezes, quando entro em uma sala de aula e um grupo de jovens alunos apresenta algum bom trabalho, relampeja em minha cabeça um flash daquela energia, daquela dedicação, daquele tesão. Isso me dá esperança. Sei que a minha turma está por aí, no mundo, e que basta um sinal quase imperceptível para imantar as almas, como se fôssemos a Liga da Justiça, chamada para enfrentar alguma grande catástrofe universal. Esses meus e minhas colegas, quase todos bem mais novos do que eu, que entrei na faculdade com provectos 25 anos, hoje estão lá pelo meio dos trinta. Casaram ou não. Descasaram ou não. Tiveram filhos ou não. Abandonaram o teatro o não. Voltaram ou não. Jamais abandonaram ou vivem abandonando. Ampliaram amizades e família. Mudaram de estilo, de cabelos, de gostos. Mas cada um de vocês que eu beijei e amei, cada um de vocês com quem partilhei o palco – o mais sagrado e o mais profano dos espaços e dos tempos – aquece agora minha memória. É um jeito de ser imensamente feliz. Quem sabe a gente se vê no outro domingo.

                      

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21.9.07

Invasão do logo da cia

 

Nosso logo invade a página de celso cruz,para dizer olá,quem quizer saber um pouco mais sobre o espetáculo já temos os programas lá no blog das gordas

                    

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14.9.07

Uma pequenina comemoração

  Menos de um mês e já temos  228  visitas ,obrigado!

                           

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Guerra!!!!!!

Vamos à Guerra !

Esse negócio de escrever em Blog é novidade pra mim, como até já comentei outro dia. Dá uma sensação de conversar ao mesmo tempo com todo mundo e com ninguém. Você escreve e cai, literalmente, na rede. As respostas minguadas dão a nítida impressão de garrafa solta no mar (no infomar, como cantou o Gil). Vem a nóia: será que alguém entra aqui?

Ontem, o Guilherme, meu Webmaster (digamos assim), me mandou e-mail dizendo que 228 pessoas já passaram por estas plagas. E comemorou. Também achei bacana mas, gentilmente, solicito a essa pequena horda de visitantes que deixe recado, uma opinião, uma idéia. Daí podem surgir novos textos, novas idéias e diálogos.

Tenho a impressão que o melhor do Blog “literário” é mesmo o diálogo (imagina então pra um cara como eu, dramaturgo, ou seja, sujeito que vive de escrever diálogos…).

Bom, agora meu caçulinha sorrateiramente se aninha no meu colo e quer futucar no computador. Quer também que eu faça uma “guerra”: uma disputa entre os bonecos do bem e os do mau, lá no chão do quarto. De um lado, power rangers, batmans, super-homens, diamantes, homem de ferro, wolverine, hulk… Do outro, frankenstein, drácula, homem invisível, aranhas mil, dinossauros de todos os tamanhos e monstros em geral (“e aquele que solta meleca!”, completa meu filho).

Vamos à guerra!

Mais uma delas.

Abraços,

Celso

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8.9.07

Estréia

Estréia

 

Teatro é tribo de vadios e desvalidos. Que me perdoem os bem intencionados e os marketeiros de plantão, mas teatro é, sim, e sempre será, coisa de viados, devassos e putas, coisa de miseráveis, loucos e idiotas, coisa de obsessivos, irrecuperáveis, sanguessugas. Coisa de comerciantes sem moral e moralistas sem grana. Cada estréia é uma festa que homenageia nossa trempa de trânsfugas. Nossos Brancaleones. Nossa Cruzada de Crianças. Agora na próxima terça começa mais uma temporada da Cia. da Obesidade em São Paulo. Só As Gordas São Felizes volta com tudo. Virgem again, depois de 3 anos vagando pelos palcos do mundão. Fizemos sessões em porões, para duas ou três pessoas, e em circos, para seiscentas. Num antigo teatro reformado numa ilhota do Atlântico a numa suíte de Lisboa. Para uma platéia de médicos e estudantes numa prestigiosa universidade latina. Para críticos, poetas, amantes e viciados. Tem gente que amou. Tem gente que achou mais ou menos. Uns odiaram. A gente colaborou, com brancos homéricos, falhas técnicas, paus internos. E o milk shake de tudo isso você vai poder conferir a partir de terça, 19h30, nos Satyros. Vem, vem, vem dar uma espiadinha no nosso encontro de malditos numa cela para criminosos muito especiais. Aí, aproveite e apareça também na quarta, pra estréia de Comendo Ovos. Aí é estréia mesmo, no duro. Estréia em São Paulo. Pois já passamos com a peça por Curitiba (no Fringe do Festival) e por 3 cidades portuguesas. Olha, essa nossa estréia foi muito batalhada. Os Satyros deram espaço, conforto e amizade. Então, a partir da quarta, a gente vai poder mostrar nossa deslavada história de amor, amor a todo custo, de todo jeito. Ao som de Aragão & Vercilo & Fábio Cardia. O Guilherme Freitas e o Dill Magno estão arrasando. Dá pra dar risada e pra enxugar uma ou outra lágrima. Nem preciso dizer o quanto a gente está feliz. O quanto é bom estar em cena. Porra, é pra isso que a gente fica meses, anos, ensaiando nas igrejas da vida. Essa é a nossa. Tomara que seja a sua também. Estréias dão uma puta ansiedade, tesão, adrenalina, taquicardia. Estréias são transas muito suadas. Pra gente gozar duma maneira bem escancarada e cachorra. Enfim, esperamos você. Até já!

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Agradecimento

                 

E FICA AQUI O NOSSO AGRADECIMENTO ,A QUEM SEMPRE NOS APOIOU

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Chegamos a São Paulo Ufa!

ESTREAMOS NA QUARTA E TRAZEMOS JUNTO A NOSSA COMPANHEIRA

 

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2.9.07

Três Momentos

A praça é nossa

Domigo é dia das crianças. Pais e filhos brincam na praça. Balança mais forte, pai, balança mais alto! Quero ir no gira-gira. Bem forte, pai, que nem o Power Ranger. Que nem o Hulk. Moleque de fralda bambeia primeiros passinhos. Pega-Pega na grama. Trepa-trepa. Um futebol improvisado. Montinhos de areia. Farra no esgorredador. Sol malemolente. Carrinhos de bebês. Um pai tenta ler o calhamaço do Estadão de Domingo. Um vento bagunça tudo. Pega o caderno de imóveis e transforma num chapéu de pirata, num aviãozinho. Mães de óculos escuros depois da enésima noite feliz e mal dormida. Quantas vezes ela acordou nessa noite? Mamou tudo isso? O almoço hoje é na vovó. Qual vovó? A Glória ou a Lair? A vovó Lair mora longe, bem longe. Uma criança cai e esfola o joelho. Colo de pai, lava com água da torneira, naquele canto, depois dá um beijo que sara, tá sarando, sarou. Sarou. Num canto distante uns moleques fumam um back. Num outro canto neguinho zanza com um pitbull. Merda de cachorro é mato. Cacos de garrafa de vinho barato também. Às vezes a área das crianças é cercada. Às vezes a área dos cachorros é que é. Quando não é a praça toda. Cachorrinhos, cachorros, cachorrões. Simpáticos, babões, nervosos. Às vezes medo. Às vezes brincadeira. Passa um polícia. Água de coco. Pipoca. Bicicletas. Hoje o filho vai deixar de lado as rodinhas. Vai se lançar em vôo solo, ele e a máquina, o equilíbrio perfeito – alcançado após trocentos tombos e raladas. E olha esse sorriso. É pra vida inteira. Pra guardar pra sempre. Domingo é dia dos pais.

Semana

Aquele tem emprego. Aquele não tem. Aquela tá rica. Aquele não tem um puto. Aquela ganhou herança. Outra dá pro gasto. Um faz poupança. Outro aplica na bolsa. Aquele vai de Mega-Sena. Aquela nem bolsa tem. Esse pensa no futuro. Essa vive no passado. Ela é aqui e agora. Outro anda meio ausente. Aquele não tá nem aí. Aquele é pau pra toda obra. Ele quer mais qualidade. Aquela não aguenta mais. Essa pensa à vista. Aquele, no cartão. Aquele pensa na família. Este pensa que pensa. Aquele nem pensa mais. Como numa ciranda, daquelas bem ensaiadas, todos trocam de papel e lá vamos nós, pra mais um giro da roda.

Mora

meu amor mora aqui
onde seu amor mora
ora para algum deus
pela graça do agora

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