21.8.07
Bem Vindos!
A partir de hoje, a Cia. da Obesidade terá o prazer de publicar periodicamente crônicas de nosso querido Celso Cruz.
Boa leitura.
A partir de hoje, a Cia. da Obesidade terá o prazer de publicar periodicamente crônicas de nosso querido Celso Cruz.
Boa leitura.
Para engolir a tragédia de hoje a gente esquece a tragédia de ontem. Ontem apareceu uma pequena cratera na Rua Pinheiros, fruto das obras do Metrô. Lembrei da grande cratera de meses atrás, que levou vidas embora. Já tinha me esquecido dela. Estava plugado na tragédia do vôo da TAM. Nem me lembrava da tragédia do vôo da Gol. Nem lembrava. Aliás, parece que ninguém lembra direito daquela outra tragédia, também da TAM, de 10 anos atrás, pelo menos não lembra o suficiente pra pagar de vez as indenizações, que ainda estão na Justiça, que além de cega, também não anda bem da memória. Eu, de minha parte, já nem me lembrava do casal assassinado na rua, no Morumbi, tem uns dois meses, na frente do filho, num assalto banal. Muito menos dos ataques do PCC, no ano passado. Nem da Guerra no Rio, nesse ano. Você se lembra do Marcinho VP? Não, não esse traficante que foi condenado a não lembro quantos anos de cadeia porque acho que esquartejou um sujeito, mas aquele outro traficante que foi assassinado na cadeia há não lembro quantos anos, poucos, como queima de arquivo. Eu não pensava nesses caras. Se não me engano acho que eu pensava no Renan Calheiros – no Renan presidente do senado, dono de bois, rádios e com amigos de empreiteiras que gentilmente pagam contas dele, e não no Renan amigo do Collor, de quem eu nem me lembrava. Como não lembrava do mensalão, tinha esquecido do Marcos Valério, que hoje me aparece nos jornais com cabelo, e que esqueceu aquele negócio de publicidade e agora lida com gado, assim como o Renan. Também não lembrava do Dirceu – do Dirceu ministro, e não do Dirceu deputado, muito menos do Dirceu líder estudantil ou militante lá da época da Ditadura, o Dirceu da troca pelo embaixador seqüestrado, se é que ainda me lembro um pouco, um pouquinho que seja, das lutas, dos ideais, do que se sonhou para o Brasil, à esquerda e à direita – aliás, você se lembra do tempo em que a gente usava as palavras esquerda e direita? Quer saber… Eu mal me lembrava de como fui mal tratado num vôo da BRA pra Lisboa no mês passado… Num não, em dois, o daqui pra lá e o de lá pra cá, e lembrava menos ainda de como foram tratados milhares de passageiros no fim do ano nos aeroportos brasileiros, não só pela BRA, ou como são tratados os passageiros nos aeroportos brasileiros, de como estão sendo tratados agora. Aliás você se lembra o que quer dizer BRA? Alguma coisa a ver com BRAsil? Mas do Brasil pouca gente mundo afora se lembra… Melhor do que lembrar do Brasil e pensar na BRA, não há imagem ou marca que resista. Quer saber: eu nem me lembrava das entrevistas do ex-presidente da Infraero sobre o saco de gatos da nossa aviação, isso eu acho que anteontem. Ele sugeriu que existe corrupção? Quem? Onde mesmo? Eu nem lembrava que o Lula um dia foi torneiro mecânico, um dia foi líder operário, um dia foi preso pela Ditadura, mas essas coisas, repressão política e coisa e tal, essas coisas estão aí pra ser esquecidas, tem até Lei que dá nisso, deixa pra lá… Mas olha que, se não me engano, acho que vi o Lula no comício das Diretas na Sé, juntos com outros sujeitos que esquecem até o que um dia escreveram… Se não me engano acho que votei no Lula – e nesses outros sujeitos - várias vezes… Acho que um dia (você se lembra?) o Collor foi baixo demais num debate pra presidência, debate que, se lembro bem, teve uma edição bem suspeita e deu numa derrota do Lula, uma delas, não lembro quantas foram, acho que nem o Lula lembra mais, evidentemente. Se bem que políticos, como os elefantes, nunca esquecem, mas, vai ver, fingem que esquecem - ou vai ver fingem que lembram, ou esquecem mesmo, sei lá. Você lembra o que era o PT? Lembra daquela turma de paladinos? Quantas vezes eles falaram e lutaram contra tantas coisas e pessoas? Uns se calaram? Outros levaram calaboca? E eu fico tão confuso que até esqueço coisas que um dia eu cantarolei, tipo “esquece nosso amor, vê se esquece…”, uma música pra lá de linda, um negócio do outro mundo, dum sujeito que se eu lembro bem se chamava Cartola. Acontece? Acontece que eu acho que falava dessas coisas com o Dill, da Cia. Da Obesidade, seis e meia da tarde, meu carro parado na passagem da Dr. Arnaldo pra Paulista (você lembra que, semana passada, mesma hora, tinha greve do metrô?), e um sujeito apareceu do nada e assaltou um carro um pouco à frente do nosso, com um berro na mão ou alguma coisa que parecia um berro, não lembro bem, a coisa toda aconteceu e ficamos paralisados, a conversa miou, depois o trânsito andou, e a gente, todo mundo nos outros carros, todos nós esquecemos. Esquecemos. Para dar lugar à tragédia de amanhã. Somos esquecidos. Seremos. Já fomos.
Celso Cruz