Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

2.5.09

Prometeu

 

Foram os implantes, peças ucranianas conseguidas no mercado negro. Foram os novos blends de anfetaminas, conduzidos por nanobots até o âmago dos nervos e das glândulas. Foram as cirurgias reparadoras, os enxertos de carne e gordura, as placas de epiderme, os pinos de titânio. Foram os softwares neurais, com memórias frescas de um nipo-universo sonhado por um romancista bêbado de século longínquo. Foram os anti-virais roubados dos labs de Berlim. Foram as próteses de carbono e a linfa sintética. Todos eles. Aplicados por uma multidão de docs indiferentes sob as ordens de uma AI desencanada, interagindo com um bios de forma randômica. E eis-me aqui, de volta.

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24.3.09

Silêncio

Um fio. Do meu umbigo. Até o teu umbigo. Do teu, até um outro. E desse outro, toda uma teia. Às vezes, é fibra ótica. Outras é gato, só gambiarra. Umas é novelo, desses de vó, que fazia gorros e malhas de lã que pinicavam e acabavam encostados no guarda-roupa. Outras é traço de lápis daquele estojo com 36 cores que você jamais teve nas mãos. Outras é baba, é mijo, é porra e outras secreções inomináveis. Às vezes grosso como a rabisqueira que você faz com a bic na caderneta enquanto telefona. Outras é tênue, um quase nada, vapor barato, desenho velho em cartolina que um dia encontra na casa da mãe. Também é lágrima e fantasia de lágrima sobre o traçado em que ela baila, grogue, pelas ruas de São Paulo. Enfim, me calo.

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17.2.09

Caixa

 

 

Assim você me obriga. Não é que eu queira. Pelo contrário. Dessa maneira, com os olhos e a boca arregaçados, os dedos, as mãos, nós que nem Houdini pra deslindar, braços grudados no tronco, pernas tesas, dedos dos pés  em alerta, um delicado tique esgarçando a bochecha direita, não vejo alternativa senão cravar, em pontos cuidadosamente escolhidos, as palavras que, um dia, recolhi do lençol, guardei nesta caixa e passei a chamar de minhas.  Olha só.

 

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30.1.09

cigarros&uísque&canções

Ela estendeu a mão direita com o cigarro aceso. Numa troca rápida, apresentou a esquerda com o copo de uísque. Pronto. Estava dada a resposta à pergunta matreira que seu filho lançara: “mãe, o que é que você faz pra estar tão bem assim?”.

Assim: desfiando a tarde leve e longamente, com voz rouca de arrepiar, lançando pérolas do cancioneiro, de Noel a Chico, um arco de sambas maravilhosos, acompanhada pelos amigos, violão e percussão, que as caixas acústicas lançavam pelos terraços do sítio.

As notas reverberavam nos caniços de bambu, ricocheteavam na superfície do rio, rodopiavam pela carcaça da velha ponte de metal, encantando os peixes que um pai e um filho aguardavam em vão, varas vazias, na margem, e subiam para todos os céus de Santa Branca.

O mundo acabava ali. Também começava. O mundo era uma ilha mapeada pela voz de Mirtes.

Difícil mesmo encontrar adjetivo para Mirtes. Elegante. Longilínea. Bela. Forte. Talentosa. Já disse o filósofo, aonde palavra não chega é melhor calar pra não se encalacrar. Mas quem é do ofício e vive desse vício deselegante teima e fica ali, ladeando a coisa.

Mirtes caminha para o microfone no fundo do caramanchão. É Mirtes quem está voltando? Não, é Isabela, sua filha. É Isabela quem vai? Pode ser Mirtes. E lá vem outra surra de palavras: jovens, leves, sinuosas…

É Isabela agora dançando no meio do salão com Jair, seu pai. O homem é pé de valsa e o sorriso que ele carrega na cara, a satisfação. Num canto, Mirtes admira.

Noutro, meu amigo, o filho da Mirtes, o dono da festa, o aniversariante, o Jairzinho, filho de seu Jair de dona Mirtes, está a menos de um passo do choro. Babar já nem consegue mais.

Os amigos (com um quê de corte, de fãs) espalham-se pelas cadeiras em variáveis níveis de êxtase e entusiasmo.

Os aniversários do Jair são antológicos como as canções da Mirtes. Clássicos de janeiro. As festas no sítio, que amadurece como as antigas árvores espalhadas pelo terreno, juntam uma liga respeitável em volta da piscina, do pebolim, das caipirinhas, do churrasco, do futebol, do vôlei e, sobretudo, de seu Jair e dona Mirtes.

Quando o violão lança os acordes de uma canção, Mirtes ergue o microfone e prepara o gesto, que vem sempre afiado, econômico, digno de diva de cabaré cinematográfico. A letra da canção vai se estendendo sobre a mesa, como confissão de amante, dessas de encerrar caso ou fechar conta pra começar tudo de novo.

A voz começa pequena, parece que vai ficar no sussurro, aí, de repente, sobe, encara um agudo, ou uma emoção mais descabelada, com elegância, comedimento e uma limpeza que, por misericórdia, apresenta suas bordas roucas que, então, derrotam qualquer resistência.

Sábado, entre uma e outra canção, Jairzinho completou 48 anos. Jair e Mirtes são casados há 50. Mirtes canta para Jair, olhos nos olhos, uma declaração de amor. Abraço de Jairzinho e Isabela. Ele, enfim, chora – ela fica ali, firmona.

A felicidade, sim, existe. Tem rosto e endereço. E, sim, tem o poder de alastrar, feito a voz de Mirtes que, hoje, sexta-feira, 30 de janeiro, seis dias depois do encontro que tento esboçar nesta tela, completa mais um ano de vida.

Começa nova canção.

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21.1.09

Cadernos - Última Parte - Pantera Negra

 

Querido paciente, para usar o seu simbolismo, posso afirmar que sempre fui extraordinária com mandalas e, em matéria de raios, sou uma verdadeira deusa da tempestade. Uma Ororo, disse eu, uma das heroínas dos X-men, codinome Tempestade. Digamos assim. A Ororo casou com o Pantera Negra, rei de Wakanda, reino que une o que há de mais arcaico e ancestral com tecnologia pra lá de avançada. Fica lá na África. Quer dizer, na África dos quadrinhos. Eu sempre fui uma deusa. Aí é que está o problema… Parece que pra ficar com uma deusa como qualquer uma de vocês a gente precisa ser um tipo de um Pantera Negra. Parece não: é, é mesmo – se você não for um Pantera Negra, jamais vai chegar no coração da tempestade. Como eu dizia, eu sou uma deusa e, como Panteras Negras sempre estão em falta e é fácil demais, sem querer ofender, topar com uns Adões meia-boca, eu estou, enfim, sozinha. Não, doutora, você não está. Doutora, minha deusa, eu sou o fiel da tua igreja, você não sabe como toda manhã e toda noite oro pra cruzar, se possível no sentido veterinário do termo, com alguém como você. Não, doutora, você jamais estará só pois toda a natureza festeja tua beleza. Mesmo você sendo loira, ainda que loira tingida. O homem precisa desistir de tentar entender a mulher. O homem precisa venerar a mulher. O homem tem o privilégio de amar a mulher como se deve, em cada detalhe, com fúria, paixão, volúpia – e com sossego – e com proteção – e com força. Mas, doutora, demora pra gente percerber isso, às vezes jamais a gente percebe, ou percebe tarde demais, graças a pistas cuidadosamente abandonadas pelo caminho. Eu não sei dizer se fui amada algum dia, embora tenha tido 30 amantes – confesso, esse é o número, exato – e um marido, um advogado, e apesar de advogado até que um bom marido, apesar de eu ser médica um bom marido. Qual sua especialidade, doutora, pois sei que além do PS você deve ter seu consultório, atender particular, fazer uma grana pra manter toda essa harmonia? Meu buraco é mais encima: ginecologista. Eu, que não sou especialista nessas coisas, embora já tenha caído de boca no assunto, garanto pra você que não há nada mais belo do que o sexo de uma mulher, a parte pelo todo – o todo nas partes. Doutora, eu também tenho consultório, doutora, sou psicólgo, psicólogo barato, doutora, talvez essa hemorróida seja de ficar tanto tempo sentado ouvindo a desgraça alheia com o cu na mão. Doutora, eu sou um analista junguiano, eu passei a vida estudando mandalas, pra um dia encontrar um tipo muito especial de mandalas nas agendas da minha esposa! Doutora, o Jung era um mulherengo muito do filho da puta. E você, como seu mentor, também não teve amantes? Mas não deixei traço em caderneta alguma! O típico sedutor! Doutora, será que um dia eu serei capaz de amar uma mulher, doutora, como já disse, eu acredito no amor e, se a doença pode ser mesmo uma metáfora, doutora, esse cu em brasa, doutora, o que retrata? Os homens entra e saem da nossa vida sem a menor cerimônia, geralmente após uma foda, seja ela das boas ou não. Os que permanecem não sabem muito bem porque ficaram lá, a não ser os românticos, os idealistas, os crentes e, pelo visto, os psicólogos junguianos – mas eu sou uma médica e você há de convir que médicos entendem muito pouco de psicologia. Doutora, nós já somos íntimos, você conhece certos ângulos meus que nem com anos de análise eu vislumbrei, acho, portanto, que nós temos futuro. Talvez. Uma amiga, se é que você me entende, quando era quase criança, ela passava mel na xoxota e dava pro cachorro lamber; uma amiga, na infância, se é que você me entende, um tio vinha e, enquanto ela assistia Silvio Santos, o tio vinha e se masturbava; uma amiga, uma amiga, na primeira transa, quando perdeu a virgindade com o namoradinho de anos, pegou um tremendo condiloma; uma amiga, se é que você me entende, sempre foi muito  resolvida, tinha ondas de amantes, cujos encontros registrava em garatujas quase místicas em carradas de cadernos; uma amiga namorava um cara maravilhoso mas que só engatava depois de dois tecos; uma amiga ficava com dois caras no mesmo dia; uma só teve um carinha na vida e casou com ele e nunca se queixou, enquanto outra ficou 20 anos nessa vida pra enfim largar tudo e, depois de meia dúzia de trepadas, fechar definitivamente pra balançao; uma amiga foi casada 50 anos e, mesmo muito doente, nunca deixou de ter seu homem do seu lado. Sei lá. Tudo isso não forma o menor sentido. Eu queria amar de uma maneira livre, como um Don Juan, como Casanova, como um hippie dos anos 60. Mas eu queria amar sem virar pedra, sem ficar broxa, sem estacionar no tempo. Eu estou aqui, doutora, abrindo minha alma como, agora pouco, você abriu a minha bunda! Depois que minha ex foi embora passei a comer e a beber demais e engordei um pouco e, cerejinha no bolo, agora me vem essa chaga no cu. Tudo isso, na melhor das hipóteses, com generosidade, forma uma estranha mandala suspensa no meio do abismo. Como um tapete mágico. Como uma pausa entre duas notas agudas. Como a expectativa do beijo. Como, segundos antes do gozo, como a vibração de um cu. Ou de dois. Dois suculentos cus na beira do gozo, enquanto pau e buça se engalfinham. Sem sombra de dúvidas, Deus é um grande gozador. O maior deles. Somos todos personagens dessa comédia erótica universal. A gente devia agradecer todo dia por isso? A gente devia gozar cada segundo com tesão, em brasa? Vida é amor à primeira vista. Essa é a derradeira confissão, rabiscada no miolo do caderno secreto de um ex-sedutor. Eu te amo. Eu te amo. Até o fim dessa e de todas as outras vidas e, principalmente, depois que acabar o seu plantão, você despir o jaleco e a gente levar transferência e contratransferência até os píncaros do absurdo. Amém.

 

FIM

 

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20.1.09

Parte 8 : Mandala

 

Depois peguei outro. Eram diários. Agendas. Lá ela anotou, dia-a-dia, sua vida dos 18 aos 40 anos. Eu comecei a tremer. Eu. Eu não conseguia deixar de lado a leitura. Eu. Logo corri pra época em que a gente se conheceu. Estava lá: “ontem o amigo da Laurinha me ligou.” O amigo da Laurinha era eu. Aliás, eu continuo amigo da Laurinha. Depois: “Café. Chapado. Ele me deu um bombom.” Sonho de Valsa. “Festa na casa da Laurinha.” Aí, um símbolo estranho, uma espécie de pequena mandala. Dois dias depois, nova saída de noite, mais uma mandala. Nas noites seguintes, meu nome e outras mandalas, agora com riscos, como raios, rasgando-as. Eu parei um segundo a leitura. Voltei várias páginas, quando a gente não se conhecia. “Jantar com Rogério.” Mandala. “Cinema com Otávio”, Mandala. Mandala. Mandala riscada. “Isaísas”Mandala riscada. Sandoval, riscada. Meu Deus! Então entrei eu, acho que literalmente, riscando e rabiscando tudo. E aquilo durou, modéstia a parte, durou anos. Intermináveis mandalas, quase todas riscadas. E veio casamento, vieram os filhos, as mudanças, as nossas mudanças… E as mandalas começaram a rarear, os raios passaram a ser pra lá de esparsos. Mandala, José. O quê? Li de novo. Mandala. José. Almoço com marido e filhos, escola, inglês, José, Mandala. Mandala riscada. Meu… Deus! Uma terça-feira, meu Deus, ela tinha inglês terça e quinta… E estava lá, de novo, almoço, escola, inglês, José, Mandala, Mandala, Mandala, todas riscadas. Riscadas! O traço da caneta, vê se me entende, o traço foi ficando mais grosso, como se ela fizesse e refizesse o desenho, várias vezes. Na outra terça, mandala com José, mais jantar em casa, o filme da glogo, mandala riscada! Eu, eu, eu comecei a chorar. Eu chorei muito. Eu. Derramei uma lágrima gorda sobre uma mandala. Aquela era minha ou do José? Douglas? Uma mandala pro Douglas, numa quarta, depois de dar uma aula? Então comecei a correr as páginas e encontrei uma verdadeira espiral de amantes, se intercalando ou se sucedendo, como espirais, como ondas, e, no final da noite, depois da novela e do jornal da Globo, o ponto final de muitas noites era nossa própria mandala. É. Lembro bem que nessa época a gente tinha voltado mesmo a realizar mandalas. E me deu uma vontade louca de mandá-la pra puta qui pariu, mas acontece que ela já fora e, pelo jeito, fora tarde. Muito tarde. Talvez eu devesse ser mais moderninho. Talvez todo aquele meu esforço, naquela época, pra melhorar, fosse no fundo mesmo muito ridículo, mas naquela época, parecia fazer sentido, parecia preencher cada silêncio dela, pois naquela época eu fiz dieta, eu comprei cuecas novas, eu li a revista Nova, eu aparei as unhas e as sobrancelhas, eu mudei o corte do cabelo, eu me perdia nas preliminares, eu fiz juras de amor, eu comprei um pacote pra Buenos Aires, eu, eu, eu… Então as mandalas foram rareando, todas as mandalas foram rareando, assim como as notas foram ficando cada vez mais taquigráficas, até que encontrei duas agendas recheadas quase que inteiramente de silêncios, ou de anotações básicas como “levei crianças na escola”, “peguei crianças na escola”, “fui dar aulas na faculdade”, “peguei o metrô”… Claro que ainda havia a hipótese de que ela tivesse, nesse tempo, criado, digamos assim, a agenda da agenda, um caderno muito secreto para uma eventual nova vida também secreta, mas o mais provável é que a vida dela, sua vida interior, estivesse, naquele ponto, igualmente secreta pra ela, talvez até mesmo inacessível, até que as anotações cessam totalmente, os cadernos acabam com datas de dois anos atrás e… Bem, não aparece mais nada. Há seis meses, enfim, nos separamos. Desde então não me dedico mais à arte arquetípica das mandalas, se bem que minha última descoberta na matéria tenha sido justamente uma nova mandala anal, como a senhora doutora a pouco acabou de constatar. Talvez eu esteja alcançando meu self.

 

(Continua…)

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19.1.09

Parte 7: Amada Amante

 

Chega: eu estou na TPM. Sabe qual a diferença entre a mulher na TPM e o pitbull? O batom. Isso é piada de Internet, o lar dos chauvinistas anônimos. Passo mesmo muitas horas no MSN. Dá menos trabalho, mas amar que é bom não é bolinho. Eu acho que amei umas duas vezes – não, três, não, vai ver foram mesmo duas. Eu tive mais de 30 amantes. Parabéns. Depois casei. Com um advogado. Ficou mais fácil, rápido e barato separar. Barato pra você, aposto que pra ele o barato saiu caro. Só a pensão dos filhos. Quantos? Dois. Um menino e uma menina. Antes de ter filhos um casal é uma família. Quantos você tem? Dois, também – e não pago pensão, eles vivem comigo. Sorte deles. Você não se considera uma boa mãe? Boas mães ajudam na lição ao invés de ficar ouvindo papo furado de desconhecidos com hemorróidas. Porque separou? A lista de motivos é longa e comum – e você? Acho que você podia me emprestar a lista. Mas há casais que vivem juntinhos a vida toda. Juntinhos até demais pro meu gosto. Casais que não apenas se aturam. Ou seja: você acredita no amor. E você? Tentei de todo jeito desacreditar, mas acho que minha formação católica, e, depois, tem meus pais, casados tem um milhão de anos ou, sei lá, o fato é que eu acredito no amor, principalmente porque já perdi três, ou dois, ou dois e meio – ou talvez porque não tive 30 amantes. Não quer dizer muita coisa. O fato de você ter contado quer dizer muita coisa. Não contei, é apenas uma aproximação, quer dize, um número aproximado. Doutora, você acaba de cometer um ato falho. Então talvez sejam mais. Ou menos. Minha mulher me abandonou, levei um tempão pra conseguir arrumar nossas coisas, jogar as dela fora, e olha que ela não deixou muita coisa, não que tivesse levado muito, mas conservava pouco. Num canto do armário, no fundo de uma prateleira, encontrei uns antigos cadernos. Eu fiquei arrepiado com a descoberta. Com medo. Petrificado. Tirei os cadernos do armário com cuidado. Respirei fundo. Peguei um deles, ao acaso. Folheei.

 

(Continua…)

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17.1.09

Parte 6: Lilith

 

Por exemplo. Eu fui casada 4 anos, ele me presenteava com a mais fina lingerie do planeta. O que aconteceu? Terminei fazendo banho de assento. Esse é o destino de Eva? Antes de Eva houve Lilith, a Lua Negra, mulher, monstra, deusa, demônio, coisa, que queria trepar por cima. Lilith eu conheço e o buraco é mais embaixo. Ela clamava que era igual aquele monte de lama, Adão. Na verdade, penso eu, ela sabia que, vinda da mesma lama, era muito mais que aquele monte de lama, Adão. Lilith foi mandada para o exílio. E depois foi fazer celebrity-pornô com o Alexandre Frota. Não joga no lixo o pouco que te sobrou de dignidade. Mas é a verdade: hoje a virgem faz pornô e continua virgem – o ginecologista comprova e aí ela diz “só fiz mesmo anal” – o que já dá o mote para um segundo filme pra ela “perder o selinho” e depois mudar a conversa: “não faço mais, minha família é evangélica”; ex-estrelas de novelas fazem pornô cabeção, com história e diálogo. Pouca gente resiste a trezentos paus pra encarar umas seis cenas de sexo. Basta fazer uma lipo, implantar silicone, tirar as duas costelas mais baixas pra ficar com a cintura fininha e, depois de um último filme, encarar uma carreira  de cantora funk. Não há mais preconceito. Nem a revista Caras vira a cara pra quem dá a bunda.

 

(Continua…)

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16.1.09

Cadernos, parte 5: gênesis

 

(Continuação…)

 

Mas… As revistas femininas de hoje tratam do assunto com igual minúcia, meu caro, oferecem o verdadeiro GPS do prazer. Do couro cabeludo ao courinho cabeludo? Hoje existe a depilação brasileira então pelos, para que tê-los? E as revistas ensinam, por exemplo, como tratar do famigerdo ponto G: basta introduzir um dedo na parte anterior da vagina e movimentá-lo como se estivesse chamando alguém: oi, psiu, vem cá, á, á, á, á… Sem falar nos grandes lábios, que você pode atiçar com a famosa série de nove: nove penetrações rasas seguidas de uma profunda, aí você começa a subtrair uma rsa e adicionar outra profunda… Vai com calma que eu me perdi! Quanto maior o número de séries, mais arrasador será o prazer alcançado! Mas… O prazer físico não é o fim exclusivo do ato do amor. Como música, ele atiça emoções, intensifica os sentidos, dissolve pensamento em ritmo. Há  o contato entre os corpos. O nó das virilhas. A ruptura da separação. O abrandar da respiração violenta. A serenidade de corpo e mente. Pessoas inteligentes, completa o tal do sábio que não escreve pra Marie Claire, acham tais comentários esclarecedores e suficientes para a compreensão do assunto – para seres como eu, infelizmente, não há remédio, como, felizmente, há salvação para as hemorróidas. Você está me gozando. Quem dera. Homens escrevem tratados. Mulheres escrevem diários. Mulheres querem se sentir irresistíveis. Mulheres gostam de se sentir subjugadas. Será por isso que nossa relação não anda? Talvez eu deva comprar uma lingerie sexy e pedir pra você fazer um streap-tease. Uma lingerie bem tirada é um prazer especial que poucos homens sabem oferecer. Homens vão logo ao que interessa. Homens desinteressados acabam desinteressantes. Mulheres sempre  têm razão. Eu tenho provas de que em pelo menos 80% das vezes são mesmo as mulheres que tem razão e, nos outros 20, é bom a gente se sentar e pensar sobre as coisas porque, de um modo ou de outro, formamos um casal. Homens não gostam de pensar sobre o casal. Homens não gostam de pensar. E então a sua mulher chega e pergunta “que é que você está pensando?” e o seu homem diz “nada, nada” e a sua mulher fica com a pulga atrás da orelha e fica desejando virar telepata. Tudo bem, então estamos mal, então eu vou embora. Não, é aí que você tem de se aproximar! Sempre sou eu que tenho de me aproximar. Ou então vai continuar dormindo na sala. Não, eu vou embora. Não, deixa, eu é que vou – você fica com as crianças. Doutora, você tem filhos? Quando meu casamento acabou jurei que jamais voltaria a me casar, ninguém me conhece ou me compreende como ele, por isso mesmo é melhor ficar sozinha. Só falta você me dizer que os homens são de Marte e as mulheres de Vênus? Existem infinitos livros de auto-ajuda sobre homens e mulheres. Começando com o Gênesis. Outro tratado masculino. Não serve para Carla Bruni, Madonna, Byoncé, Ivete Sangalo. Serve pra você? Querido paciente, você definitivamente não entende que um ânus é um ânus, que da boca ao cu somos o que comemos e como comemos, somos o que deixamos entrar, o que falamos, digerimos, vomitamos, defecamos, que da herpes às hemorróidas estamos todos na mesma luta. Mas isso é puro Gênesis: Eva comendo a maçã. Então. Então? Então porque não baixar a guarda? Então porque não baixar as calcinhas? Cavadas, asa-delta, enterradinhas, biquininhos, calçolas, eu ando pelas ruas imaginando as calcinhas debaixo das calças jeans, das saias, dos vestidos. Você não tem nada melhor pra fazer? Um banho de assento, por exemplo.

 

(Continua…)

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15.1.09

Os cadernos… Parte 4: Kama Sutra

 

Fez-se o silêncio. Eu tentei a conciliação: acho que fechamos o ciclo. É. Que cu. Você diz isso porque não viu o seu. É. Preferia ver o da doutora. Você é um cafajeste. Infame, vil, canalha – sou tudo isso, de acordo com algumas mulheres. À propósito, mulheres têm, sim, hemorróidas. Eu mesma já tive. Teve? Tive. Aí passou. Passou. Tudo passa – e se não passa a gente corta fora. Não quero cortar fora um pedaço do meu cu. Ninguém quer. Tem gente que quer cortar pedaços de tantas coisas. Eu não. Acho que já cortei pedaço demais ao longo dessa existência, acho que já tomei demais… No cu. É. Literalmente. Um dia, dá hemorróidas. A vida é um cu. Um amigo meu diz que adora chupar um cu bem limpinho. Um amigo seu? Um amigo meu – e não que eu adore, ou faça questão, mas reconheço que até que é gostoso. Credo. Comer um cu já é outra coisa. Nunca comi um cu. Já deu? Eu tenho outros pacientes pra atender. Já deu. Então sabe. Dói. A sodomia é uma tradiçã milenar. Não sou muito tradicional. Gostaria de almoçar comigo, pode escolher, tirando comida baiana e mexicana, por causa da pimenta. A sua atitude é completamente incompatível. E quem aqui pretende ser compatível? Eu pretendo ser compatível, completamente compatível. Lebre com corça, touro com égua, cavalo com elefanta -  isso é que é compatibilidade. Agora você  vai entrar na seara da zoofilia. Não: são os textos sagrados, lá do Kama Sutra, indicam que há três tipos de pênis, Lebre, Touro e Cavalo; e três tipos de yonis. Yonis? Vaginas: corça, égua e elefanta – os pares ideais são corça com lebre, égua com touro, elefanta com cavalo – isso é que ser compatível, se é que você me entende – o auge da compatibilidade, digamos assim, ou preciso ser mais claro? Como a maioria dos homens, você está sendo óbvio. Segundo os textos medievais, lebre e corça medem seis dedos; touro e égua, nove; cavalo e elefanta, 12. Mas dedos seus ou dedos meus? Os seus, doce doutora, são finos e alongados, dedos de cirurgiã, de especialista – mas segundo os textos medievais cada dedo tem largura correspondente a dois centímetros – é só fazer as contas. Caralho! Exatamente. A vagina é elástica. As conjunções extremas raramente satisfazem, segundo os textos medievais.  Elefanta? Com lebre. Corça… E cavalo! Para os pares restantes, num total de seis graus de relativa adequação, a compatibilidade depende de temperamento e perícia. Homens são peritos em abrir potes de palmito, para o resto existem os vibradores. Três são os temperamentos sexuais: ardoroso, moderado, frio. Um homem de natureza fria pouco desejo tem – o sêmem – e não sou eu quem diz, mas os textos medievais – esguicha sem vigor, e ele evita unhas e dentes da amada. Homens ardentes não escondem o desejo. E os moderados? Mantem o desejo sob controle. Aliás, para cada homem há o equivalente feminino, acrescentando às conjunções físicas nove possíveis relações de temperamento, sacou? Ô. A doutora, por exemplo, em qual categoria se enquadra? Acho esses textos medievais muito duros, foram certamente escritos por homens. A perícia do amante, diga-se de passagem, se avalia na medida em que sabe proooooolongar o prazer do amor. Entendo. Amantes podem ser peritos, adequados e inábeis – o que aumenta em mais nove as possíveis relações. Homens e mulheres são muito diferentes. Vatsyayana, suposto autor do Kama Sutra, concorda com a doutora – e também aceita que, por costume, homens dominam e mulheres são dominadas, embora não tarde em emendar: a natureza do homem é apregoar “estou fazendo amor!”, enquanto a mulher arrulha: “este homem me faz amor!”, mas o prazer, quando chega, não sabe mais quem é quem, quem é homem, quem é mulher. Traduzindo: ele pode dizer “vou te foder todinha” enquanto ela geme “me fode”, mas na hora do vamos ver o que importa mesmo é a foda – o resto que se foda! Carneiros se chocam, galos se agridem, lutadores se engalfinham – e o choque entre eles se distribui – e assim também é quando homem e mulher se amam. Não adianta alegar que carneiros são carneiros – e lutadores, lutadores – mas homens não são mulherees. Homem e mulher são o mesmo nervo, o mesmo sangue, o mesmo músculo, tudo osso, tendão e alma. O mesmo ramerrão. A mesma lama. Lingam e shakti – pênis e vagina – são feitos um para o outro, se unem pelo ardor do desejo. E para que você decline de vez de pensar que nosso autor lá da Índia é um chauvinista ocidental contemporâneo como eu, ele ainda arremata: toda mulher a alegria do orgasmo deve conhecer – assim como todo homem deve aprender as artes do amor. O beijo. A carícia. As posições. Os jogos dos dentes e das unhas. O prazer da amante antes do seu. Ufa! Viva o BRIC!

 

(Continua…)

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