Crônicas de Celso Cruz

Um blog dedicado a textos, crônicas e poesias de Celso Cruz.

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02.07.08

pé de meia

 

Fui conferir na gaveta. 12 pares de meia. Meias para usar com sapato social, marrons e pretas. Meias para verão e para inverno. Meião pra futebol. Tinha de tudo - e tudo em bom estado. Mas justamente naquela manhã saí com o raio de um par de meias com um furo na ponta. Ainda estava escuro, minha mulher dormia, as meias sociais estavam lavando, peguei o que achei, pus no pé, meio sonado, nem percebi. Mas acontece que, poucas horas depois, bati o carro. Uma  batida de bobeira, num estacionamento. Sem perceber, dei uma tremenda porrada num poste de ferro. Quebrei o vidro do carro com a cabeça. Acho que abaixei pra pegar o tíquete e, pronto, só saquei a coisa toda com o chicote que, após a testada no vidro, lançou minha cabeça para trás. Tudo parou. Passei a língua nos dentes - todos no lugar. A cabeça latejava. Respirei fundo. Tempo. Então, sai do carro. Veio um atendente. Perguntei se minha cabeça sangrava. Ele disse que não. Pedi que, junto com um colega, ele colocasse o carro num canto. O capô, bem amassado. O radiador, furado, aquela trilha de água pelo chão. Falei: vou pro hospital, depois resolvo a história  aqui. Disseram: o estacionamento fecha às nove, se passar paga nova diária. Não ofereceram ajuda. Peguei um táxi em frente e pedi o hospital mais perto. Lá, no  pronto-socorro, fui atendido rapidamente. Batida tem preferência. Após exame preliminar, onde disse que estava zonzo e com sono, a testa visivelmente inchada e vermelha, resolveram me internar para raio-X e tomo. Puseram colar ortopédico imediatamente. Aí, pediram para que eu tirasse a roupa. Com o raio do colar, não foi mole. Aí, ao tirar o sapato, aquela desgraçada daquela meia preta. Eu, ali, de avental hospitalar. cueca e meia preta com o dedão furado. Que vergonha. Os enfermeiros, respeitosos, talvez tirando sarro por dentro e por trás, ficaram na deles. Eu, zonzão.  Horas se passaram. Passeios de maca pelo hospital, eu olhando o teto como em tomadas de seriados americanos. Chegam meu pai  e minha esposa. Vem um médico: talvez seja fratura numa vértebra, ainda não sabemos, daqui a pouco os exames ficam prontos; não deve ser nada grave; se fosse, a essa altura ele nem se mexeria, estaria para ou tetraplégico. Esses médicos de hoje assistem House demais. Bem... Eu também. Os exames não deram nada. Pra falar a verdade, quase nada. O ortopedista constatou desgaste numa vértebra, coisa antiga, nada a ver com o acidente, deu seu cartão, atende pelo convênio. Enfim, me liberaram. Eu e o enfermeiro sozinhos na sala para que eu me vista. Ele me ajuda a levantar. Discretamente, escondo o pé direito como posso. Vontade de por os sapatos antes da calça. Enfim, vestido, agradeço. Recebo atestado para ficar dois dias longe do trabalho. Acho que estou precisando. Vou aproveitar para limpar a gaveta e comprar meias novas.

 

25.06.08

O Representante

 

Esta história eu ouvi de um grande sujeito, representante comercial do nordeste, atuando entre Recife e Maceió. Registro como carinhosa homenagem ao Seu Ricardo e ao Seu Zé do Bode.


Seu Zé da Silva, mais conhecido como Zé do Bode, é o homem rico da cidade. Analfabeto, com ele é no fio do bigode. Quando confia, confia. Me liga na segunda. “Seu Ricardo, o senhor me apareça aqui amanhã de manhã que quero comprar um camião e quero que o senhor me acompanhe. Pode ser?”. Mas seu Zé, precisa não comprar caminhão, bobagem. “Mas se eu quero comprar camião é porque eu quero. Posso ou não posso?” Apareço lá na manhã seguinte. “Vamo na minha Rangi comprar o bruto.” Ele pega uma sacola de feira, entra no carro, pede que eu guie. Vamos. Chegamos na concessionária. Ele olha os autos no pátio. “Quero aquele.” Qual? “O encarnado.” Aquele? “O encarnado!” O vermelho. “Seu Ricardo, o senhor me pergunta quanto é. Custa 150, Seu Zé. “150? Pergunta quanto é à vista.” É 150. “Pergunta se faz 140.” O vendedor me diz que chega em 145. 145, Seu Zé. Damos uma chegada na mesa do vendedor. Seu Zé nem olha pra ele. Despeja o saco de supermercado na mesa. 140 mil em dinheiro. Eu suo inteiro – viajar pelo sertão com 140 mil no carro, se a notícia se espalha a gente não chega vivo em lugar nenhum. Seu Zé olha pra mim. “Pergunta se ele faz 140 no arame.” Faz? Ele faz, faz. “Então, feito.” O homem pede que a gente vá ao caixa. Daqui a pouco, entrega a nota. “Cadê meu camião?” Ô, Seu Zé, a gente não leva o caminhão hoje, não. Tem que fazer uns acertos. A gente pega amanhã. “Então nada feito. Devolve meu dinheiro. Como é que eu dou 140 mil e levo de volta um papel? No senhor eu confio, seu Ricardo, mas não confio assim em qualquer um. Dou meu dinheiro, levo o encarnado.” Mas não é possível, Seu Zé, pode confiar. “Eu lá vou trocar meu dinheiro por papel?” A nota é garantia. “Sei não. O senhor garante?” Garanto. Além disso, se a gente sai dali com o dinheiro, a notícia corre e a gente não chega em casa. “A gente volta amanhã na Rangi.” No dia seguinte, voltamos. Seu Zé vai guiando o encarnado. “O senhor vai na Rangi.” E como é que eu devolvo? “Leva ela pra casa.” Vou passar a semana na estrada. “Vai de Rangi. Depois mando buscar.”


24.06.08

o número da besta

 

Não sou dos piores, mas estou longe de não ser um sujeito supersticioso. Noto as conexões e, dentro do possível, seguro as pontas. Exemplo: quer coisa mais desagradável que viajar num vôo meia-meia-meia? The number of the beast, como ainda brada o Iron Maiden.

 

Pois é. Meu vôo pra Recife tinha a honra de terminar com esse número. Notei que já no saguão a moça da voz do aeroporto já tomava cuidado ao pronunicar a identificação. Fazia uma pausa caulada: "Atenção, senhores passageiros do vôo um-seis... Pausa... Seis, seis, com destino..."

 

Então, por que raios os sujeitos que organizam os vôos já não simplesmente pulam o tal número? Vôo 1665, vôo 1667...

 

Não dá pra embarcar sossegado. Qualquer turbulência, então, só com reza brava. E, nessa minha viagem pra Recife, foi o caso!

 

Se a ida não foi nada memorável, o que dizer da volta.

 

Tudo começou bem. Embarque na hora certa - o que é coisa rara. Avião para São Paulo, com escala no Rio.

 

Três horas depois, estávamos no Galeão. "Senhores passageiros com destino a São Paulo, queiram permanecer na aeronave." Saíram os poucos com destino carioca e ficamos nós, lotação quase esgotada.

 

Quinze minutos. "Senhores passageiros com destino a São Paulo, queiram desembarcar. Por motivos operacionais, vamos trocar de aeronave."

 

Lá fomos nós. Saímos de um avião e imediatamente entramos em outro. "Queiram conservar os mesmos lugares." Mais quinze minutos. Vem o comandante: "Tripulação, preparar para decolar."

 

Todos afivelamos cintos. Aquele silêncio habitual. O avião faz taxeamento, vai pra cabeceira da pista, pronto pra acelerar. Tempo. Vem nosso comandante. "Senhores passageiros, por motivos de segurança, a aeronave retornará a sua base."

 

Estacionamos de novo. Entra equipe de mecânicos de desenho animado, com macacões, "manutenção" escrito nas costas em letras garrafais. Pelo menos quatro caras entram na cabine do avião. Ficam lá belo tempo. Um sai. Volta. Movimento. Cochilo na cadeira. Tempo.

 

"Senhores passageiros, vamos partir em quinze minutos." Mais quinze? Tudo bem. Homens entram e saem. Meia hora depois: "Senhores passageiros, em nome da sua e da nossa segurança, vamos trocar novamente de aeronave."

 

Saimos como carneios. Lotamos alguns ônibus. Mães com crianças de colo. O vôo chegara no Rio às 22h30. Devia estar em SP à meia-noite. Fizemos esse traslado para a nova aeronave à meia-noite! "Senhores passageiros, queiram conservar seus lugares."

 

Conservamos.

 

Talvez tenhamos voltado  para a primeira nave. Não tenho certeza. Os aviões são todos iguais. Apertados.  A cada mudança, a cara de nossas comissárias murchava mais um pouquinho.  Haja maquiagem. Todas cansadíssimas, como nós. E sem argumentos...

 

Nos acomodamos rapidamente, o avião taxiou, nada de papo do comandante, pronto, estamos no ar!

Passa meia hora. "Senhores passageiros, aqui é seu comandante. Venho esclarecer os acontecimentos. Nossa primeria mudança de aeronave deveu-se a estratégia da empresa na malha aeroviária." (Ou coisa assim.) "Nossa segunda mudança aconteceu por problemas na aeronave e para garantir a sua e a nossa segurança." (Ainda bem.) "Infelizmente, ainda tenho uma má notícia." (Me senti num daqueles Disaster Movies dos anos 70: Aeroporto 74...) "A visibilidade em Guarulhos está piorando. Talvez tenhamos que voar para Campinas. Daqui a pouco confirmo a situação. Muito obrigado."

 

Foi aquele "ÓÓÓ..." no avião. Fazer o quê? Meia hora depois, ele confirma. "Senhores passageiros, realmente a visibilidade em Guarulhos está zero... E piorando.... Vamos para Campinas! Chegaremos lá em cerca de 15 minutos."

 

Desembarcamos no meio do nada em Viracopos lá pelas 3h15. Táxi para SP a 285 reais. "É o mercado", diz o rapaz da cooperativa de taxis. Vamos de ônibus da empresa aérea. "Não adianta ir para Congonhas. O aeroporto fechou às 23h."

 

Durmo bem no ônibus. Chegamos às 4h e 20 em Guarulhos. Peguei um táxi. Pensei que, depois de tanto rolo, fosse morrer na Marginal, tal a velocidade que o carinha desenvolveu. Chegamos na Vila Madalena 4h40.

Beijei minha mulher e meus filhos, tomei uma sopinha e fui dormir. Sete horas estava de pé para ir trabalhar.

 

 

20.06.08

Filé (Bolo de rolo 2)

 

Filé

Toca a campainha do 504. O filé chegou. Prato coberto com travessa de alumínio. Ponho na bancada, ao lado da TV. Levanto a travessa. Belo filé recheado com queijo branco e presunto, arroz e legumes. Cadê os talheres? Levanto o prato, a toalha da bandeja. Nada. Ligo no restaurante.
- Aqui é do 504, acabei de pedir um filé, ele chegou, mas veio sem talher.
- Sem talher?
- É. O senhor pode enviar...
- Não é possível.
- O talher?
- É. O senhor procura aí.
- Já procurei, meu amigo.
- Olha debaixo da toalha.
- Já olhei.
- Então não foi talher?
- O senhor pode mandar?
- Tô mandando.
Desligamos. CSI na TV. Espero. Olho o filé, que olha pra mim. A carne esfria. Intervalo da série. Toca o telefone.
- Alô.
- Sim.
- O senhor que pediu talher?
- Sim.
- O senhor olha aí que tem talher.
- Não tem, não senhor.
- Procura no guardanapo.
Volto o olhar para a bandeja, procuro.
- Não veio guardanapo.
- Não veio guardanapo?
- Não.
- O senhor olhou bem?
- Por favor, o senhor envie talher e guardanapo.
- O senhor não pôs em algum canto?
- Meu amigo, o filé está esfriando!
- É pra já.
Desligou. Sento na cadeira. Acaba o intervalo. Toca a campainha. Abro a porta. O atendente entra imediatamente no corredor do apartamento e olha para o quarto, sobre a TV, para a bandeja na bancada.
- O senhor quer ver se não veio talher!
- É. Posso entrar?
- O senhor já entrou.
- Posso olhar?
- Por favor.
Ele se movimenta sem cerimônia pelo quarto. Olha a bandeja. Levanta o prato, a toalha. Vasculha tudo.
- É. Não veio talher.
- Não disse?
- Toma aqui. O talher. E o guardanapo.
- Obrigado.
- Não é que eu não acreditasse no senhor.
- Claro que o senhor não acreditou em mim.
- E não é que não veio mesmo...
- Então.
- Então boa noite.
- Boa noite.
Ele se vira e vai saindo.
- Tá gostando o filé?
- Eu não comi ainda, porra! NÃO VEIO TALHER!
Fecho a porta. Enfim, vou jantar.


19.06.08

Bolo de rolo (primeira parte)




Geometria


Cheguei em Recife no domingo à noite, chovia muito, tomei um táxi e fui pro hotel em Boa Viagem, a duas quadras do mar. O quarto dava pra avenida, quinto andar, o moço que carregou as malas ligou imediatamente a TV, mostrou os canais por assinatura, deixou a tela ligada e foi embora. Sozinho. Gripe pegando, corpo doído e fiapo de voz. Botei camisas nos cabides, desci pro restaurante vazio, sentei longe do ar condicionado, examinei o cardápio e pedi um filé de peixe no azeite, deitado sobre cama de tomates, pimentões e páprica doce. Entrou outro sujeito, que também devia estar ali a trabalho, sentou em mesa distante, mas de frente pra mim e bem debaixo do ar. Também fez pedido. Logo chegou meu suco de laranja e o antepasto. Manteiga, pasta de queijo, azeitonas preta, cubos de presunto e pedaços de pãezinhos com manteiga salgada aquecidos. Os pães estavam bons. Tomei o suco de laranja sem gelo. Chegou o antepasto do outro homem. Uma loira entrou no restaurante e sentou-se em mesa distante, dando as costas para os outros dois clientes e determinando um rigoroso triângulo eqüilátero. Ela também leu o cardápio e fez seu pedido. Um garçom veio da cozinha com meu prato. O peixe acompanhava arroz branco e purê de batatas. Não gosto de comer sozinho. Devoro ainda mais rápido do que de costume minha refeição. Experimentei diminuir cada bocada, mas a situação no restaurante me constrangia. Estava pelo meio do peixe quando chegou o prato do outro homem. Estiquei o pescoço e conferi que ele pedira frango. Antes que seu pedido chegasse, ele devorou o cesto de pães e as azeitonas. Eu deixei bastante do meu couvert. Logo chegou o prato da moça, que não consegui determinar. Comemos, os três. Terminei primeiro. O garçom perguntou se queria sobremesa. Pedi a conta. Assinei-a e subi para meu quarto. Fui ver o Fantástico.



Remédio


Lá pelas onze e meia desliguei a TV. O barulho que veio da rua era infernal. Por isso o rapaz das malas ligara o aparelho rapidinho. Vi se a janela tinha vedação. Não tinha. Puxei as cortinas. Tomei um Resprin. Ao invés das 20 gotas do meu remédio antroposófico, tomei 25. Mais 3 comprimidos de estressedorum. Liguei pra recepção e pedi pra ser chamado às seis e meia. Virei pro lado e dormi.


Manhã


Acordei quinze minutos antes da chamada do recepcionista, que tinha sotaque inglês. Estava quebrado, a garganta doendo. Tomei dois copos de água do frigobar e espirrei mel com própolis na garganta. Fiz a barba. Tomei banho. Me vesti. Desci pro café. Tinha até carne de sol. Comi mamão e jarro de café com leite. Fui até o auditório onde, daqui a pouco, começaria meu curso. Pedi pro técnico um microfone. Verifiquei o datashow. Fui pro quarto escovar os dentes.



Curso



A turma tinha 29 alunos. Gente maravilhosa. De Recife, Aracaju, Salvador, Goiânia, Maceió... No grupo, apenas 5 mulheres. Idades entre 19 e 50 anos. Todos muito gentis e participativos. Graças a eles, considero que o trabalho foi maravilhoso. Eles toparam todos os jogos, exercícios, brincadeiras e teorias que lancei. Exigiram de mim e deles mesmos. E se superaram. Escreveram, fizeram cenas, dialogaram. Fazer um curso assim sempre me alimenta, me faz bem, mesmo que, dessa vez, eu não estivesse com a melhor das formas físicas. Aliás, abri o curso já me posicionando e, graças à compreensão deles e ao ambiente do hotel – a sala com boa acústica, os aparelhos funcionando, os coffees nas horas combinadas e o apoio sensacional da empresa patrocinadora, que marcou presença com representante paulista de seu RH – tenho a certeza de que o curso foi maravilhoso. Agradeço a todos. Abraço todos. Valeu!