27.8.07
Vadiagem Da Palavra
A idéia deste espaço é trocar idéias. Para provocar o seu “pong”, preciso, portanto, calibrar o “ping”. Confesso que tenho minhas dificuldades. Preciso pegar ritmo. E aí corro o perigo de cair na síndrome do jogador que o time contrata e, ao invés de jogar pra valer, vai entrando aos poucos, no fim dos jogos, bem devagar, sem muito compromisso… E, se bobear, num bela dia cai o treinador, a equipe é reformulada, o nosso jogador vai pegar ritmo em outra freguesia! Por sorte, tenho um treinador pentelho, o Guilherme Freitas, que fica me combrando o texto de tudo que é jeito. Então, não tem jeito, mãos à obra!
Escrever todo dia, ou toda semana, ou a cada quinzena, uma vez por mês, não importa. Palavra e tempo passam a ter hora marcada pro conflito. O que não deixa de ser uma definição, mesmo que picareta, de “crônica” – aquilo que, graças ao nome de batismo que o Guilherme deu pra esse espaço, virou seu objetivo: elaborar crônicas.
Cresci lendo crônicas. Minha geração, no antigo ginásio, lia uns livrinhos da Editora Ática, da coleção Para Gostar de Ler. Maravilhosos pelo conteúdo e pelo design inigualável, os livrinhos iluminavam nossas manhãs de estudos no Pequenópolis (a finada e mitológica escola onde passei a maior parte de meu tempo de estudos e que, espero, merecerá muitas linhas no futuro!), com textos de Fernando Sabino, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Carlos Drumond de Andrade. Crônicas, muitas crônicas. Em vários volumes (aliás, lá pro volume 4 ou 5 mudaram os autores, manteve-se a magia).
Era maravilhoso ler aqueles craques e partir dali para outras obras dos autores que, vivíssimos da silva (que saudade!), lançavam a toda hora volumes com mais textos poéticos, precisos, doces. Textos sensuais. O cotidiano em iluminações repetinas.
Aliás, a maior parte desses volumes reunia o material que essa gente publicava na imprensa. Portanto, dos livrinhos que a escola obrigava a gente a ler, partíamos não só para outros livros mas, principalmente, para os jornais e as revistas que, naquele tempo, reservavam espaço nobre para os cronistas. Realmente, a série fazia justiça ao nome: para gostar de ler!
Aquela bela turma de escritores já partiu. Os jornais e revistas mudaram com o mundo. O espaço nas grandes publicações é disputado a tapa. Hoje temos articulistas, comentaristas, críticos… Os cronistas são classificados por gênero: esportivos, políticos, econômicos… Tudo é muito especializado e objetivo. Falta um pouco daquela deambulação, daquela vagabundagem do olhar, dos afetos e da linguagem que levavam um Drumond a cruzar meninas impossíveis nas padarias e esquinas do Rio.
Felizmente surgiram os blogs e semelhantes, lugar pra essa vadiagem da palavra.
Ando lendo muita coisa sobre Walter Benjamin e Bertolt Brecht, pra peça que a Cia. começa a montar. Estamos felizes, pois ganhamos um prêmio do Centro de Cultura Judaica para montar o nosso Anjo da História, sobre o encontro dos dois notáveis autores durante os anos de exílio.
Principalmente a leitura sobre Benjamin faz a gente pensar muito no tempo e, em especial, nas relações entre passado, presente e futuro. Em como a revisão obsessiva e incontornável das ruínas do passado é tarefa do presente e pode ajudar na construção do futuro. Ou em como o fascínio pelo passado pode paralisar a gente numa esquina pra lá de dramática, para não dizer trágica.
Voltarei ao tema no futuro. Como degustação, segue o texto que planejo usar na abertura da peça, situando a platéia no nosso Cabaré das Iluminações Profanas.
Enfim, aguardo o seu pong!
“ ATOR: Boa noite, senhoras e senhores. Em nossos tempos cintilantes não cultivamos a memória de humano algum. Toda madrugada as prateleiras são limpas e novas estrelas testam brilho fugaz no firmamento. As coisas passam, assim como as pessoas, se é que há muito pessoas não são coisas e já não as difira coisa alguma. Mas é fato que um dia – e nem faz tanto tempo assim – andou por esta Terra, trocando de países mais vezes do que de sapatos, um poeta que atendia pelo nome de Brecht. Bertolt ou Bertold Brecht. Bert para os íntimos, se é que um dia, em algum lugar, para alguém, os houve. Bertolt Brecht escrevia versos e peças. Combateu uma terrível tirania e aderiu a outra. Viu amigos, conhecidos e familiares sucumbirem ou, simplesmente, serem assassinados em diversos campos de batalhas, em pelo menos duas grandes guerras. Durante muito tempo, e apesar de si mesmo, Bert Brecht foi considerado um dos grandes. Talvez o maior. Mas todos já sabemos que em nossos tempos cintilantes não cultivamos a memória, muito menos a memória de poetas, dramaturgos ou covardes de qualquer tamanho. O que dizer então dos suicidas, esses que por vontade própria arrancam de si a chama da existência? Melhor esquecê-los. Esquecê-los ontem, hoje, o quanto antes. Nada de lembrar da vizinha que se jogou pela janela do décimo oitavo andar, nem da poeta e dramaturga que se enforcou, se é que foi assim mesmo que ela partiu, e muito menos de um certo escritor, que alguns dizem filósofo, outro crítico, alguns o maior crítico literário alemão, um tal de Walter Benjamin. Aquele que colecionava livros, gastando o que tinha e o que não tinha. E que também colecionava citações, em letras pequeninas em cadernos idem. Aquele que carregava um corcundinha nos ombros. O azarado. O fracassado. O loser. Desse modo, temos absoluta certeza de que ninguém se lembra de que Benjamin e Brecht foram amigos e companheiros de lutas. Que ambos partiram para o exílio logo após a tomada do poder na Alemanha por Adolf Hitler que, convenhamos, sei que a maioria de nós também já fez questão de esquecer. Para a minoria existem sempre os calmantes poderosos.
Nossa história, sinto informar, é, infelizmente, sobre o encontro desses dois escritores, Benjamin e Brecht, evento ocorrido na Dinamarca, no verão de 1934. Durante alguns meses – e isso não faz a menor diferença – ambos conversaram sobre coisas triviais como charutos, xadrez e teatro, nazistas, comunistas e amores, o passado, o presente e o futuro, peças, poemas e um ensaio sobre Kafka – e aí peço desculpas, pois sei que a essa altura seria exigir mesmo demais que a ilustre platéia também já não tivesse esquecido do judeu tcheco que em alemão esculpiu parábolas que, um dia, muitos consideraram inesquecíveis. Nossa peça é sobre esse encontro, sobre detalhes que muita gente esqueceu ou que nem poderia lembrar, pois jamais existiram, e que surgem aqui como flores exóticas inventadas pela filha da puta da memória.
Por favor, divirtam-se. E, depois, como de hábito, tentem esquecer.”
Celso Cruz


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